Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Hélio Bicudo, petista histórico e autor do pedido de impeachment de Dilma

Jurista participou de gestões petistas em São Paulo nos governos de Luiza Erundina e Marta Suplicy e rompeu com o partido após o mensalão

Luiz Raatz, Igor Giannasi e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2018 | 12h04
Atualizado 01 Agosto 2018 | 13h35

Morreu nesta terça-feira, 31, em São Paulo, aos 96 anos, o jurista e político Hélio Bicudo, procurador de Justiça que combateu o Esquadrão da Morte nos anos 1970. Figura histórica do PT, se distanciou do partido após o mensalão e foi autor do pedido de impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff. Bicudo não resistiu a meses de complicações cardíacas.

Acervo Estadão: O homem que enfrentou o 'Esquadrão da Morte'

Natural de Mogi das Cruzes – nasceu em 5 de julho de 1922 –, formou-se em direito pela Faculdade do Largo São Francisco, da USP, em 1942. Cinco anos depois, ingressou no Ministério Público do Estado. Como chefe da Casa Civil, o advogado Bicudo integrou a administração do governador Carvalho Pinto (1959-1963) e chegou a substituí-lo no Ministério da Fazenda, ocupando interinamente a pasta durante o governo do presidente João Goulart (1961-1964).

Depois, se tornou um dos mais importantes ativistas pelos direitos humanos no País, especialmente no regime militar. Na época, como procurador de Justiça de São Paulo, combateu o Esquadrão da Morte, grupo de extermínio envolvido na tortura e assassinato de criminosos comuns. Ao todo, o esquadrão teria sido responsável por 168 assassinatos no Estado.

Bicudo foi designado para apurar os crimes. Entre 1970 e 1971 denunciou 35 policiais envolvidos no grupo, entre eles o delegado Sérgio Paranhos Fleury –, seis foram condenados. Fleury não era qualquer policial. Era o símbolo da repressão política do regime inaugurado em 1964.

A atuação de Bicudo foi acompanhada pelo Estado e pelo Jornal da Tarde. No prefácio de seu livro Meu Depoimento sobre o Esquadrão da Morte, o jornalista Ruy Mesquita escreveu: “Embora seja improvável que o principal elemento da quadrilha (Fleury), erigido em herói da luta contra a subversão, venha um dia a ser condenado por algum dos incontáveis crimes que praticou, não há dúvida de que os resultados da ação de Hélio Bicudo revelam que ainda há condições para se deter o processo de gangrena institucional a que o Brasil está submetido, para que se restabeleça aqui o estado de Direito.” De fato, Fleury morreu em 1979, antes de acertar as contas com a Justiça.

Em agosto de 1975, Bicudo publicou no suplemento do centenário do Estado o ensaio O Direito e a Justiça no Brasil, depois transformado em livro. Dedicou a obra à memória do dr. Julio de Mesquita Filho, que “soube imprimir a esse grande jornal a orientação democrática, a qual, mantida a todo custo por Julio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, constitui a grande característica desse órgão da imprensa brasileira”.

A participação no processo de impeachent de Dilma

Na história recente do Brasil, Bicudo também teve participação ativa no impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff, sendo um dos signatários do pedido de abertura do processo contra a petista – juntamente com a advogada Janaina Paschoal e o jurista Miguel Reale Júnior. Ex-petista – ingressou no PT poucos meses depois da criação da sigla, em 1980 –, Bicudo se tornara um crítico do partido a partir de 2005, após a revelação do escândalo do mensalão.

Desligou-se então da legenda, pela qual se elegeu deputado federal e exerceu mandato entre 1991 e 1999, com a justificativa de que “o partido se afastou dos ideais éticos e morais”. Nesta terça, a direção nacional da legenda não se manifestou sobre sua morte. A presidente do partido, Gleisi Hoffmann, informou apenas que enviou condolências à família.

Pelo PT, também foi candidato a vice-governador, em 1982, na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato. Em 1986, o jurista foi candidato ao Senado, ficando em terceiro lugar. Fez parte da gestão da então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, eleita pelo PT em 1988, como secretário de Negócios Jurídicos. 

Foi vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e autor do primeiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), lançado em 1996, no governo Fernando Henrique Cardoso. Também foi autor do projeto que retirou da Justiça Militar os crimes dolosos contra a vida cometidos por militares em serviço contra civis.

Em 1998, o advogado não se candidatou à reeleição. Eleito vice-prefeito de São Paulo em 2000, foi presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos Humanos na gestão da hoje senadora Marta Suplicy (MDB). Antes da eleição municipal, em fevereiro de 2000, foi escolhido presidente, com mandato de um ano, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), com sede em Washington.

Em 2003, Bicudo foi um dos criadores da Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos. A entidade encerrou suas atividades em 2013, por problemas financeiros. Bicudo se casou com Déa Pereira Wilken Bicudo, que morreu no dia 16 de março, aos 96 anos, e com quem teve sete filhos.

Líderes políticos repercutem morte de Bicudo

O presidente Michel Temer afirmou que Bicudo foi um homem notável. "Ao longo de sua vida, pudemos conhecer toda sua trajetória de defesa dos valores democráticos. Minhas sinceras condolências aos seus familiares", escreveu em seu Twitter.

A senadora Marta Suplicy, hoje no MDB, ofereceu, em nota, condolências à família de Bicudo. " Minhas condolências e sentimento à família de Hélio Bicudo pela perda de um brasileiro democrata e grande defensor dos direitos humanos", disse. 

Em sua conta no Twitter, Janaína também lamentou a morte do jurista. "Parte um Herói brasileiro! Meus agradecimentos ao nosso Grande Helio Bicudo! Todo meu amor! Toda minha admiração! Toda minha gratidão!", escreveu. " Sem ele, eu não teria conseguido. Que Dona Déa o receba com flores. Peço a cada um uma oração, conforme a respectiva religião, em sua intenção."

Um dos movimentos que participou dos protestos contra Dilma, o Vem Pra Rua lamentou a morte do jurista. "Hoje o Brasil ficou menor com o falecimento do jurista Hélio Bicudo. Em nome de todos os brasileiros, o Vem Pra Rua lamenta a perda do brasileiro de estatura moral incomparável e gigante como poucos que conhecemos", disse o grupo em nota. "O movimento lembra que o Dr. Bicudo fez parte de um seleto grupo de brasileiras e brasileiros que defendem a democracia no Brasil acima dos interesses pessoais. Um homem simples, de olhar brilhante e sorriso doce, lúcido, corajoso e tremendo conhecedor das leis e do Direito. O Brasil deve muito ao trabalho do jurista. Obrigado, Dr. Hélio Bicudo, pelo seu legado que mudou o Brasil."

Acervo Estadão

A carreira pública do jurista Hélio Bicudo, que até então havia ocupado interinamente o Ministério da Fazenda no governo João Goulart e havia sido chefe da Casa Civil do Governo de São Paulo,  ganhou notoriedade e passou a estampar as  manchetes dos jornais na década de 1970, quando , como procurador de Justiça do Estado de São Paulo, ele combateu a temida milícia conhecida como “Esquadrão da Morte.Leia mais

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