José Patrício/AE
José Patrício/AE

Haddad reage a Russomanno e vai atrás de eleitorado evangélico

PT discute mudança de estratégia para tentar estabelecer diálogo direto com religiosos; pesquisa Ibope indica que 42% dos paulistanos que escolhiam petistas declaram hoje voto no PRB

Adriana Carranca,

09 de setembro de 2012 | 22h39

SÃO PAULO - A consolidação de Celso Russomanno junto ao eleitorado evangélico, reforçada pelas recentes ações da campanha do PRB em parceria com a Igreja Universal e com um setor da Assembleia de Deus, já preocupa o comitê do candidato petista à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, que prepara agora um plano para tentar falar diretamente a esse público.

Uma em cada cinco pessoas que tradicionalmente votam no PT é evangélica. Entre esses eleitores, segundo o último Ibope, 42% declaram voto em Russomanno, líder nas pesquisas.

A coordenação da campanha já discutiu a inclusão de temas caros aos evangélicos, como a regularização dos prédios dos templos, na pauta de Haddad. Hoje o comitê deve voltar a se reunir para definir se os programas de TV vão ou não abordar a questão.

De acordo com Marcos Ribeiro, que coordena o setor inter-religioso do partido, o candidato petista terá um estande para fazer propaganda eleitoral na Expo Cristã, que reunirá líderes religiosos e fiéis das diferentes igrejas pentecostais no centro de eventos do Anhembi, na zona norte, de 25 a 30 de setembro.

A campanha também pretende, diz ele, realizar um encontro entre Haddad e o Conselho de Pastores e Ministros Evangélicos do Estado, composto por dirigentes de diferentes denominações das igrejas pentecostais, incluindo a Assembleia de Deus e a Universal.

A falta de uma estratégia até agora para atrair o eleitorado evangélico, concentrado em áreas periféricas onde o PT tem historicamente boa votação, é vista como um erro por uma ala do partido. "A demanda das igrejas já está no plano de governo de Haddad, mas a campanha optou por não deixar isso mais claro nos programas eleitorais. Foi um erro. Agora isso vai ter de ser falado", afirma Ribeiro.

Assim como o candidato do PRB, José Serra (PSDB), que divide tecnicamente o segundo lugar nas pesquisas com Haddad, tem dedicado parte da agenda a compromissos religiosos.

Ele tem o apoio de parte da Assembleia de Deus e tenta conquistar agora a Renascer em Cristo - a igreja ainda não decidiu se dará oficialmente seu apoio ao tucano ou a Russomanno.

A aposta do PT era de que Haddad atrairia os votos dispersos na medida em que o candidato petista se tornasse um rosto mais conhecido com a veiculação do horário eleitoral gratuito.

Haddad tem mais que o triplo do tempo de TV de Russomanno. Após duas semanas de programas, o Ibope apontou crescimento do petista de 9% para 16%. O resultado ainda está abaixo dos tradicionais 30% obtidos pelo partido na capital paulista.

"Sempre votei no PT. Sempre, toda vida, sabe?", diz a diarista Bernadete de Souza, 37 anos, enterrando a mão no ar, polegar grudado no indicador, como que para dar ênfase à sua fala. "Mas a gente nunca teve chance de votar em um dos nossos, né, minha filha? Então meu voto hoje é para o Russomanno." Moradora do Grajaú, na zona sul, um histórico reduto do eleitorado petista, ela frequenta às quartas, sextas e domingos os cultos da Assembleia de Deus.

Apesar de ser católico, Russomanno mantém uma estreita ligação com uma ala da Assembleia de Deus. Na sexta, o candidato esteve na sede do Ministério de Santo Amaro e ouviu apoio explícito dos pastores a seu nome.

"Sempre votei no PT, mas esse ano estou pensando nesse candidato aí que o pastor está falando, o Russomanno", disse o despachante Naldo Pedro, 37 anos, após conversa com o pastor Renato Galdino, na semana passada.

A igreja distribuirá 1,2 milhão de panfletos em que o pastor utiliza provérbios bíblicos para pedir voto em Russomanno.

Nas últimas duas eleições municipais, o Ministério em Santo Amaro apoiou a reeleição de Gilberto Kassab (PSD), que durante a campanha em 2008 esteve três vezes ao lado do pastor na sede da congregação. Em 2004, o apoio foi dado ao tucano José Serra. Uma multa cobrada da Assembleia de Deus de Santo Amaro pela Prefeitura por desrespeito à Lei Cidade Limpa acabou por distanciar a igreja dos antigos aliados. Os líderes religiosos dizem hoje serem perseguidos.

Estrutural. "Olha, eu sou petista. Votei no Lula, na Dilma, na Marta... Mas agora mesmo eu estou com o Russomanno. É mais perto do povo e, não sei, mas estão falando aí que a igreja parece que está com ele, né, então eu também estou!", disse o vendedor Alexandre Macedo, de 29 anos, na saída de um culto da Igreja Universal também no Grajaú.

De propriedade do bispo Edir Macedo, também dono da TV Record, e ligada ao PRB, a Universal oficializou apoio a Russomanno e tem colocado sua estrutura em São Paulo a serviço da candidatura. A coordenação de seu comitê de campanha também está a cargo de políticos ligados à igreja.

PARA LEMBRAR

Eleitor tucano também balança

A exemplo do PT, também a campanha do candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra, enfrenta o desafio de ver seus eleitores tradicionais apoiando a candidatura de Celso Russomanno. Como revelou reportagem do Estado de 2 de setembro, o candidato do PRB "surfa" na rejeição ao tucano, motivada, principalmente, pelo fato de Serra ter deixado o cargo de prefeito na metade do mandato, em 2006.

Russomanno representaria, segundo analistas, "menos uma opção do que falta de alternativa". A avaliação se baseia em cálculos do Ibope segundo os quais a rejeição do candidato tucano chegou a 34% - que seriam 29% nos chamados bolsões conservadores da cidade e 12% dentro do próprio eleitorado que tradicionalmente vota em candidatos do PSDB.

Pela última pesquisa Ibope, Russomanno tem 31% das intenções de voto. Serra tem 20% e Haddad, 16%. A margem de erro é de três pontos para mais ou para menos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.