Andre Dusek/AE
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Ideli admite que Congresso 'às vezes faz chantagem'

Responsável pela articulação política atribui problema à exigência de se ter governo de coalizão e cita diferenças entre Lula e Dilma

Débora Bergamasco/Brasília, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2013 | 19h05

Enfrentando uma das mais agudas crises entre Executivo e Legislativo, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, admitiu ao Estado que o Congresso às vezes faz chantagem com o governo e diz que a prática não é vista com bons olhos pela presidente Dilma Rousseff. Adianta que na próxima semana vai liberar R$ 2 bilhões em emendas parlamentares, o que deve desanuviar o céu de Brasília. E recomenda "divã e maracugina" aos parlamentares.

"Vou te dizer que essa possibilidade (de chantagem) existe e de vez em quando acontece", disse Ideli. Na posição de mediadora entre os dois Poderes, a ministra atribui a culpa desse costume ao sistema político eleitoral, que obriga a formação de um governo de coalizão.

"A questão dos cargos, que não é prerrogativa dos parlamentares, acaba sendo uma, digamos, decorrência da obrigatoriedade de fazer coalizão. O aliado pensa: ‘Se vou ajudar aqui (no Executivo), o meu partido vai ajudar lá (no Legislativo)’. Então é legítima também a postulação de compartilhamento dos postos de execução do governo."

Em outras palavras, a ministra vê como natural o toma lá dá cá. Mas reconhece que nem sempre o universo é harmônico e detecta abusos. "É claro que isso, em muitas situações, acaba provocando distorção, como apresentação de nomes que não são compatíveis, ou exigências que passam da conta, passam do razoável para a coalizão."

Além de aspirar a nomeações, os legisladores estão ressentidos porque o dinheiro das emendas parlamentares ainda não começou a pingar. A ministra se esquiva: "No ano passado, que o orçamento foi votado na época certa, eu já estava empenhando as emendas em abril e este ano ainda nem comecei. Mas foi responsabilidade nossa? Não. Eles poderiam ter votado o orçamento no ano passado."

‘Pior cadeira’. Sentada há dois anos na "pior cadeira" da Esplanada, Ideli diz se sentir como um problema de Física - disciplina na qual é licenciada para dar aulas - por sofrer pressões da Presidência, dos parlamentares, prefeitos e governadores. "Tudo bem, pode ter flechinha de força vinda de todos os lados, o importante é a força resultante. E a nossa resultante é positiva. Apesar das flechas e das flechadas." Para recordar, força resultante na Física é o somatório vetorial de todas as forças que atuam sobre um corpo. Na política, significa aprovar no Congresso matérias de interesse do governo, como desonerações, MP dos Portos, Código Florestal.

A ministra considera o momento "apimentado" entre os dois Poderes como consequência da antecipação do calendário eleitoral, iniciado, na visão dela, não pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Aécio (Neves, provável candidato tucano à Presidência) já estava a mil pelo Brasil e Eduardo Campos (possível candidato do PSB à Presidência) já estava com dedinhos à mostra, ambos querendo se tornar conhecidos nacionalmente."

Na visão de parlamentares ouvidos pela reportagem em condição de anonimato - "porque ninguém quer pôr o rostinho", espeta Ideli -, as principais críticas ao trabalho da ministra são a falta de autonomia e de jogo de cintura, atributo de ex-titulares da pasta como o atual ministro do Tribunal de Contas da União José Múcio Monteiro, e a proeza de desagradar até parlamentares do PT. A ministra tenta se explicar.

"A grande dificuldade do meu cargo é que aqui não tem nada que seja da minha total governabilidade. Nada. Não executo nada, todo o meu trabalho depende dos outros. Múcio foi mesmo muito competente. Mas tem uma rapaziada que faz de conta que não entende que durante determinado período estava uma outra personalidade presidindo o País", diz. "A maneira de o senhor Luiz Inácio Lula da Silva, digamos, interagir é diferente da maneira da presidente Dilma. Ela é extremamente preocupada com a questão do monitoramento. Lula delegava mais."

Sobre a insatisfação de colegas de partido, faz graça: "Vou dar uns divãs para eles. Talvez (dê para comprar) no cartão do Minha Casa. Melhor. Tem sofá, não? Pode incluir divãs? Ou uma chaise longue...?", brinca.

Dona do recorde de ministra há mais tempo na pasta, Ideli brinca que a melhor parte do trabalho é quando chega em casa. Bem-humorada na intimidade, anda descalça por seu gabinete e costuma galhofar com os mais próximos: "Do alto dos meus 61 anos me sinto sexy... sexagenária". Apesar de brincalhona em seu mundo particular, Ideli relata fazer um exercício "permanente, cotidiano, diário, quase horário de calma, calma, calma, o que você há de convir que para uma italiana com boa dose de calabrês, mais um tiquinho de basco, é difícil". E profetiza: "Nada está tão ruim que não possa piorar, mas a gente vai dar um jeito de melhorar".

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