WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

‘Há uso político na acusação contra mim’, afirma Laurence Casagrande

Ex-presidente da Dersa, preso em junho e solto no início deste mês, diz que está sendo usadopara atingir Alckmin

Entrevista com

Laurence Casagrande Lourenço, ex-presidente da Dersa

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2018 | 05h00

Laurence Casagrande era desconhecido da grande maioria do eleitorado paulista até ser preso, em junho, pela Operação Pedra no Caminho. Desde então, ele e a companhia que presidiu por sete anos se tornaram pedras no sapato de Geraldo Alckmin (PSDB), pela imputação de fraude nas obras do Rodoanel, outrora vitrine e hoje vidraça das administrações tucanas em São Paulo.

Na primeira entrevista desde que foi solto por determinação do ministro Gilmar Mendes, do STF, Casagrande diz ser alvo de acusações infundadas, afirma duvidar de que terá direito a um “julgamento justo” e afirma que as acusações contra si foram usadas politicamente para atingir Alckmin. 

A seguir os principais trechos da entrevista, concedida na última quinta-feira.

O sr. ficou 77 dias preso sob acusação de fraude e formação de quadrilha. Como analisa esta denúncia e como responde a essas acusações?

Não há nos autos nem no inquérito nenhuma imputação de corrupção. Há imputação de outros crimes, como falsidade ideológica e fraude, mas não corrupção. A Polícia Federal investiga  este caso desde fevereiro de 2016. Nesse período, eles tiveram acesso a uma série de informações sobre o caso. Também tiveram acesso a dados pessoais meus, como sigilo bancário, fiscal, telefônico. E não encontraram nada vinculado a corrupção. Quanto a supostos outros ilícitos que eles apontaram houve uma falha muito grande de quem investigou esse caso em não me chamar, ou chamar a empresa. O que aconteceu foi justamente o contrário: sempre que a Dersa, e depois eu próprio tentei ingressar nas investigações, isso foi negado.

O Ministério Público alega que houve sobrepreço e fraude nos aditivos assinados aos contratos para os lotes do Trecho Norte do Rodoanel. E que isso foi feito em conluio entre as empreiteiras e a direção da Dersa. 

Isso não é verdade. O que aconteceu foi justamente o contrário. A busca da empresa e da diretoria no período em que eu a presidi foram no sentido de preservar o erário e o interesse público. Nós fizemos análises nos pedidos que foram feitos pelas empreiteiras. Os aditivos de preços foram provisórios. A empresa correu atrás de informações e glosou esses preços. E as empreiteiras lançaram mão de um recurso contratual, que foram as juntas de conflito. Então eu discordo que tenha havido por parte da Dersa no período em que eu a presidi qualquer benefício a construtoras.

E como o sr. responde à alegação técnica de que alguns dos motivos para os aditivos de preços, como a questão dos matacões, já podiam ser apontados desde o início do projeto?

O projeto básico que guiou a licitação do Rodoanel foi único para os 44 km da obra. A posição que foi defendida pelas construtoras é que a licitação original deveria ter preços específicos pra a remoção de grandes blocos de rochas, os matacões. Entendem que a licitação tratou esses blocos como exceções, quando eles eram a regra. Este assunto foi analisado, a pedido da Dersa, pelo IPT. Quando o IPT se pronunciou, a Dersa suspendeu os pagamentos e a medição daqueles serviços. As construtoras não concordaram e pediram a formação de uma junta de conflitos, que entendeu que a Dersa deveria ter feito um preço específico para a remoção de matacões. E esta foi a decisão final, da qual recorrermos.

O sr. consegue dizer sem medo que não houve corrupção na construção do Rodoanel? Em nenhum dos trechos?

Eu posso lhe dizer que na construção do Rodoanel Norte não houve qualquer atividade vinculada à corrupção por parte da diretoria da Dersa. Todos os atos que tomei enquanto presidi a companhia foram atos que respeitaram integralmente aquilo que estava no contrato e que procuraram defender o interesse público. Eu não posso responder por outros períodos da companhia em que não fui presidente. Mas, no período em que estive à frente da Dersa, não houve corrupção no Rodoanel Norte.

Um dos diretores acusados no processo, Pedro da Silva, é acusado de enriquecimento ilícito e o Ministério Público Federal aponta indícios concretos desse enriquecimento. No entanto ele foi mantido pelo senhor.

O Pedro já era o diretor de Engenharia quando eu cheguei na Dersa. Não cabe ao presidente da companhia remover diretores. Isso é uma atribuição específica do Conselho de Administração, conforme o estatuto social, e o Conselho de Administração da empresa, nesse caso de nomeações, age de acordo com determinação do Conselho de Defesa dos Capitais do Estado. No período em que o Pedro trabalhou comigo na Dersa não houve nenhum ato dele que gerasse suspeição ou dúvida quanto à sua correção ou quanto à defesa dos interesses da companhia.

Outro ex-diretor da Dersa alvo de denúncias de corrupção é Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, que é do período anterior ao do senhor. Também atesta a correção dele?

Não conheço o Paulo Preto, entrei na companhia oito meses depois que ele havia saído da empresa e estive com ele uma única vez, na final da Libertadores, no Pacaembu, quando o Corinthians foi campeão mundial, e nessa oportunidade não conversamos.

Mas sua gestão investigou os atos atribuídos a ele? O que foi encontrado?

Todas as denúncias recebidas pela Dersa foram investigadas, até porque depois de 2011 estipulamos uma política de compliance bastante robusta. Toda denúncia que chegou foi encaminhada a esse órgão de investigação interna e tudo que foi achado foi investigado.

E o que foi achado?

Por exemplo, no caso do reassentamento da Jacu Pêssego, Rodoanel Sul e Marginal Pinheiros, que inclusive hoje é objeto de uma ação judicial, a principal prova são os relatórios de auditoria da Dersa.

Então nesse caso o senhor acredita que houve, sim, ilícito com a participação da então diretoria?

O que houve naquele episódio foram pagamentos indevidos. Ou seja, foram aprovados pagamentos que não seguiram os procedimentos adequados dentro da empresa. E a Dersa tomou a providência de apurar essas irregularidades, as encaminhou às autoridades competentes e, neste momento, move uma ação de ressarcimento contra aqueles que se acredita sejam os responsáveis.

O sr. ficou preso, foi libertado pelo STF e agora será julgado. Qual acredita que será o desfecho desse processo?

O que eu mais desejo com relação a este processo é um julgamento justo. Pelo que vi até agora, não tenho certeza se eu terei esse julgamento justo.

Por quê?

Porque desde o período de investigação, que começou há muito tempo atrás, nunca se buscou ouvir e apurar as informações. Há um direcionamento, há uma tese preconcebida e toda a informação que foi buscada foi sempre no sentido de se confirmar essa tese. Se esse julgamento for justo, tenho certeza de que serei absolvido.

A tese é a de que teria havido um conluio da Dersa com as empreiteiras para se chegar a um sobrepreço e beneficiar economicamente também a diretoria da Dersa?

Quanto à diretoria da Dersa não tem nenhuma evidência, nunca houve nenhuma citação, de que foi beneficiada nesse suposto conluio. Tudo que se apurou e se demonstra até este momento, e, reitero, eu não concordo com essa demonstração, são apurações que induzem ao entendimento de fraude. O Ministério Público sustenta que havia uma organização criminosa no seio da empresa. Agora que organização criminosa é essa que busca o tempo todo gerar argumentos e justificativas para que não se atendam os pleitos das construtoras?

Uma das alegações para justificar sua prisão foi a de que estaria havendo destruição de provas e de documentos. Como o sr. responde a isso?

Isso é um absurdo. Eu tinha o hábito, e ainda tenho, e o acho muito saudável, até porque ele é uma recomendação de políticas estaduais e da própria Dersa, de se atentar a questões de sigilo da companhia. Não por outra razão vários funcionários da empresa trabalham com picotares de papel ao lado de suas mesas e cuidam de que documentos e papeis não sejam colocados de forma aberta e exponham os interesses da empresa de forma pública. Dentro da política da Dersa a companhia tem um sistema de digitalização dos documentos. Tudo isso é guardado. 

Mas quem determina o que pode ser descartado dessa forma?

Existe um decreto estadual que determina o que pode ou não ser descartado. Em segundo lugar a própria política da companhia também determina o que pode ou não ser descartado.

E esses documentos digitalizados foram todos entregues à investigação?

Eu imagino que sim, porque esses documentos estão na Dersa, estão nos servidores da companhia.

Essa política de destruição de documentos e de sigilo não contraria a necessidade de transparência na gestão pública?

Pelo contrário. Uma coisa é você guardar a informação. Outra é você descartar de forma indevida essa informação. As informações não são perdidas, são armazenadas com zelo que elas merecem. 

Então o sr. acha que a alegação de risco de destruição de provas foi usada como pretexto para sua prisão?

Não me parece haver uma outra motivação além dessa, porque se você analisar o depoimento das minhas secretárias, de onde foi retirada essa alegação, vai verificar que sou uma pessoa de comportamento extremamente organizado, não gosto de acumulação de papel, e aquelas informações que foram descartadas já estavam no sistema.

Ainda na questão dos aditivos à obra do Rodoanel Norte, o gerente de obras, Emílio Squarcina, se recusou a assiná-los e foi posto numa geladeira administrativa na Dersa. Como o sr. explica isso?

O Emílio era um funcionário da Diretoria de Engenharia, e essa foi uma decisão tomada no âmbito da diretoria, assim como a sua contratação. O Emílio, se não me engano, foi contratado em 2012, e essa foi uma decisão da diretoria, assim como a decisão de trocar o gerente da obra, de qualquer outra parte, foi da diretoria.

Logo depois de ele se recusar a aprovação de um aditivo sob a alegação de que ele estava irregular?

Este não era um assunto que era tratado da presidência. Eu fui ter a primeira conversa com o Emílio após a saída dele da gerência de obras em fevereiro ou março de 2016. Ele poderia, se ele achasse que havia alguma injustiça, ter me procurado ou procurado outras pessoas. 

O fato de o responsável pela obra ter se recusado a assinar o aditivo já não era um alerta de que havia irregularidade?

De novo: esta não era uma informação da qual eu tinha domínio quando foi tomada a decisão. 

Não é uma decisão importante, uma vez que um aditivo que custaria muito dinheiro dependia dessa assinatura?

Essa é uma decisão importante, mas eu não tinha conhecimento quanto à discordância do Emílio. A informação me foi trazida pelo diretor de Engenharia, que vinha havia algum tempo reclamando de problemas de relacionamento do Emílio com o restante da equipe. Quando me trouxe esse problema eu disse: ‘Bom, assim como a contratação, a decisão de retirá-lo não é minha’.

O Rodoanel já foi um ativo, uma marca do PSDB em eleições, mas agora virou um passivo, e a Dersa hoje é associada a corrupção na campanha. O sr. acha que isso é injusto?

No que tange ao período que eu comandei a companhia eu não acho, eu tenho certeza. A empresa foi bastante séria na condução das suas atividades e nunca se furtou a investigar qualquer atividade.

Pelo período anterior o senhor não põe a mão no fogo?

Não é que eu não ponho a mão no fogo. As denúncias que me chegaram foram apuradas e encaminhadas às autoridades competentes. Ela nunca se furtou a isso.

O sr. é ligado politicamente ao secretário Saulo de Castro. Tem uma trajetória com ele em vários órgãos. Como se deu essa sua entrada nos governos do PSDB e de que natureza é sua ligação com ele?

Minha ligação com o Saulo é profissional, não política. Não sou filiado a nenhum partido e nunca fiz campanha para o PSDB ou para qualquer partido que fosse. Eu conheci o doutor Saulo quando ele dirigiu a Febem. Trabalhei no Senai, com instrução de jovens, e fui convidado para desenvolver um processo de profissionalização de jovens na Febem em 2001. A parceria foi bem-sucedida e depois ele me convidou para trabalhar na Secretaria de Segurança Pública. Depois nos distanciamos, trabalhei quatro anos na iniciativa privada, na Kroll, e depois recebi um convite para retornar em 2011. Mas nossa vinculação sempre foi profissional, ela não é política.

O ex-governador e candidato à Presidência Geraldo Alckmin fez defesas muito veementes da sua honestidade. Acha que seu caso é uma das razões para ele enfrentar dificuldades eleitorais?

Conheci o governador Geraldo Alckmin em 2011, já presidente da Dersa. O conheci e participei de várias reuniões para definir questões relativas à Dersa sempre com postura técnica. Acho que isso contribuiu para definir a confiança que ele expressa no meu trabalho. Cabe a mim agradecer a confiança que ele deposita em mim. Não posso dizer com clareza quais as motivações de quem investiga este caso, mas o que eu percebo é que uma das consequências é o uso político desta situação. 

Consequência de que maneira?

A própria necessidade de o governador ter de fazer uma defesa minha em rede nacional, numa entrevista ao Jornal Nacional, é uma demonstração do uso que se faz dessa situação. /COLABOROU FÁBIO LEITE

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