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Haddad versus Doria?

Sem Lula e Alckmin, ex e atual prefeito de SP podem ser ‘o novo’ na polarização PT-PSDB

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2017 | 03h00

O primeiro turno na França confirma que o profundo desgaste dos partidos e dos políticos tradicionais não é uma exclusividade brasileira e atiça um movimento que hoje parece inacreditável, mas pode surpreender em 2018: a reprodução em nível nacional da disputa entre João Doria, do PSDB, e Fernando Haddad, do PT, mas com um equilíbrio bem diferente do registrado na capital paulista.

A melhor aposta tucana ainda é Geraldo Alckmin, que tenta sobreviver à Lava Jato, que atingiu em cheio Aécio e Serra. Ele está ferido, mas não está morto e seu quadro clínico depende da evolução das delações e provas. Se sucumbir, Doria é um plano B caminhando para virar o plano A.

Do lado petista, é Lula ou Lula? Ele é o único nas esquerdas, desponta na dianteira das pesquisas, com 30%, e seus seguidores, que continuam mudos, cegos e surdos a indícios, delações e provas, vão com ele para qualquer sacrifício. Isso, porém, não é suficiente para evitar uma condenação que inviabilize a candidatura e o PT pode precisar desesperadamente de uma alternativa. Haddad é uma delas.

Na França, os socialistas e os conservadores históricos foram expelidos pela primeira vez em décadas, cedendo espaço ao centro e à extrema direita. No Brasil, a polaridade PT-PSDB ainda domina o debate político, aliás, apaixonadamente, mas o problema é de quadros. Aí entram os assépticos Doria, empresário bem-sucedido, e Haddad, professor universitário não contaminado pela Lava Jato e pela má imagem do PT.

Contra eles pesa a desconfiança. Doria entrou no jogo com as regras da política, é de um Estado-chave, tem partido consolidado, padrinho forte, excelente marketing e se beneficia do vácuo da Lava Jato. Ele, porém, mal concluiu cem dias na Prefeitura da principal capital, mas ainda assim uma prefeitura. Parece cedo para arvorar-se presidente.

Haddad manteve a aura de bom moço, cheio de bons princípios, queridinho dos intelectuais e protegido pela versão de que foi vítima não dele e de sua gestão, mas do vendaval que varreu o PT das capitais, à exceção de Rio Branco. Mas perdeu feio em São Paulo e perder a reeleição tem sabor mais amargo ainda.

Doria e Haddad beneficiam-se de um mesmo frescor: são, mas não são políticos; um é do PSDB, mas nem tanto, o outro é do PT, mas sem os vícios; passam ao largo da Lava Jato; representam “o novo”, na idade, na imagem, na inserção política. Parecem limpos, inodoros, adequados.

Também mantêm a divisão do País. Doria se dissemina em São Paulo, no Rio e no Sul, mas será bem mais fácil vender um professor petista no Norte e no Nordeste do que um almofadinha paulista com apoio do grande capital. Ainda mais se esse professor for levado pelos braços de Lula.

Analistas de diferentes áreas costumam ser brilhantes e contundentes ao analisar... eleições e resultados passados, como arquitetos de obras prontas, mas realmente difícil é projetar resultados, porque a política, que não é cartesiana, tem seus truques e melindres.

Doria e Haddad, porém, têm espaço no tabuleiro vazio de 2018 e se movimentam, conversam e consideram a possibilidade. Doria rachou o PSDB na eleição municipal, mas a sobrevivência do partido depende da união na presidencial. Haddad, lançado por Lula à prefeitura já como curinga para a sucessão de Dilma, desagrada a setores do PT, mas pode virar a única opção do petismo. E não está parado.

Tudo gira em torno da Lava Jato e de Lula, o eixo de 2018. Gravemente atingido, talvez ferido de morte, ele continua sendo o pastor de almas, o condutor de massas, que ou será candidato ou o maior cabo eleitoral. Doria força o confronto direto com ele (ou com seu candidato) e Haddad está de prontidão para o que Lula decidir.

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