Herança política depende de neto

Influência do clã é ameaçada por adversários que estão no poder na prefeitura, no Estado e no governo federal

Carlos Marchi, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Antonio Carlos Magalhães morreu no momento em que experimentava o maior declínio: pela primeira vez, em 53 anos de vida política, ele tinha adversários no governo federal, no governo estadual e na Prefeitura de Salvador; perdeu a influência sobre a Assembléia Legislativa, o Tribunal de Justiça e o Tribunal Regional Eleitoral. Para um político que exercia seu mando influenciando decisões e intermediando os interesses baianos em Brasília, restou-lhe muito pouco no fim.A sucessão no grupo poderá ser traumática, admitem aliados e adversários. Nos últimos anos, talvez sentindo o declínio do seu poder, ACM tentou queimar etapas para vitaminar o neto ACM Neto e antecipá-lo governador da Bahia em 2010. Em outra freqüência, operava seu velho aliado Paulo Souto, ex-governador, que almejava tornar-se o líder do grupo político sem brigar com o chefe. Mas para tanto deveria eleger-se governador em 2006. Falhou.Hoje, ACM Neto é a mais popular figura do grupo em Salvador e Souto, no interior. Mas terá muitas dificuldades com a eleição municipal do ano que vem. Primeiro, porque não tem candidato suficientemente forte para ganhar a eleição na capital; segundo, porque o grupo vem sendo sistematicamente sangrado pelo ministro Geddel Vieira Lima, ministro da Integração Nacional, que tem usado a força do ministério para conquistar adesões de prefeitos do DEM (antigo PFL) para o PMDB. A tarefa, segundo um adversário, não tem sido difícil, porque ACM, com seu comando de tons agressivos, educou a Bahia para o adesismo. Logo, os prefeitos estão aderindo ao novo poder.Quando perdeu o governo da Bahia em 1986, ACM tinha um plano B que funcionaria de maneira muito eficaz: poderoso em Brasília, continuou como ministro das Comunicações e, mais que isso, como o homem mais influente do governo de José Sarney, até por ter uma forte bancada própria no Congresso. Em 1990, pôde restaurar, com relativa facilidade, a plenitude do seu poder na Bahia.ELOS PERDIDOSAgora, perdidos os elos com o poder, resta ao grupo - mais especificamente, à família Magalhães - a força econômica e midiática de seu pequeno império. A família é dona da TV Bahia (seis emissoras, em Salvador e nas cinco mais importantes cidades baianas), repetidora da Rede Globo no Estado. Os negócios são dirigidos pelo filho ACM Júnior, que é também o suplente que vai assumir a vaga no Senado, embora sem nenhuma vocação política.Esse dilema começou a se delinear em abril de 1998, quando um enfarte matou Luís Eduardo Magalhães, o filho que ele havia preparado para sucedê-lo na política e que tinha um estilo diametralmente oposto ao do pai.À época, Luís Eduardo e ACM foram pivôs de um grande enigma do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso. O presidente expôs uma clara dicotomia em relação a pai e filho: atraiu o filho, Luiz Eduardo, ao posto de delfim, líder do governo, presidente da Câmara e presumido candidato à sucessão presidencial; e relegou o pai a um distanciamento crescentemente incômodo, que redundaria, em 2000, no episódio que o obrigou a renunciar ao mandato e à presidência do Senado.

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