Identificada ossada de desaparecido político

Último contato de Aluízio Palhano, líder sindical cassado pelo regime militar, com a família foi em abril de 1971

Alexandre Facciolla, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2018 | 00h14

BRASÍLIA - A identificação do corpo do líder sindical Aluízio Palhano Pedreira Ferreira foi anunciada nesta segunda-feira, 3,  no 1.º Encontro Nacional de Familiares, promovido em Brasília pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), ligada ao governo federal. Desaparecido político desde 1971, Palhano era um dos chefes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), quando foi preso na ditadura militar. A ossada estava na vala comum descoberta em 1990 no cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona oeste de São Paulo.

O destino de Palhano era controverso. Suspeitava-se que tivesse sido morto na Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), uma prisão clandestina mantida pelo Centro de Informações do Exército (CIE), ou  em São Paulo, no Destacamento de Operações de Informações (DOI), do 2.º Exército,  sob o comando do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, que negava a tortura e morte do preso.

Ustra e um de seus subordinados chegaram a ser denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) por esse crime, mas a Justiça decidiu rejeitar a acusação em razão da Lei de Anistia (1979). A acusação que ligava sua morte ao DOI de São Paulo era amparada pelo depoimento de duas testemunhas que presenciaram a tortura de Palhano nos dias que antecederam seu desaparecimento – entre elas, o jornalista Altino Dantas Júnior.

Mas até o laudo divulgado nesta segunda-feira não se sabia o destino final de Palhano – o cemitério Dom Bosco foi o lugar onde eram enterrados vários dos militantes políticos presos e mortos pelos homens do DOI.

Palhano foi vice-presidente do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), posto na ilegalidade em 1964. Ele estava na primeira lista de cassados pelo Ato Institucional-1, publicada pelo governo militar. Exilou-se em Cuba onde representou o Brasil na Organização Latino-americana de Solidariedade (OLAS). Aderiu à VPR, organização armada da qual seria um dos líderes, e voltou ao Brasil clandestinamente em 1970. Acabou sendo preso com base nas informações do agente infiltrado José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo. Seu último contato com a família foi em abril de 1971.

A identificação científica de sua ossada é a segunda do grupo de trabalho Perus – a outra, de Dimas Casemiro, integrante do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), foi entregues à família em agosto. “Foi praticamente um presente que nós recebemos agora no final do ano”, disse Eugênia Gonzaga, presidente da comissão especial. Para o coordenador científico do grupo, Samuel Ferreira, identificar um desaparecido cujo nome não constava no livro de registros do cemitério é um “marco”.

O Grupo de Trabalho Perus foi formado em 2014 e engloba o Ministério dos Direitos Humanos, Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, Prefeitura de São Paulo e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde 1.049 caixas com restos mortais do cemitério clandestino estão sendo preservadas e estudadas.  As remessas de material para análise começaram a ser feitas em 2017.

No total, já foram enviadas amostras de 350 casos para o International Commission on Missing Persons (ICMP), que tem parceria com a comissão e tem sedes em Sarajevo, na Bósnia, e em Haia, na Holanda.

A praxe, segundo Ferreira, é enviar duas amostras por caso, então foram 700 amostras das ossadas mais 80 amostras de sangue de familiares colhidas pelo GT Perus. Duas remessas foram feitas - da primeira, realizada em 2017, houve a identificação de Dimas Casemiro. Em setembro deste ano, foi enviada a remessa que identificou Aluizio. “Até o final do ano, enviaremos mais 200”, afirmou Gonzaga. / COLABOROU MARCELO GODOY

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