Ignorar discussão sobre mensalão é pior para o PT, diz Weffort

Participação de dirigentes do partido no escândalo deve ser discutida, diz sociólogo.

Denize Bacoccina, BBC

31 de agosto de 2007 | 21h42

O sociólogo Francisco Correa Weffort, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, que deixou o partido para ser ministro da Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso, acha que o PT deve discutir a participação de dirigentes do partido no escândalo do mensalão, sob pena de manchar a reputação de todos os integrantes da legenda e alienar pessoas que não concordam com a situação.O partido realiza neste fim de semana seu terceiro congresso, o primeiro no governo, com a cúpula do partido dividida entre aprofundar ou não a discussão sobre a participação de dirigentes no escândalo."No momento é ruim discutir, mas a médio e longo prazo não discutir é pior, porque vai afastando pessoas", afirma Weffort. "A vantagem de se discutir essas coisas em política é que um grande número de pessoas dão uma prova de que são gente honesta, de que não estão roubando, etc. Quando as pessoas se calam, a suspeita vai crescendo", diz ele.Veja a entrevista concedida por Weffort à BBC Brasil: O que eu vejo do PT é uma pequena parcela do que via quando estava lá. Agora vejo de fora. Mas mesmo assim o PT mudou muito. O PT podia cometer outros erros, o PT era sectário, o PT era puritano, o PT era moralista, o PT era principista. Mas não era ladrão. Ou pelo menos não se sabia de nenhum ladrão lá dentro. Essas coisas nem passavam pela cabeça das pessoas e se houvesse uma conduta irregular com relação a fundos públicos, o sujeito seria excluído em 24 horas. Eu não sei se eles vão discutir ou não. Eu suponho que todos vão ficar um pouco inibidos de tratar o tema, porque eles vão considerar que isso vai dividir mais o partido numa fase difícil. Mas eu acho que não discutir é tão desmoralizante quanto discutir. É uma sangria que se vai agravando. A vantagem de se discutir essas coisas em política é que um grande número de pessoas dão uma prova de que são gente honesta, de que não estão roubando, etc. Quando as pessoas se calam, a suspeita vai crescendo. Se ninguém fala nada, são todos mais ou menos cúmplices. No momento é ruim discutir, mas a médio e longo prazo não discutir é pior, porque vai afastando pessoas. Eu conheço pessoas que se afastaram por isso, porque ninguém fala nada, faz de conta que não aconteceu coisa nenhuma. Isso é muito grave porque pessoas que têm um critério petista mais antigo em relação a este assunto se sentem atingidas. Levanta-se uma dúvida sobre 15. Ou discutimos ou todos os 15 mil vão ser afetados. Enfim, é uma situação difícil. Discutir agora é difícil, não discutir eu acho que é pior. Isso é uma evidência de uma surpreendente independência do Supremo em relação ao Executivo. Porque dos 11 membros do Supremo (10 durante o julgamento, porque um se aposentou), seis foram indicados pelo presidente Lula. O relator é um ministro que foi indicado pelo Lula. Você esperaria uma divisão de votos maior. Já era surpreendente a denúncia do procurador-geral, que também foi indicado por este governo. Eu vejo isso de dois ângulos: primeiro, uma preocupação de muita gente de consolidar as instituições democráticas. Acho que isso provavelmente deve existir até dentro do próprio governo. E que certamente existe na imprensa e num setor muito importante da opinião pública. É um sinal de consolidação das instituições democráticas. O que é realmente a resposta a uma preocupação. A desmoralização da Câmara e agora do Senado, com o caso do Renan (Calheiros), e o fenômeno do mensalão, do sanguessuga, que comprometeu muito a reputação do governo no respeito às regras republicanas. Havia uma preocupação grande sobre para onde nós estamos indo. Olha, depois dessa decisão do Supremo eu estou mais confiante. Mas são duas coisas diferentes: primeiro, quando Lula foi eleito, eu saudei isso como um avanço democrático, e acho que foi mesmo. Mas houve um momento, que foi o momento do Palocci, a perseguição do Francenildo, que tinha no noticiário muita informação mencionando mecanismos internos do governo no sentido de obstaculizar a fiscalização. E foi neste momento que eu escrevi aquele artigo dos inimigos da democracia. Realmente era uma preocupação. Hoje eu vejo com mais confiança. Porque este julgamento não sai de graça. Este assunto está no ar há dois anos. Por mais que o Lula seja preguiçoso, e ele não é. Ou o Tarso Genro seja distraído, e ele não é. Eles estariam preocupados em conversar com alguns ministros. Se tentaram e não deu resultado, é um sinal positivo. E se nem tentaram, é um sinal mais positivo ainda. Porque eles confiaram que a instituição funcionaria normalmente e ou a verdade prevaleceria, ou o ponto de vista deles prevaleceria. Eu tenho mais confiança agora porque me dá a sensação de que o jogo foi limpo. Ah, eu acho. É fruto da pressão da opinião pública por um lado, e é fruto desta trajetória que vem desde o período de 74, 78, já são 30 anos, que a pressão é pela democracia. Eu acho que o impacto não é bom. O Lula diz que não afeta o governo, mas não é verdade. O governo está lá para gerir o Estado. Uma parte dos problemas de gestão que o PT está tendo vem da desmoralização deste aparato. Nós tivemos uma crise enorme na aviação civil e ninguém fez nada. O governo não se sentia com moral para tomar decisões. Eu acho que o governo vai continuar este governo lento, impreciso, precário. Ele não tem capacidade de mobilizar a própria máquina do Estado. Acho que o governo não vai ter um desempenho bom daqui para a frente. Vai depender do desempenho da economia, e isso não depende do governo. Vai continuar gerindo a economia do jeito que vem gerindo e não vai conseguir o apoio necessário para eleger o seu sucessor. Um, porque o PSDB tem o governo no Rio Grande do Sul que nem consegue pagar os funcionários, tem governo em São Paulo e em Minas Gerais, que são os Estados mais importantes. O PSDB é muito fraco no Nordeste, com exceção do Ceará, muito fraco no Rio de Janeiro. E todos os governadores têm que administrar seus Estados, não querem brigar com o governo federal. Outro aspecto é que o PSDB é um partido de caciques, não é um partido de índios. Então eles estão o tempo todo fazendo manifestações pessoais, cuidando cada um do seu próprio interesse, e não tem é um partido de mobilização, como o PT era no começo. Num sistema de dois turnos, todos os partidos vão querer ter candidato. E o PSDB vai querer ter candidato. Com toda probabilidade ele chega ao segundo turno. O outro candidato vai ser o candidato do Lula. Todo o problema consiste em saber se o Lula vai ser capaz, no segundo turno, de fazer essa transferência de voto. E eu acho que não. É muito difícil no Brasil porque, com essa enorme desigualdade, por mais que você faça, sempre falta muito pra fazer, e o seu adversário pode usar isso.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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