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Horizonte perdido

Pouco a pouco, cada uma das condições das quais a presidente Dilma Rousseff dependeria para ver a possibilidade de impeachment definitivamente afastada vêm se mostrando desfavoráveis, contribuindo para nublar o horizonte que há menos de um mês o governo enxergava com esperança. 

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2015 | 02h00

Na ocasião, meados de novembro, ministros com acesso ao gabinete presidencial avaliavam que o risco do impeachment havia se reduzido, embora não estivesse extinto. Para o respiro definitivo de alívio, a presidente dependeria de algumas variáveis: economia melhor, maioria suficiente para aprovar a CPMF, oposição atuando no bate cabeça, PMDB pacificado e Lava Jato sem novas surpresas. 

Pois bem, de lá para cá, na velocidade dos cometas, todas elas se deterioraram. Na economia, o Brasil está à beira de receber a segunda redução do grau de investimento; no Congresso, a base de sustentação deu insuficientes 199 votos para garantir maioria na comissão especial do impeachment. A Lava Jato pôs na prisão um amigo do ex-presidente Lula e senador da estrita confiança da presidente, o PSDB uniu-se no fechamento de questão em favor da interrupção do mandato presidencial e o PMDB anda mais revolto e distante do que nunca. O horizonte previsto está se configurando perdido. 

Deixa disso. O senador Delcídio Amaral sabe de muita coisa. Sabia, por exemplo, há alguns meses, quando a palavra de ordem da crise ainda não era impeachment e os presidentes da Câmara e do Senado fustigavam a presidente, que o governo esperava que os dois fossem tragados por ação da Justiça, mas não esperava sentado: contava poder tomar “as providências cabíveis” (palavras dele) para que Eduardo Cunha e Renan Calheiros perdessem os cargos.

De onde é de se olhar com pé atrás o desmentido da versão de que Delcídio cogitava fazer delação premiada 24 horas depois de o senador contratar um advogado especializado no tema.

Vida como ela é. Por mais verdadeiras que tenham sido as reclamações do vice-presidente, Michel Temer, na carta que enviou a Dilma Rousseff expondo a falsidade da “confiança” manifesta por ela em relação a ele, a queixa de que sempre foi tratado como um “vice decorativo” peca por um detalhe: o papel do substituto é mesmo meramente ornamental. 

Volta e meia a utilidade do cargo é questionada, em face da inutilidade de o chefe da Nação ser formalmente substituído a cada vez que se ausenta do País nesses tempos de conexão direta e permanente, e da existência de uma linha sucessória claramente estabelecida para o caso de vacância. 

Legalista, Temer aceitou as regras do contrato quando, contrariando parcela significativa de seu partido, advogou em prol da manutenção da aliança entre PT e PMDB com o objetivo de garantir sua permanência no cargo, mesmo ciente de todas as escaramuças do Planalto cometidas a mancheias desde o primeiro mandato de Dilma. 

Reclama de barriga cheia, tendo em vista a recompensa que sua submissão pode estar prestes a lhe dar. Dilma, por sua vez, deu o azar ao subestimar um vice na posição de comandante de partido com acentuado apetite político. 

Berço. A foto da neta de Lula, em rede social, ilustrando com gesto obsceno um texto contendo acusação falsa de ameaça por parte de uma repórter do jornal O Globo, é o retrato da educação em família. 

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