Haddad: Um prefeito que adora os Beatles e odeia rituais

Para ex-ministro, chegar à Prefeitura de São Paulo foi 'como escalar o Everest'

Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2012 | 03h04

Ele tem horror a rituais do poder, dispensa batedores que abrem caminho para autoridades no trânsito e odeia passar tropas em revista. Escolhido prefeito de São Paulo sem nunca ter disputado uma eleição, Fernando Haddad (PT) promete agora quebrar outros protocolos da política tradicional, gastar sola de sapato para ouvir moradores e montar um secretariado com perfil mais técnico. Um desespero para aliados.

"Chegar até aqui foi como escalar o Everest", diz Haddad, contando os dias para a posse no Palácio do Anhangabaú, em 1.º de janeiro de 2013. Os poucos interlocutores que tentaram conversar com ele sobre a divisão dos cargos na equipe, antes da vitória, levaram um passa-fora.

Derrotar o adversário José Serra (PSDB) no reduto tucano e retomar a principal Prefeitura do País para o PT - no momento em que a antiga cúpula do partido é condenada no julgamento do mensalão - foram triunfos comemorados por Haddad como um presente antecipado de aniversário. Aquariano, o prefeito eleito faz 50 anos em 25 de janeiro, o mesmo dia de São Paulo. "Hmmm. Resisto a essa ideia dos 50", afirma ele, rindo.

A descontração de hoje contrasta com a temporada tensa dos últimos quatro meses. Além dos ruidosos ataques da campanha, a paisagem do abandono ficou na sua memória. Na Vila Bela, zona leste, viu crianças brincando no esgoto. No Jardim Peri Alto, zona norte, casas apodrecendo, encravadas em penhascos.

"Às vezes, eu chegava em casa derrubado", conta Haddad. "Tinha lugares por onde eu passava e dizia: 'Cara, não dá'. Tenho amigos no PSDB e falei para eles: 'Se vocês não acreditam, vão lá ver. Não dá'."

Laboratório. Foi uma longa jornada, com 10 mil quilômetros percorridos. Logo que anunciou os coordenadores de sua campanha, Haddad ouviu de ministros questionamentos sobre a ausência de figurões no time e a inexperiência dos nomes escalados para ajudá-lo na mais complicada eleição do País. "Se eu não puder mandar na minha campanha, não vou mandar no meu governo", devolveu o ex-ministro da Educação.

O Estado-maior do PT, porém, funcionava sob o comando do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o "criador" de Haddad, e do marqueteiro João Santana. A presidente Dilma Rousseff previu as dificuldades que ele enfrentaria.

"Vão dizer que você é um poste, como diziam de mim, e usar golpes baixos. Prepare-se!", aconselhou ela. A exemplo de Haddad, Dilma também saiu do "laboratório" de Lula e duelou com Serra, no embate presidencial de 2010.

Não foram poucos os vereadores e deputados do PT que se queixaram do estilo arredio do então candidato e o compararam a Dilma, conhecida por manter distância regulamentar dos políticos. "Eu arriscaria dizer que estou numa condição política melhor do que os meus críticos. Então, alguma coisa de política eu devo entender, não é?", provoca o prefeito eleito.

Convocado para disputar a Prefeitura de São Paulo por Lula, que apostou na renovação de quadros no PT para fugir do desgaste do mensalão, Haddad nem sempre disse sim ao chefe. Em 2006, por exemplo, quando era ministro, recusou um pedido dele para indicar Marlene Salgado de Oliveira, reitora da Universo e mãe do então senador Wellington Salgado, do PMDB, para o Conselho Nacional de Educação.

"Fernando, você tem 24 conselheiros e eu estou pedindo apenas um", argumentou Lula, de acordo com relato de um participante da conversa. "É, mas esse nome não dá", respondeu Haddad. O veto funcionou e Lula não nomeou Marlene.

Pouco depois, em 2007, Lula queria trocar o reitor pro tempore da Universidade Federal do ABC, Luiz Bevilacqua, porque recebia reclamações de que ele não atendia ninguém, nem mesmo prefeitos. "Não posso fazer isso", reagiu Haddad. Diante da insistência, foi taxativo: "Troque, então, o ministro." Bevilacqua saiu, mas só um ano depois.

Nessa época, ao fazer uma espécie de operação pente-fino no ministério, Haddad verificou que uma mulher, contratada em cargo de confiança, nunca aparecia para o trabalho. Foi informado de que ela era "imexível" e quis saber o motivo. Descobriu que se tratava de uma cozinheira da casa de Marco Maciel, então senador, que foi ministro da Educação. A funcionária foi demitida. Ninguém nunca reclamou.

Haddad ganhou pontos com Lula ao apresentar o ProUni, programa que concede bolsas de estudo em universidades privadas a alunos carentes, em troca de incentivos fiscais. Ele enfrentou problemas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), mas alega ter sido vítima de "sabotagem" no roubo da prova, em 2009. O exame também teve falhas em 2010 e 2011.

"O ProUni só não foi adiante comigo porque o senhor José Dirceu engavetava tudo na Casa Civil", assegura o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), o primeiro ministro da Educação de Lula, demitido por telefone, numa referência ao principal réu do mensalão. "Para mim, a gestão de Haddad foi tímida e não teve a ambição de erradicar o analfabetismo." O prefeito eleito atribui as críticas à disputa política.

Imersão. Quando virou candidato, Haddad teve de se habituar ao marketing do "homem novo". No curso de imersão para abandonar o tom acadêmico, tomou aulas de dicção, ajeitou a postura e desenvolveu as emoções com a instrutora Madalena Bernardes, a mesma que preparava os integrantes do programa Fama, reality show da TV Globo.

Não precisou muito para que ele, faixa-preta de tae kwon do, soltasse a voz. "Na nossa casa, a música é indispensável", diz Ana Estela, a futura primeira-dama, que detesta ser chamada de primeira-dama. Ela, Haddad e o filho, Frederico, tocam violão. A filha, Ana Carolina, é craque em piano. Os instrumentos e as partituras ficam expostos na sala.

Em recente reunião com integrantes do PC do B, nesse ambiente, Haddad causou perplexidade ao deixar o repertório da política de lado para discorrer sobre o violonista Raphael Rabello, que morreu em 1995. "A música põe as coisas do tamanho que elas são", filosofa o futuro prefeito.

Filho de imigrante libanês, Haddad adora violão clássico, rock, jazz, blues, ópera e MPB. É fã dos Beatles e tem Paul McCartney como ídolo. "Eu queria ser ele", confessa. Antes de deixar o ministério, chorou ao ganhar de um assessor a obra completa dos Beatles.

Dandão sempre foi aplicado e do tipo certinho, descrevem os amigos que ainda chamam Haddad pelo apelido. Nas Arcadas do Largo São Francisco, os colegas Aguinaldo Anselmo Franco de Bastos e Cláudia Martins tentaram acabar com sua timidez na marra. Sem deixar pistas, surrupiaram um cacto que repousava no Centro Acadêmico 11 de Agosto e o acomodaram no balcão da Mercantil Paulista de Tecidos, a loja de seu Khalil, pai de Haddad, na Rua Comendador Abdo Schahin, paralela à 25 de Março.

A dupla fotografou a planta espinhosa na loja onde Haddad dava expediente após a aula. "Descoberto o paradeiro do cacto que sumiu do 11 de Agosto", anunciava o jornal da faculdade, no dia seguinte. Haddad ficou vermelho. É assim também que ele fica, hoje, quando tem de passar a tropa em revista.

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