Igreja mira Amazônia para acertar governos e globalização

Após vários anos usando temas mais distantes da política e uma retórica mais amena, a Igreja Católica brasileira iniciou nesta quarta-feira, 21, a Campanha da Fraternidade de 2007 com críticas aos governos e aos efeitos da globalização, tendo como mote a defesa da Amazônia. "(A campanha) é um convite para que toda a sociedade brasileira repense, a partir da realidade amazônica, o modelo de desenvolvimento que se quer para o País como um todo", diz o texto base da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para a campanha, que começou nesta Quarta-Feira de Cinzas com uma celebração na Ilha do Cumbu, na região de Belém. Nas mais recentes edições do evento, os assuntos discutidos foram os portadores de deficiência, a terceira idade e a paz. "Esta riquíssima ´sociobiodiversidade´ ... é também um chamado à responsabilidade do Estado e da sociedade para que não continuem financiando ou tolerando um modelo de desenvolvimento predador", afirma o documento. Entre as propostas dos religiosos, que serão debatidas na capital paraense nesta quinta-feira, 22, com deputados e senadores de Estados da Amazônia Legal, estão o fim da reintegração de posse a fazendeiros que têm terras invadidas e políticas de desenvolvimento sustentável, com ênfase na questão da água. ´Idas e vindas´ Composta por nove Estados - Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso -, a Amazônia Legal é morada de muitas autoridades católicas próximas à Teologia da Libertação, que propõe a visão de um Jesus Cristo revolucionário e que vê necessidade de a Igreja se envolver na transformação social. O arcebispo de Belém, d. Orani Tempesta, vê boa vontade na sociedade para debater as questões da Amazônia, apesar do que chama de "idas e vindas" na atuação dos governos. Mas critica, com discrição religiosa. "Nós todos, de um lado e do outro, vamos nos aprofundar nessa questão com essa oportunidade que abrimos. Nós sabemos que não tem como voltar atrás da globalização, somos realistas. Mas ela precisa ser mais bem orientada e ter mais respeito pelas culturas locais. Isso ainda está por acontecer", disse ele à Reuters por telefone. Na Região Norte do País, onde está a maior parte da Amazônia, a Igreja Católica tem perdido fiéis para religiões neopentecostais. A CNBB, no entanto, nega que isso tenha pesado para a escolha do tema e para o local de lançamento da campanha, sediado fora de Brasília pela primeira vez. Protestos Dez organizações católicas se uniram para assinar um manifesto contra a forma de lançamento da campanha, a qual chamaram de elitista e distante da vida das populações amazônicas. O evento foi organizado em uma ilha por uma empresa de eventos e teve o patrocínio da Companhia Vale do Rio Doce. "É a primeira vez que isso acontece, de ter um início de campanha tão longe do povo. Ali só entrou quem tinha convite", disse à Reuters Madalena Santos, uma das coordenadoras nacionais da Comissão Pastoral da Terra. No manifesto, a pastoral e os outros grupos dizem que "o caso da Vale é tão gritante que a própria Igreja, através do Grito dos Excluídos e da 4ª Semana Social Brasileira ... se comprometeu em propor um plebiscito popular para a anulação do leilão" que privatizou a companhia. Responsável pela organização do evento, o arcebispo de Belém considerou equivocado o teor do manifesto e lamentou que os autores não tenham conversado com ele antes de divulgá-lo. "A abertura da Campanha da Fraternidade sempre foi uma entrevista coletiva. Sempre. E aqui tivemos mais do que isso, tivemos convidados porque as autoridades se interessaram, o que poderia nos dar mais visibilidade. Com uma conversa eles teriam entendido isso, mas preferiram demonstrar que desconhecem o funcionamento do evento", afirmou. "A empresa patrocina quem ela quiser e existe Judiciário e Ministério Público para apurar se houver algo de errado relacionado a ela ou ao trabalho que ela faz. O que a gente não pode é condenar de antemão, eleger alvo de expurgo desse jeito", acrescentou. A primeira Campanha da Fraternidade foi feita em 1964 para discutir problemas com a sociedade e propor soluções. Após o lançamento, serão feitos debates também nas dioceses de todo o País até a quinta-feira anterior à Páscoa.

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