Hospital das Clínicas ganha centro para tratar a infertilidade

O Hospital das Clínicas na capital paulista inaugura quarta-feira o maior serviço público de saúde para o tratamento e pesquisa da infertilidade no País. Instalado em uma área de 400 metros quadrados ? antes ocupada por uma lanchonete ?, o Centro de Reprodução Humana Governador Mário Covas contará com tecnologia de ponta e uma equipe de 30 profissionais para atender até 2 mil pacientes por ano.A infertilidade atinge cerca de 15% dos casais e pode ser causada por uma série de fatores, tanto no homem quanto na mulher, que vão do fumo a deformações congênitas nos cromossomos sexuais. Nos casos mais complicados, que requerem técnicas de fertilização in vitro, o tratamento pode custar mais de R$ 10 mil por tentativa. ?Sentíamos uma obrigação moral de oferecer este serviço para a população?, diz o chefe da Divisão de Clínica Urológica do hospital, Sami Arap, idealizador e futuro diretor do centro.As instalações incluem três consultórios, duas salas cirúrgicas, laboratórios para micromanipulação de gametas e pesquisa genômica, além de um banco de criopreservação de sêmen com capacidade para até 500 amostras. Segundo Arap, o projeto do centro nasceu há cinco anos e consumiu cerca de US$ 1 milhão. O atendimento será feito também pelos planos de saúde e para particulares. ÉticaUm dos grandes desafios do centro, segundo Arap, será a criação de parâmetros éticos para a medicina reprodutiva, especialmente com relação às técnicas mais modernas de fertilização in vitro, como a injeção intracitoplasmática (ICSI), na qual o espermatozóide é introduzido diretamente no óvulo com uma agulha. ?Precisamos de conceitos éticos e científicos bem definidos para essa tecnologia?, afirma o médico. ?Não queremos criar medo na população, mas há riscos que precisam ser melhor avaliados. Reprodução humana também tem contra-indicação.?Segundo Arap, todas as crianças nascidas por reprodução assistida no centro serão acompanhadas por três anos pelo setor de pediatria do HC. ?Queremos saber, a longo prazo, se as técnicas de fertilização têm um impacto no número de malformações, tumores e complicações de vários tipos.? Vários outros setores do hospital, como ginecologia, obstetrícia e genética, também trabalharão em parceria com o centro para o atendimento e acompanhamento dos pacientes. ?É um projeto absolutamente multidisciplinar?, afirma o urologista. A intenção, diz ele, é transformar o centro em um núcleo de referência para a formulação de políticas de saúde na área de reprodução humana. ?Por ser parte de uma universidade, o centro estará sob supervisão rigorosa e constante?, afirma o médico. ?O que é feito aqui dentro dificilmente será eticamente condenável.?Segundo o diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Giovanni Guido Cerri, a reprodução humana, por ser extremamente lucrativa, é uma das esferas da medicina em que, ?às vezes, a ciência e a ética são relegadas a segundo plano?. ?É uma área na qual se faz muita prática e pouca pesquisa científica. Acaba-se vendendo ilusões, com base em tecnologias pouco testadas?, afirma Cerri. ?Queremos que o centro sirva como um indicador de condutas adequadas.? DiagnósticoApesar de dispor das tecnologias mais modernas de fertilização in vitro, uma das missões do centro será diagnosticar as causas de infertilidade e, com base nisso, indicar o tratamento mais simples e seguro. De acordo com a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, até 90% dos casos de infertilidade podem ser tratados com terapia convencional, sem reprodução assistida.Segundo o urologista Jorge Hallak, especialista em reprodução humana e futuro coordenador do centro, é importante manter a distinção entre tratamento e aplicação de tecnologia: nos dois casos, o resultado é uma criança, mas só o primeiro cura a infertilidade. ?O objetivo não é só fazer reprodução assistida, mas tentar restabelecer a fertilidade natural do casal, para que possa ter seus filhos por conta própria?, afirma Hallak.Ele lembra que a causa da infertilidade nem sempre é irreversível, muitas vezes pode ser tratada com pequenas cirurgias ? inclusive reversão de vasectomia ?, medicamentos ou até mudanças de hábito, como largar de fumar. Nesse sentido, todos os casais que procurarem o centro serão submetidos a uma série de exames e entrevistas para diagnosticar a causa exata do problema.Segundo Hallak, é importante que tanto o homem quanto a mulher sejam avaliados, pois cada um é responsável por cerca de 50% dos casos de infertilidade. O centro terá um programa de atendimento especializado para pacientes com lesão completa da medula (tetraplégicos), que se tornam estéreis por causa de infecções crônicas no sêmen. ?A ereção é preservada em 70% dos casos; o problema é a ejaculação e a qualidade do esperma?, diz Hallak. O tratamento é feito a base de medicamentos e técnicas de estímulo para obtenção dos espermatozóides. EnsinoQuase toda a equipe do centro precisou ser treinada nos Estados Unidos, pois não há cursos de especialização em reprodução humana no País ? algo que Arap também espera mudar com a criação de cursos de capacitação e pós-graduação na área, administrados em parceria com a Faculdade de Medicina. ?A idéia é desenvolver um curso que sirva não só para produção científica, mas para formar profissionais dentro de parâmetros éticos, que depois irão trabalhar no resto do País?, afirma o diretor Cerri.A inauguração do Centro de Reprodução Humana Governador Mário Covas está marcada para quarta-feira, com a presença do governador Geraldo Alckmin. O nome do centro é uma homenagem ao ex-governador, que foi paciente de Sami Arap durante a fase crítica do câncer que tiraria sua vida. Na época, conta o médico, Covas doou R$ 2 milhões para a construção do centro, ?sem que o hospital pedisse um tostão?. ?Fiquei impressionado com o comportamento ético e a honestidade dele durante a doença.?

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