Hospitais endividados pedem socorro

Alerta no sistema hospitalar brasileiro: instituições privadas filantrópicas e lucrativas, responsáveis por metade do atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), desativam leitos e correm o risco de fechar. O problema foi detectado por um levantamento da Federação Brasileira de Hospitais (FBH). Em média, cada hospital tem dívida equivalente a seis meses de seu faturamento. "Nos últimos dois anos, 30% dos leitos de hospitais privados foram desativados", afirma Carmen Bruder, superintendente da FBH.Mesmo considerando que os avanços tecnológicos da medicina permitem tratamentos com menos internação, essa porcentagem é alta. "Há muitos hospitais com pedido de falência. Eles só não são fechados porque os juízes sabem que o atendimento faz falta para a sociedade."As principais fatias da dívida dos hospitais privados são o recolhimento de impostos e obrigações trabalhistas, além de pendências com bancos e fornecedores. Endividados e com chances reduzidas de obter mais crédito na praça, os hospitais ficam sem recursos para incorporar tecnologia. "Só que tudo tem de estar 100% para que um paciente possa ser levado ao centro cirúrgico", diz Carmem.Na capital paulista, a crise está instalada há três anos na Maternidade de São Paulo, a mais antiga da cidade. São R$ 20 milhões de dívidas trabalhistas. Em todos os 19 mil metros quadrados do prédio da maternidade, apenas 48 leitos estão ativados. Há 170 desativados ao longo do tempo. Nesta terça-feira havia apenas oito mães internadas.Um grupo de médicos tenta salvar a maternidade. Para eles, é preciso montar um conselho de notáveis que se responsabilizem por angariar fundos todo mês para a maternidade. "É como funciona em outros hospitais privados filantrópicos", diz Luiz Antonio Pardo, diretor técnico médico da maternidade. "Por isso, continuamos atrás de empresários", completa Nicolau Selvaggio, da comissão consultiva da instituição.O setor de hospitais privados se divide em filantrópicos e lucrativos. São filantrópicos os que atendem pelo menos 60% via SUS. Os lucrativos não têm de cumprir nenhum limite mínimo de atendimento público. Mesmo assim, também atendem SUS.É unanimidade entre os administradores hospitalares que os valores que o SUS paga pelos procedimentos prestados têm de ser revistos. Para se ter uma idéia, o SUS paga, em média, R$ 7,50 por dia de internação de um paciente. Segundo a FBH, o custo real desse serviço fica em torno de R$ 60."Os custos hospitalares aumentaram muito no último ano", alerta Antonio Carlos Forte, superintendente dos hospitais da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, hospital privado filantrópico. "E não há o correspondente na receita que nos chega pelo SUS. A tabela está defasada."Para driblar a crise, há hospitais que desistem de oferecer os procedimentos mais defasados em termos de custo real e remuneração oferecida pelo SUS. A decisão alivia as contas de um hospital e sobrecarrega as de outro. O paciente é encaminhado para serviços de referência que atendem alta complexidade, como a Santa Casa de São Paulo. "Fazemos milagre", diz Forte, explicando que a instituição funciona com prejuízo. "Teremos uma crise séria muito em breve no setor hospitalar privado."

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