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Neste 1.º ano, Bolsonaro dividiu com os filhos o pensamento, palavras e obras. Nada deu certo

Rosângela Bittar, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2019 | 03h00

O adiamento da data de envio ao Congresso da proposta de reforma do Estado não significa que o governo tenha desistido do seu projeto, seja amplo ou restrito. A formulação de ideias, na instância Paulo Guedes, é uma etapa inicial e, mesmo que fosse levada à tramitação, este mês ou este ano, ficaria para as calendas, quando as eleições municipais permitissem.

Até deputados e senadores aprovarem redução de salário do servidor público, uma das propostas da reforma adiada, já terão rodado naqueles plenários a roleta de três CPMFs e derrubado incontáveis vetos presidenciais. O funcionalismo, da elite das carreiras de Estado ao barnabé, tem a mais forte corporação em condições de, para manter suas vantagens, enfrentar Executivo, Legislativo e Judiciário.

O gesto do presidente Jair Bolsonaro expressa a tensão que há no Planalto, especialmente no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, com o risco de eclosão de protestos, como os que mobilizam os governos do Chile e da Bolívia. O propósito do presidente é não dar espaço à inclusão de problema novo em sua já extensa lista de fracassos políticos neste primeiro ano de mandato.

É possível que tenham razão aqueles que veem em Bolsonaro o inventor de um tipo de exercício do poder tão desconcentrado que lhe permitiu ganhar por um lado mesmo perdendo por outro. Os governos autônomos de Guedes na Economia e de Rodrigo Maia na Câmara, por exemplo, lhe permitiram apresentar-se vitorioso, quando assim se quis mostrar.

Decepcionaram, porém, os núcleos que ficaram sob sua influência direta: a direita despreparada, as redes sociais, os filhos, os direitos humanos (ministra Damares), as relações exteriores (ministro Ernesto), a Educação (ministro Weintraub), os militares, todos geridos diretamente por Jair Bolsonaro.

Por isso fez questão de evitar o agravamento dos problemas que, no espelho da América do Sul, poderiam levar, no limite, à interrupção do seu mandato. O presidente é pragmático, está atento e, embora não demonstre, sabe reconhecer uma derrota.

No único propósito que anunciou explicitamente, em que se empenhou pessoalmente, ao qual se expôs politicamente, a construção de uma relação fraterna com o presidente americano, Donald Trump, só colheu insucesso. Que culminou com a frustrada nomeação do filho político caçula para representar o País que preside no governo que venera. No caso, a perda correspondeu ao tamanho da pretensão: foi humilhado.

A parceria de adulação mútua deu a Trump a certeza de que tem, no Brasil, um vassalo, e a Bolsonaro, a promessa de que é seu o título do novo “cara”.

A personalidade do presidente não permite, porém, que dê a perceber o travo que lhe atravessa a garganta. Sua autocrítica é descafeinada. 

A passividade nas concessões políticas das trocas é um de seus disfarces. 

Que vestiu, de novo, em outro fracasso de peso: a libertação de Luiz Inácio Lula da Silva. Comedido na reação, Bolsonaro deixou que seguissem adiante as interpretações livres, como a de que aceitar Lula foi retribuição ao STF por lhe ter poupado o filho mais velho. O mesmo que lhe tirou o discurso de líder do combate à corrupção.

A desmontagem da cidadela militar que construiu à sua volta foi um mau resultado para o qual muito contribuiu outro filho, o do meio, que funcionou neste primeiro ano como alter ego, o terrível. 

Bolsonaro fez um governo de quatro neste primeiro ano. Dividiu com Flávio, Carlos e Eduardo o pensamento, palavras e obras. Nada deu certo. Termina a jornada inicial até sem partido para conduzi-lo à caminhada da reeleição. Nesta quinta-feira participa da convenção destinada a lhe dar um partido próprio. Quer deixar de pagar aluguel.

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