Homem assume morte de senador após 18 anos

Lima diz ter matado Olavo Pires por supostas dívidas ligadas a receptação de carros roubados

Eduardo Kattah e Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

19 de fevereiro de 2009 | 00h00

Um homem apontado como líder de quadrilha especializada em assaltos a banco e carro-forte confessou a representantes do Ministério Público e policiais civis de Minas ser o autor do assassinato do senador goiano Olavo Pires - executado com rajadas de metralhadora em 16 de outubro de 1990, diante de uma revendedora de tratores de sua propriedade, no centro de Porto Velho (RO). Então com 52 anos, o senador disputava o segundo turno das eleições para o governo de Rondônia e liderava as pesquisas de intenção de voto. João Ferreira Lima, o João de Goiânia, foi preso no dia 11, na cidade de Guaraí, no Tocantins. Lima chegou a ser ouvido pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pistolagem, no Congresso, no início dos anos 1990, mas na época negou envolvimento com o crime.Em vídeo gravado pela força-tarefa do Ministério Público e da Polícia Civil, ele assume ter usado uma metralhadora Uzi, israelense, para efetuar 16 disparos contra o senador - alvejado com 11 balas na cabeça.A primeira confissão, segundo informou ontem o procurador André Ubaldino, ocorreu na viagem de avião de Palmas para Belo Horizonte. Questionado por um delegado sobre o episódio, Lima assumiu a autoria, atribuindo a execução a supostas dívidas que o senador teria com ele por conta da receptação de carros furtados. "Matei e mataria de novo", disse Lima, conforme relato de Ubaldino. Na capital, em depoimento gravado a policiais e promotores, ele voltou a confessar o crime, mas sem citar o nome de Pires: "Ele morreu por um rapaz que é meio nervoso. Não aguenta muito desaforo. Hoje ele está mais velho. Ele gosta de arma. Aí, ele deu, quis aplicar uns 16 tiros de Uzi nele e pegou 11 na cabeça." Em seguida, um dos interrogadores pergunta se o tal rapaz nervoso era ele e Lima balança a cabeça positivamente. Pela versão de Lima, a execução do senador não teria sido um crime de mando. Ubaldino acredita na confissão, mas admite desconfiança com depoimentos espontâneos. Quando assistiu ao trecho do vídeo, o procurador-geral de Justiça, Alceu José Torres Marques, chegou a classificar como "bazófia" a declaração. A Lima são atribuídos crimes diversos, como roubo a carros fortes, assaltos a banco e assassinatos. Quando foi preso, disse que seguia para a Venezuela, onde praticaria um mega-assalto - o roubo de uma tonelada de ouro, avaliada em R$ 50 milhões.''RECADO''Para Marco Emílio Pires, irmão do senador assassinado, as declarações de Lima "não passam de um recado para os mandantes do crime". "Ele (Lima) está dando um tempo para ver se ?eles? vão socorrê-lo", afirmou Marco Emílio, que aponta para um grupo supostamente ligado ao ex-governador de Rondônia Oswaldo Piana Filho.Indagado sobre possíveis dívidas do senador assassinado, ele argumentou que Pires "era o homem mais rico da Amazônia ocidental". "Tínhamos a maior revenda de tratores do Brasil", ressaltou.Segundo Marco Emílio, Lima já confessara a agentes da Polícia Federal o assassinato do senador ainda em 1991, em um avião a caminho de Brasília. No entanto, teria mudado a versão ao desembarcar.A Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania de Rondônia informou que o inquérito do assassinato do senador continua aberto. Não há ninguém preso pelo crime. Citado por Marco Emílio, Oswaldo Piana não foi encontrado pela reportagem para comentar o caso.

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