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'Habeas Corpus jamais passou pela cabeça de Lula'

São Paulo - O diretor do Instituto Lula Celso Marcondes disse nesta quinta-feira, 25, em entrevista ao Broadcast Político, serviço em tempo real da Agência Estado, que um pedido de habeas corpus preventivo por causa da operação Lava Jato jamais passou pela cabeça do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou de qualquer pessoa próxima a ele. "Lula não tem nada a esconder no relacionamento dele com as empresas", afirmou.

Entrevista com

Celso Marcondes, diretor do Instituto Lula

Ana Fernandes, O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2015 | 18h51

Marcondes disse ver no episódio um ato político "completamente sem sentido". A autoria é atribuída a Maurício Ramos Thomaz, que se apresenta como consultor e já apresentou pedidos semelhantes em nome de outras personalidades. Apesar da manifestação do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) nas redes sociais, de que o movimento seria uma prova de culpa do ex-presidente, Marcondes não acredita que o pedido tenha sido fruto de uma ação orquestrada da oposição.

Próximo de Lula desde a fundação do PT, Marcondes foi dirigente do partido em São Paulo. Ele considera equivocada a avaliação de que, com as críticas recentes, o ex-presidente esteja tentando descolar sua imagem do governo para concorrer nas eleições de 2018. Em entrevista ao Broadcast Político, Marcondes disse que o apoio de Lula a Dilma e ao governo é "incondicional". Veja os principais trechos da entrevista:

Estado - Como o senhor vê o episódio de o consultor Maurício Ramos Thomaz ter pedido um Habeas Corpus em nome do ex-presidente?

Celso Marcondes - É uma coisa completamente isolada, individual. Foi algo certamente surpreendente, me parece que para criar um fato político e completamente sem sentido. Um pedido de habeas corpus preventivo jamais passou pela cabeça do Lula ou de alguém que conviva com ele. O Lula não tem nada a esconder no relacionamento dele com as empresas.

Estado - Um dos primeiros a divulgar foi justamente o senador de oposição Ronaldo Caiado (DEM-GO). O Instituto Lula chegou a dizer em seu posicionamento que estranhou a postura do senador.

Marcondes - O Caiado representa os setores mais reacionários da sociedade e é tradicionalmente um adversário nosso que só faz se confrontar com o governo e com tudo que seja parte do processo de inclusão social. Então, em nada me surpreende a ação dele nas redes sociais. Mas acho que foi coincidência, não uma ação orquestrada da oposição.

Estado - A prisão de executivos da Andrada Gutierrez e da Odebrecht próximos a Lula colocou pressão sobre o ex-presidente?

Marcondes - A Lava Jato já está em desenvolvimento há meses, era esperado a qualquer momento que tivesse algum tipo de ação em relação às duas construtoras que foram atingidas na sexta-feira, então não surpreendeu. Pode ter sido uma surpresa a prisão dos dois presidentes, numa certa contradição na ação do Sérgio Moro, mas também não foi o fim do mundo como muita gente falou. No dia da prisão houve interpretações de que agora 'o mundo caiu' e de que 'tudo vai ser revelado'. Não é assim que estão se comportando as duas construtoras.

Estado - O ex-presidente tem receio de que a investigação chegue a ele?

Marcondes - Não tem o que chegar no Lula. O Lula fala com muito orgulho uma coisa que também falo. O trabalho que ele fez no governo e depois, para ajudar as empresas brasileiras a se internacionalizarem, é um trabalho natural que os presidentes do mundo inteiro fazem e ex-presidentes também. Acho correto no mundo capitalista que os governos apoiem as empresas. É estranho os governos que não apoiam essas empresas a buscar contratos e fazer obras no exterior. Elas estão levando tecnologia brasileira, criando empregos.

Estado - Mas as investigações apontam que pode haver desvios nesses contratos, dentro e fora do Brasil.

Marcondes - Se os contratos são ilícitos, compete investigar, o que não se pode fazer é acusação sem nenhuma evidência, sem nenhuma prova de que o governo brasileiro, seja no governo Lula ou depois, está fazendo alguma ingerência nos países para que essas empresas sejam contratadas. 

Estado - O discurso do Lula na segunda-feira, 22, de que o PT envelheceu e perdeu a utopia surpreendeu a dirigentes partidários e ao governo. Qual a sua avaliação da fala de Lula?

Marcondes - Para quem acompanha os discursos do Lula essa cobrança de renovação, de reformulação e reestruturação do partido é uma coisa em que ele tem insistido bastante. E de fato uma necessidade do PT, porque a conjuntura mudou e o partido precisa se readequar à atual situação. A surpresa maior foi porque era um evento internacional, com Felipe González, porque passou ao vivo pela internet, então acho que teve essa repercussão maior. 

Estado - Mas ele adotou um tom mais enfático ao dizer que os militantes só querem cargo.

Marcondes - Essa crítica da preocupação com mais cargos, com o processo eleitoral, também não é a primeira vez que ele faz e é uma preocupação real do PT. Lula nunca tinha dito isso com tanta contundência, mas ele já havia dito isso dentro do PT. No congresso do PT muita gente tocou nessa tecla.

Estado - O PSDB acusou Lula de adotar uma estratégia para se eximir de responsabilidade da crise por que passa o governo e até para sair da mira da Lava Jato.

Marcondes - É uma interpretação equivocada. Vi interpretações inclusive de que ele estaria com a estratégia de se descolar do governo, se posicionar mais à esquerda. Não existe isso. O apoio do Lula a Dilma, ao governo federal, é incondicional. Evidentemente tem divergências, tem desencontros, tem interpretações distintas, mas é um apoio incondicional.

Estado - O senhor acompanha o partido desde a fundação, foi um dos dirigentes em São Paulo. Acha que o PT envelheceu?

Marcondes - O partido foi criado por jovens de 20, 30 anos. Foi um partido que nasceu das lutas, da mobilização muito vigorosa contra a ditadura e pela democratização. Nesses 35 anos não só nós envelhecemos, mas a conjuntura mudou radicalmente. O cansaço, o envelhecimento do partido é um dado da realidade. O rejuvenescimento é uma necessidade permanente.

Estado - Por que o 5º Congresso do PT em Salvador não aprovou nenhuma medida clara nessa direção?

Marcondes - O congresso teve a grande função de tentar manter o alinhamento do partido em torno do apoio à presidenta Dilma Rousseff. Esse era o apelo e a vontade maior da direção do partido, não deixar, numa situação muito difícil que o Brasil está vivendo hoje, que o PT está vivendo hoje, haver um desgarramento do partido em relação ao governo. O discurso do Lula, feito junto com o da Dilma na abertura do congresso, foi um discurso muito mais de unidade do partido em torno do governo. Acho que ele agiu bem, esse era o sentido mesmo do congresso. Passado o congresso, a situação política continua se agravando, então ele chegou à conclusão de que era o momento de fazer uma chamada maior à militância.

Estado - Nesse discurso, Lula também falou sobre demissões de jornalistas e foi criticado por tripudiar sobre os profissionais de imprensa que perderam o emprego.

Marcondes - Na verdade ele tripudiou sobre as empresas. Ele questionou as empresas jornalísticas que fazem as demissões ao mesmo tempo que cobram o posicionamento do governo em sentido contrário. Criticam o ajuste fiscal, são extremamente severas na avaliação do governo, mas estão fazendo políticas de corte, de terceirização, de pejotização. Lula faz e eu também faço a distinção clara da linha editorial, da direção dos veículos, e dos jornalistas. A grande discussão por trás disso é a regulação da mídia que, no nosso ponto de vista, é rediscutir os monopólios, a concentração de poder em poucas mãos e não a censura. como tentam desviar.

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