Hormônios, um perigo sem receita médica

É um remédio, não tratamento de beleza, elixir da juventude ou fórmula para se livrar dos quilos a mais. Embora alguns especialistas repitam à exaustão que hormônios têm de ser prescritos de forma criteriosa e sempre precedidos de exames, uma parcela cada vez maior da população passou a considerá-los um aliado inofensivo. "Há quem acredite que, como a substância é produzida pelo organismo, uma dose a mais não faça diferença. Apenas aumenta o metabolismo", diz o professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo Turíbio Leite de Barros. Um erro e tanto, adverte. "Todo remédio traz efeitos colaterais. Você até pode usá-los para se sentir melhor agora, mas não se esqueça de que isso pode afetar sua saúde, mais tarde." O professor de educação física Evandro Guarnieri, de 30 anos, mesmo sabendo dos riscos passou a usar esteróides para aumentar a massa muscular. "Fiz do meu corpo um verdadeiro laboratório. Tomei de tudo para chegar ao corpo ideal." Como os hormônios aumentavam sua disposição, ele passou a treinar com cargas cada vez mais pesadas. Tudo isso lhe rendeu problemas nas articulações e várias lesões musculares. "Queria ficar o menor tempo possível em repouso. Por isso, tomava doses altas de antiinflamatórios." Em uma das vezes, tomou o dobro normalmente prescrito. Ficou internado dois dias, com problemas no fígado e pâncreas. "Sei que mais tarde posso ter problemas. Não sei quais serão, mas acho difícil escapar." Receita de ?amigos? Na lista de medicamentos usados por Guarnieri estavam esteróides, remédios que indiretamente auxiliavam a liberação de hormônios de crescimento, hormônios tireoidianos, e, esporadicamente, hormônios femininos. "A gente conversa com um amigo, com outro e vai aprendendo", diz. Embora os anabolizantes sejam proibidos, Guarnieri nunca teve dificuldade em encontrá-los. Também nunca saiu de uma farmácia sem o remédio que queria. "É só saber o lugar certo." Por pressão da mulher, há tempos ele interrompeu o uso dos remédios. "Não vale a pena." Assim como antibióticos e analgésicos, alguns hormônios há tempos são usados de forma incorreta - seja por auto-medicação, seja por prescrição médica. Nos Estados Unidos, há alguns anos, era moda tomar insulina "para não engordar" e algumas pessoas tiveram lesão cerebral por causa disso. Os hormônios tireoideanos, por exemplo, ainda são usados indevidamente. "Mesmo sendo uma prática condenada, há ainda médicos que prescrevem doses de T3 e T4 (hormônios da tireóide) para ajudar o paciente a emagrecer", afirma a endocrinologista Ana Maria Soares Menezes. A lista de substâncias prescritas por motivos estéticos vem aumentando. Hormônios femininos são receitados para mulheres que ainda não entraram na menopausa, mas querem garantir a beleza da pele. E os masculinos, para homens na terceira idade que buscam manter o vigor físico. "Se não há deficiência hormonal e prescrição correta, essas drogas bagunçam toda a produção hormonal e todo o metabolismo." Entre homens jovens, anabolizantes e, recentemente, hormônios de crescimento tornaram-se recursos corriqueiros para garantir o aumento dos músculos. A coordenadora da unidade de pediatria do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Nuvarte Setian, conta ser grande o número de meninos adolescentes que a procuram, interessados em saber os efeitos dessas drogas. "Hormônios de crescimento têm indicação precisa: somente para crianças e adultos que tenham défict de sua produção." Prescrito de forma incorreta e em dose excessiva, ele pode provocar nos adultos deformidades nas mãos, na face, além de aumentar o risco de câncer de cólon. O uso de anabolizantes, por sua vez, aumenta o risco de problemas hepáticos e renais, acentua a agressividade e pode levar à infertilidade. Experimentais O chefe do setor de ginecologia endócrina da Unifesp, Mauro Abi Haidar, também adverte para o uso indiscriminado dos hormônios. "As pessoas fazem de tudo para assegurar o bem-estar. É preciso que elas estejam totamente esclarecidas sobre os eventuais riscos." Além do uso de hormônios femininos para fins estéticos, Haidar cita o uso initerrupto da substância para evitar a menstruação. "Não há estudos sobre as conseqüências dessa prática. As doses de hormônios contidas nas pílulas são pelo menos seis vezes maiores do que a reposição feita na menopausa", diz. "Há quem prefira ter um prazer imediato. Mas médicos têm de esclarecer as possíveis conseqüências do tratamento e mostrar que muitas das terapias têm de ser chamadas de experimentais."

Agencia Estado,

21 Julho 2002 | 10h43

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