''Hoje, os investigadores é que estão sendo investigados''

Para ele, suspeita de que grampo no STF teria sido feito por ex-agente do SNI ?é mais uma história para tirar o foco? das apurações

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2008 | 00h00

O delegado que comandou a Operação Satiagraha, Protógenes Queiroz, disse que foi espionado durante toda a investigação que envolveu o banqueiro Daniel Dantas. Chegou a mudar vôos em cima da hora, andar de ônibus para fugir de espiões e, nas interceptações telefônicas feitas por ele, pôde identificar conversas que se referiam à sua pessoa, a locais em que estaria. Quando se dirigiu a um restaurante, na noite de terça-feira, em Goiânia, percebeu que estava sendo filmado por um casal. Deu o troco e filmou os dois. O homem e a mulher, então, foram embora. Isso, para ele, confirma tudo o que enfrentou durante as investigações da Operação Satiagraha, que comandou de 2004 a julho deste ano.O senhor está sendo seguido, grampeado? Ficou mais evidente a partir do início deste ano. Tanto é que, na análise das conversas do grupo de Daniel Dantas, ficou claro que sabiam de toda minha movimentação. Tive de mudar hábitos, entrar no avião em cima da hora, trocar de vôo, fazer viagens de ônibus. Algumas pessoas já foram até identificadas.O senhor teme que a Operação Satiagraha seja anulada por causa da suspeita de grampo no STF? Vejo essa tentativa da defesa (de Daniel Dantas) com muita naturalidade, porque isso faz parte do trabalho deles, de pessoas que têm compromisso com outros valores. Eles encontram oportunidade em solicitar o benefício, porque existem os documentos legislativos para isso. Mas nada do que foi feito foi ilegal, nada de ilícito. Tudo o que praticamos foram ações com amparo da Justiça, que tiveram a fiscalização do Ministério Público Federal. E mais de um juiz trabalhou no caso. Houve todo um controle.E a suspeita de que o agente Francisco Ambrósio do Nascimento fez grampo no STF? Isso não foi feito. Tem, sim, é que investigar quem criou esse fato criminoso, mais uma história para tirar o foco das investigações. Hoje, o que a sociedade brasileira acompanha é que os investigadores estão sendo investigados. Hoje, não se discute mais nem quem foi investigado na Satiagraha, nem a conduta desses criminosos, nem o crime de corrupção que foi materialmente identificado. Há autoria e materialidade comprovadas por escutas ambientais, interceptações telefônicas, dados documentais. Os indícios estão lá, todos carreados nos autos. E hoje ninguém discute isso.O que o senhor achou da decisão do Conselho Nacional de Justiça, de criar uma central de grampos?Não me cabe avaliar as decisões do CNJ. Agora, ficar criando um ambiente de restrição da atividade policial, do Ministério Público, das decisões dos juízes de primeira instância, sem levar em conta o prejuízo que isso acarreta, isso é muito perigoso, muito grave. Enquanto cidadãos, estamos acompanhando estupefatos as sucessivas decisões que nos deixam alarmados, preocupados, quando deveríamos estar discutindo instrumentos processuais mais céleres e mais rápidos para apurar os crimes, dando assim mais segurança para a sociedade. Houve pressão sobre o senhor?Não quero aqui acusar. Mas basta ver o que aconteceu nas cortes de Justiça de outros países em relação ao indiciado, o acusado Daniel Dantas. Teve toda uma confusão processual, já prevista por mim, justamente para retirar o foco da investigação. A exemplo das investigações que foram criadas - duas, paralelas, para investigar os investigadores. O que vamos observar é que a defesa está se utilizando de dados coletados nessa investigação. Dá para combater a corrupção?Acho que a corrupção já está tendo seu final e seu destino. É o acompanhamento que a população está fazendo. A sociedade brasileira está insatisfeita, está acompanhando. Antes não se podia investigar essas pessoas. Hoje investigamos e até encarceramos essas pessoas, mesmo que por pouco tempo.Quem é: Protógenes QueirozDelegado da Polícia Federal em São PauloComandou a Operação Satiagraha, que prendeu Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji NahasIntegrou grupo que prendeu o contrabandista Law Kin Chong

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