Histórias de Marta, uma mulher de coragem

Pouco antes de ser eleita prefeita da maior cidade do País, em outubro do ano passado, Marta Suplicy contou para repórteres do Estado: ?Eu tinha 15 anos quando conheci Eduardo. Foi paixão à primeira vista. Meu primo Alexandre tinha casa na praia, em São Vicente, e estávamos comendo feijoada quando vimos um rapaz se afogando. Quem se atirou para salvar o homem? O Eduardo, claro. Eu o olhei saindo da água e falei: "Ahhh... que homem lindo! Vou casar com ele." Passados uns meses, eu o joguei na piscina porque ele não prestava atenção em mim. Meu pai dizia: "Minha filha, esse rapaz é muito esquerdista." Hoje, sou ciumenta. Tenho ciúmes do Eduardo, mas não dos 300 bilhetinhos que vêm dentro do bolso dele cada vez que ele vai fazer palestra.Uma mulher de coragemA psicanalista Marta Teresa Smith de Vasconcellos Suplicy faz uma revelação corajosa. Ao falar sobre sua vida até entrar na política, a candidata do PT conta que fumou maconha quando morava nos Estados Unidos, no início dos anos 70. "Experimentei e tive um acesso de tosse", diz. "Isso criou uma grande resistência em mim e, daí, nunca mais." A "confissão" poderia soar surpreendente na boca de qualquer político. Não na de Marta Suplicy. Dona de um estilo sem papas na língua, ela afirma que seu pior defeito é falar tudo o que pensa, mesmo sabendo que na política "isso não ajuda muito". Dizem, por exemplo, que o então senador Fernando Henrique Cardoso, hoje presidente, perdeu a eleição para prefeito, em 1985, por admitir publicamente ser ateu. Nos Estados Unidos, Bill Clinton não caiu em desgraça, mas até hoje é alvo de piadas por causa de um tropeço verbal que resultou na célebre frase "fumei, mas não traguei", em que se referia à maconha. Marta, porém, continua a abordar temas polêmicos - como a ampliação do direito do aborto e a parceria civil entre homossexuais - com a mesma naturalidade com que comandava o quadro "Comportamento Sexual" do TV Mulher, na década de 80. Aos 55 anos, define-se como a "pestinha tagarela" que fugiu da "fôrma" aristocrática para a qual foi criada. Filha de industriais, bisneta de conde e neta de barão, estudou nos melhores colégios de São Paulo, como o Nossa Senhora de Sion e o Des Oiseaux, onde as aulas eram dadas em francês. Mas sentiu que seu mundo era muito limitado. "Não queria aquela vida nem morta", diz. "Sempre fui rebelde frente a regras que eu achava injustas e discriminatórias." Quando era deputada federal, Marta participou da comissão especial da Câmara que aprovou, em dezembro de 1995, projeto prevendo a descriminação da maconha. A proposta, que elimina a pena de prisão para o consumidor, recebeu sinal verde do plenário um ano depois, mas ainda tem de ser votada no Senado. "Minha posição é exatamente a mesma da Ruth Cardoso", argumenta a petista, numa referência a declarações feitas pela primeira-dama em favor da não-punição do usuário. Ao lado do marido, o senador Eduardo Suplicy - de quem agora está se separando - a candidata integra a ala moderada do PT, para quem o socialismo não funciona mais como modelo econômico. Aos que alegam sua falta de experiência administrativa, o estilo Marta contra-ataca: "Graças a Deus não tenho, porque passarei creolina em tudo." Boletim cinza - Na escola, eu era uma pestinha. Sempre fui rebelde frente a regras que achava injustas e discriminatórias. Uma vez briguei com a freira, ela me obrigou a sentar no refeitório e eu vomitei em cima da roupa dela, de propósito. Levava muito boletim cinza, que era de mau comportamento. O boletim dizia: "Marta é tagarela, indisciplinada e questionadora das professoras, interrompe muito a aula." Mas eu tinha nota boa e vontade de aprender. Família - Minha mãe era da família Fracalanza (fábrica de talheres de prata), meu pai estava em vários ramos da indústria e tinha posições conservadoras. Fui criada para casar, ter filhos, ser dona de casa e tocar piano. Era o comportamento esperado para as meninas do Des Oiseaux e do Sion. Mas, paradoxalmente, enquanto se esperava que eu tivesse uma vida de quatrocentona, minha mãe dizia: "Nunca dependa de homem." Sentia que meu mundo era muito limitado. Não queria aquela vida nem morta. Fugi do padrão, da fôrma. Feminismo - Sempre achei que as avenidas para as mulheres eram mais fechadas do que para os homens e isso me incomodava. Depois, vivi nos EUA num momento muito revolucionário, era o auge do feminismo. Um dia, em Stanford, eu e minha colega Jane fomos pegar um elevador e um rapaz abriu a porta para nós. Ela virou para mim e falou: "Enquanto custar mil dólares no meu salário alguém abrir a porta para mim, eu mesma abro". Minha abordagem era diferente. Eu respondi: "Jane, quero os mil dólares, mas também quero que abram a porta do elevador para mim." TV Mulher - Em 80, a Globo me convidou para fazer um quadro no programa TV Mulher, justamente quando eu tinha desistido da área de sexologia. Mas a TV era o melhor instrumento para um trabalho de prevenção, e não poderia negar. Filhos - Sou uma mãe que conversa e aprende com os filhos. Gosto do jeito dos três. No começo, demorei para aceitar a profissão do Supla. Ele começou a tocar bem pequeno, tinha uns dez anos. A bateria morava no meio da sala. Era uma barulheira o dia inteiro, minhas amigas entravam e perguntavam: "Como você aguenta isso?" Aí eu dizia: "Aguenta o quê?" Achava tudo muito divertido. Ciúmes - Sou ciumenta. Tenho ciúmes do Eduardo, mas não dos 300 bilhetinhos que vêm dentro do bolso dele cada vez que ele vai fazer palestra. Isso eu nem olho. Ciúme a gente só tem quando é perigoso. Facções do PT - Hoje já até sei direitinho os nomes das correntes do PT. Pergunto os personagens das correntes para me identificar melhor. É zero meu preconceito sobre qualquer facção. Também estou mais interessada nas reuniões do PT. Mesmo porque as que eu dirijo terminam bem mais rápido. Socialismo - O senso de indignação com as injustiças me levou a entrar no PT. Os valores do socialismo são os que eu mais aprecio, como os de solidariedade e justiça social. Agora, a questão do modelo econômico, da socialização dos meios de produção, quase ninguém mais defende, não funciona mais. Erro - Meu maior erro foi não ter conversado mais com a Igreja Católica em relação ao projeto da parceria civil entre homossexuais porque, quando resolvi conversar, os padres já estavam com a cabeça feita. Drogas - Sou a favor da descriminação da maconha. Acho que não se pode punir o usuário. Minha posição é a mesma da Ruth Cardoso. Quanto à liberação das drogas, eu, neste momento, não seria a favor, porque é um tema muito controverso. No início dos anos 70, quando morava nos EUA, experimentei maconha e tive um acesso de tosse. Daí nunca mais. Como sou muito controladora, isso criou grande resistência em mim. Tenho muita preocupação com a juventude sobre isso: com o álcool, que é a droga lícita, e com as outras drogas. Homossexualismo e aborto - Meu projeto não é de casamento de homossexuais nem permite a adoção ou tutela de criança. Talvez devesse ser chamado de direito a herança. Teria sido mais facilmente compreendido. Quanto ao aborto, considero um direito óbvio da mulher e aí vem meu esforço no sentido da prevenção da gravidez. Marta por Marta - Ai, meu Deus! Acho que sou os extremos: minha maior qualidade é a sinceridade e o pior defeito é falar tudo o que penso, porque isso, na política, não ajuda muito.

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