JF DIORIO / ESTADÃO
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Em pronunciamento, Haddad diz que fará oposição e defenderá 'democracia e liberdades'

Candidato derrotado afirma em discurso que os direitos civis, políticos, trabalhistas e sociais estão em jogo; confira a íntegra do pronunciamento de Haddad

Bárbara Nascimento, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2018 | 20h52

São Paulo - O candidato derrotado à presidência da República, Fernando Haddad (PT), comentou há pouco a derrota para Jair Bolsonaro no pleito deste domingo, 28. O petista afirmou por diversas vezes em seu discurso que "há muito em jogo" e falou em assumir o compromisso de fazer oposição e "defender a democracia e as liberdades" de quem votou nele. Haddad fez o discurso no Hotel Pestana, em São Paulo, onde se reuniu com militantes.

Haddad afirmou a uma plateia de militantes que as instituições brasileiras têm sido "colocadas à prova a todo instante", citando o impeachment de Dilma Roussef e a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva. O candidato derrotado afirmou ainda que os direitos civis, políticos, trabalhistas e sociais estão em jogo e emendou, parafraseando o hino nacional brasileiro, que "verás como o professor não foge à luta".

BR18: HADDAD NÃO LIGARÁ PARA BOLSONARO

Ele afirmou que fará oposição e que vai trabalhar para colocar seu ponto de vista, respeitando a democracia e as instituições. Haddad ainda citou novas eleições em quatro anos e disse que coloca sua vida à disposição do País. "Senti angústia e medo na expressão de muitas pessoas. Não tenham medo, nós estaremos aqui, nós estamos juntos. Abraçaremos a causa de vocês. A vida é feita de coragem", destacou.

Ele ainda pediu respeito pelos 47 milhões  - no horário do discurso, eram 45 milhões - de brasileiros que votaram no PT no segundo turno e agradeceu seus eleitores que trabalharam para tentar reverter o quadro que havia se desenhado após o primeiro turno, quando Bolsonaro abriu larga distância em relação ao petista. "É uma parte expressiva do povo que precisa ser respeitada nesse momento. Que diverge da maioria, que tem outro projeto de Brasil na cabeça e merece respeito no dia de hoje", disse.

Confira a íntegra do discurso:

"Queria agradecer a Estela [sua esposa], Manuela, Duca [marido de Manuela] que está aqui presente com a gente, prazer em ter você conosco hoje; meus filhos, minha mãe, Carolina, Frederico, minhas irmãs, Lúcia, Priscila, todos os partidos aqui presentes. Companheiros do Pros, do PCdoB, do PSOL, do PSB, presidenta Dilma, que está aqui também, muito obrigado. Senador, sempre senador Suplicy, nossos deputados, nossos senadores. Eu, pela minha formação, gostaria de agradecer meus antepassados. Eu aprendi com meus antepassados o valor da coragem para defender a justiça a qualquer preço. Aprendi com minha mãe, com meu pai, com meus avós, que a coragem é um valor muito grande quando se vive em sociedade. Por que todos os demais valores dependem dela.

Queria agradecer todos os demais partidos que estiveram conosco. A sua militância, aguerrida primeiro, que nos levou ao segundo turno, depois, que nos levou a ter mais de 45 milhões de votos no dia de hoje. 

Uma parte expressiva do povo brasileiro precisa ser respeitada  nesse momento. Diverge da maioria, tem um outro projeto de Brasil na cabeça e merece o respeito no dia de hoje. Sei que entre os 45 milhões de eleitores que nos acompanharam até aqui, muita gente não é de partido político, não é de associação. Sobretudo na última semana, o que nós vimos foi a festa da democracia nas ruas do Brasil. Gente que saiu à rua com colega, com esposa com o marido com os filhos e passou a panfletar no país inteiro, ou colocar um banco numa praça, um cartaz no pescoço, e passou a dialogar, tentando reverter o quadro que se anunciava na primeira semana do segundo turno. 

E houve uma mudança muito importante em função da conscientização de uma boa parte dos brasileiros em função do que estava em jogo. E era muita coisa que estava em jogo. Nós vivemos um período já longo, em que as instituiçõe são colocadas à prova a todo instante. A todo instante. A começar de 2016, quando tivemos o afastamento da presidenta Dilma, depois com a prisão injusta do presidente Lula, a cassação do registro de sua candidatura, desrespeitando uma determinação das Nações Unidas. 

Mas nós seguimos. Seguimos de cabeça erguida, com determinação, seguimos com coragem, pra levar nossa mensagem aos rincões do país, ao campo e a cidade, às periferia e ao centros, aos estudantes aos idosos, aos LGBTs aos homens e mulheres, brancos e negros, católicos e evangélicos, aos que pertencem à religiões de matriz afro, aos ateus, a todos os brasileiros, de forma determinada, fomos a todos os rincões levar a mensagem que vale a pena levar. De que a soberania nacional e a democracia como nós a entendemos é um valor que está acima de todos nós. 

Nós temos uma nação daqueles que de forma desrespeitosa pretendem usurpar o nosso patrimônio, o patrimônio do povo brasileiro. É muito importante lembrar que o que está em risco no Brasil são os direitos civis, são os direitos humanos, são os direitos trabalhistas e direitos sociais que estão em jogo neste momento. Portanto nós temos uma tarefa enorme no país, que é, em nome da democracia, defender o pensamento, defender as liberdades, destes 45 milhões de brasileiros que nos acompanharam até aqui.

 Nós temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses nacionais, os interesses de todo o povo brasileiro acima de tudo. Porque nós aqui temos um compromisso com a prosperidade deste país. Nós que ajudamos a construir a democracia, uma das maiores do mundo no Brasil, temos que ter um compromisso em mantê-la, em não aceitar provocação, não aceitar ameaças. Vocês verão que a nação,, lembrando nosso hino nacional, verás que um professor não foge à luta, nem teme que adora a liberdade à própria morte. 

Nosso compromisso é um compromisso de vida com este país. Temos uma longa trajetória na defesa disso. Nós reconhecemos a cidadania em cada brasileiro, e em cada brasileira.  Nós não vamos deixar este país pra trás. Nós vamos colocá-lo acima de tudo. E nós vamos defender os nossos pontos de vista, respeitando a democracia, respeitando as instituições, mas sem deixar de colocar o nosso ponto de vista, sobre o que está em jogo no Brasil a partir de agora. E tem muita coisa em jogo, e nós precisamos compreender o que está em jogo. 

Nós temos que fazer uma profissão de fé, de que nós vamos continuar com nossa caminhada, conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, nos reconectando com os pobres deste país, para retecer um programa, um plano de nação que há de sensibilizar mentes e corações neste país. 

Daqui a quatro anos nós teremos uma nova eleição, nós temos que garantir as instituições, nós não vamos sair das nossas profissões, nossos ofícios, mas não vamos deixar de exercer nossa cidadania. Nós vamos estar o tempo inteiro exercendo essa cidadania. E talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora. Eu coloco a minha vida à disposição deste país, tenho certeza que falo por milhões de pessoas que colocam o país acima da própria vida, acima do próprio bem-estar.

E quero dizer para aqueles com quem eu falei nas ruas deste país, em todas as regiões, e em quem eu senti um medo, uma angústia, e que às vezes chegavam a soluçar de tanto chorar, não tenham medo. Nós estaremos aqui. Nós estamos juntos. Nós estaremos de mãos dadas com vocês, nós abraçaremos a causa de vocês. Contem conosco. Coragem. A vida é feita de coragem. Viva o Brasil. Viva o Brasil." 

 

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