Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Haddad classifica impeachment de casuísmo, prevê tema em debates mas promete discutir propostas

Prefeito de São Paulo e candidato à reeleição pelo PT concedeu entrevistas à TV Estadão e à Rádio Estadão

Elizabeth Lopes e Daniel Weterman, O Estado de S. Paulo

10 de agosto de 2016 | 12h24

Horas depois de o Senado Federal tornar a presidente afastada Dilma Rousseff (PT) ré em processo de impeachment, o prefeito de São Paulo e candidato à reeleição pelo PT, Fernando Haddad, criticou, em entrevista à TV Estadão na manhã desta quarta-feira, 10, o presidente em exercício, Michel Temer (PMDB).

Para o petista, não parece de bom tom um vice se insurgir contra a cabeça de chapa. "Acho grande casuísmo (o processo de impeachment contra Dilma)", frisou. A votação no Senado, concluída durante a madrugada, terminou com 59 votos contra 21, diferença que, se repetida, será suficiente para decretar o afastamento definitivo de Dilma Rousseff.

Apesar da crítica, Haddad evitou falar "em golpe", termo usado por muitos de seus correligionários para tratar o impeachment da presidente afastada. Na visão do prefeito paulistano, a palavra é muito forte, dura, lembra a ditadura militar, armas e tanques nas ruas.

Haddad disse que o tema impeachment deve estar presente nos debates aos quais vai participar nesta campanha municipal, contudo garantiu que seu foco neste pleito não será o impedimento de Dilma Rousseff, mas sim as questões da cidade. "Impeachment deve surgir nos debates, mas meu foco são as propostas para São Paulo."

Na entrevista, Fernando Haddad indicou que não colocará a presidente afastada em seus programas eleitorais e palanque, durante a campanha. "Ela (Dilma) está vivendo um momento difícil, me solidarizo. Com essa sobrecarga dela, esse tipo de abordagem é injusto, é uma pessoa que está sofrendo um processo político e seria um desrespeito tratar um drama desse pensando se vai trazer voto ou não", afirmou.

O prefeito disse ainda que não sabe por que Dilma Rousseff não foi à convenção que confirmou sua candidatura à reeleição. E emendou: "Temos de aproveitar o horário eleitoral para discutir temas que afetam a vida do eleitor."

Após entrevista à TV Estadão, Haddad falou à Rádio Estadão. Ele foi indagado se levaria o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao seu palanque, como ocorreu quando foi eleito. "O presidente Lula vai julgar a conveniência de participar ou não da (minha) campanha". Haddad, contudo, disse que neste pleito ele já não tem o desafio de ser apresentado ao eleitor, que o conhece. "Nosso desafio não é apresentar um candidato, mas uma proposta, nossa tarefa hoje é outra."

Ao ser questionado sobre os processos e denúncias que atingem o PT e figuras importantes da sigla, como o próprio Lula, ele criticou as outras legendas. "Todos os partidos estão envoltos em escândalo, o PMDB acaba de ser tragado pela Lava Jato, além disso o PSDB também está no foco da Lava Jato." 

Fernando Haddad afirmou também que sua gestão foi a que mais combateu a corrupção na cidade. Segundo ele, foram recuperados R$ 278 milhões desviados em administrações anteriores, citando os mandatos de Paulo Maluf, Celso Pitta, José Serra e Gilberto Kassab. "Até os meus adversários têm cuidado e prudência em falar disso, porque eu sou uma pessoa honrada, não vou admitir comentários sobre minha conduta, que é absolutamente reta", disse Haddad, em entrevista à TV Estadão.

O candidato à reeleição citou duas investigações que trouxeram recuperação aos cofres públicos, comentando que ele foi o único prefeito e recuperar dinheiro de corrupção na história recente. Uma delas, que recuperou R$ 133 milhões a da Máfia do ISS, investigou um grupo de fiscais que cobrava propina em troca de descontos no cálculo do imposto, cobrado sobre serviços. Outra, que trouxe R$ 53 milhões de volta ao município, se refere à identificação de desvios na Operação Urbana Água Espraiada, uma série de obras de infraestrutura na capital paulista.

Haddad defendeu o secretário de Comunicação da Prefeitura, Nunzio Briguglio Filho, citado em uma delação premiada sobre um esquema que teria causado prejuízo de R$ 15 milhões aos cofres públicos em contratos fraudulentos firmados pela Fundação Theatro Municipal de São Paulo. Segundo o delator, o secretário se empenhou pessoalmente para que fosse firmado um contrato milionário para apresentação de uma orquestra da Espanha.  "Não há nenhuma acusação formal contra o secretário, não cometo injustiça", disse o petista, quando perguntado por que não afastou o secretário da gestão como ocorreu com o ex-secretário de Governo Antonio Donato, investigado por desvios de recursos do ISS. "O Donato que pediu afastamento (em novembro de 2013), foi afastado e agora teve o processo arquivado", declarou o prefeito. Haddad afirmou ainda que quem descobriu as fraudes nos contratos com o teatro foi a Controladoria do Município, criada por ele.

Segundo a assessoria da prefeito, o nome de Nunzio não aparece nem no relatório da Controladoria Geral do Município, nem no Ministério Público.  "Ele depôs como testemunha na CPI da Câmara Municipal e esclareceu as acusações formuladas contra ele por um criminoso confesso, ele sim responsável pelos desvios apontados pela Controladoria", diz, em nota.

Adversários. Durante a entrevista, Fernando Haddad criticou a aliança da ex-petista Marta Suplicy, agora candidata pelo PMDB, com o presidente interino Michel Temer e com o ex-prefeito Gilberto Kassab. "A aliança que fez com Temer e Kassab em troca da legenda é algo que vai ser discutido", disse.

O prefeito e candidato à reeleição afirmou que a gestão da ex-aliada Marta na Prefeitura de São Paulo foi importante para a cidade, mas que cometeu erros na segunda metade do mandato. "A gestão da Marta foi importante e foi derrotada pelos erros que cometeu, ela própria admitiu, sobretudo na segunda metade do mandato", apontou.

Ao falar sobre o adversário que lidera as intenções de voto nas pesquisas eleitorais, Fernando Haddad declarou que a absolvição de Celso Russomanno (PRB) no Supremo Tribunal Federal (STF), determinada ontem e que libera o político para concorrer ao pleito deste ano, não o atrapalha na disputa. "Não acredito no personalismo, se a pessoa vai perder ou ganhar por causa da imagem que fazem dela. As pessoas vão decidir o voto por causa de um projeto da cidade. Essa convicção independe de com quem se está concorrendo", falou. 

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