´Há um forte protecionismo nos EUA´, diz ´Jorge Doblevê´

Seu nome é George W. Bush e ele é o presidente mais poderoso do mundo. Mas pode chamá-lo de Jorge, Jorge Doblevê (George W em espanhol). Assim informou o líder dos Estados Unidos ao jornalista mexicano José Díaz-Briseño, a quem ele prontamente apelidou de Joe. Bush adora inventar apelidos.Com essa e outras piadinhas, o presidente norte-americano deixou o clima mais leve na imponente Sala Roosevelt, na Casa Branca, onde recebeu a jornalista do Estado e seus colegas do México, Uruguai, Guatemala e Colômbia . Na parede, quadros retratando antecessores famosos, como Franklin Delano Roosevelt e Theodore Roosevelt. No centro da mesa, um relaxado Bush, de pernas cruzadas. Um presidente que ia escorregando na cadeira à medida que a entrevista ia transcorrendo. "Você vai cobrir meu discurso de forma objetiva? Claro que vai, né?", brincou Bush com um jornalista que ia fazer uma reportagem sobre seu discurso na tarde de terça-feira. Pouco antes de o presidente americano chegar, passou pela sala a eminência parda do governo: Karl Rove. Aquele que ficou conhecido como o arquiteto da guerra do Iraque andava tranqüilamente, levando seu copo de café matinal.Antes de Bush entrar, um copeiro veio e deixou um copo com água para ele. Só para o presidente. Especulações na sala: será que alguém prova a água antes de ele beber? Logo Bush chegou, acompanhado de auxiliares, entre eles Stephen Hadley, assessor para Assuntos de Segurança Nacional. Hadley se manteve sério o tempo inteiro. Quando Bush respondeu à pergunta sobre os protestos que serão promovidos por Chávez em Buenos Aires, ele sorriu. Foram 45 minutos, muitos sorrisos, gestos e incontáveis palavras em espanhol. Bush sorriu até quando veio a ?universal pergunta sobre Castro?, como ele chamou a indagação infalível sobre o líder cubano Fidel Castro. ?Vamos ver?, disse Bush em espanhol, ?quanto tempo ele vai permanecer sobre a terra. Isso é Deus Todo-Poderoso quem vai decidir.?Abaixo, trechos da entrevista:Qual é a importância do desenvolvimento do mercado de etanol na América Latina, em termos econômicos e geopolíticos? Como essa cooperação vai fortalecer as relações entre Brasil e EUA?Em primeiro lugar, as relações entre Estados Unidos e Brasil são muito fortes. Eu me lembro do primeiro encontro com o presidente Lula. Ele não sabia o que esperar quando veio ao Salão Oval. E eu, francamente, também não sabia o que esperar quando ele veio. Você sabe, as pessoas têm reputações que as precedem na vida. Apesar disso, depois de passarmos um curto período de tempo juntos, nós nos demos conta de que compartilhamos as mesmas preocupações, particularmente em relação aos pobres. E nós dois representamos países grandes, influentes, e podemos trabalhar juntos para atingir objetivos comuns.Um desses objetivos é promover os direitos humanos e a lei, a sociedade civil que fortalece os indivíduos. Nós acreditamos que o governo deve prestar contas ao povo e o povo deve ter a última palavra sobre o destino do governo. Nós viemos de tendências políticas diferentes, eu admito. Mas, apesar disso, quando escutamos de forma cuidadosa, achamos objetivos comuns. E isso nos permite trabalhar de forma prática para abordar problemas significativos.Um desses problemas é o comércio. O presidente Lula e eu vamos falar sobre a Rodada Doha para determinar se podemos ou não fazer as negociações avançarem de uma forma construtiva, que beneficie nossas nações e, igualmente importante, beneficie os pobres do mundo. A melhor maneira de reduzir a pobreza é promovendo prosperidade. E uma maneira de promover prosperidade é estabelecendo um comércio mundial livre e justo.A outra área é mudar a maneira como usamos energia. Na minha última viagem ao Brasil, fui informado detalhadamente sobre a capacidade do País de usar suas matérias-primas para desenvolver uma grande indústria de etanol. E fiquei impressionado com o progresso feito pelo Brasil. Agora volto ao Brasil com uma forte agenda doméstica para o etanol, por causa dos padrões obrigatórios que eu anunciei, de que os EUA vão consumir 35 bilhões de galões (o equivalente a 132,5 bilhões de litros; o Brasil produz hoje 17,4 bilhões de litros anuais, o equivalente a 13% dessa previsão).As implicações políticas disso são profundas, porque nós vamos nos tornar menos dependentes de petróleo, o que é bom para a segurança nacional, e isso nos ajudará a sermos bons representantes do meio ambiente. Eu acredito que os EUA e o Brasil podem trabalhar juntos para compartilhar tecnologia com outros países da região, tornando-os menos dependentes de petróleo. Isso é importante porque a dependência do petróleo expõe as economias aos caprichos do mercado. Se a demanda da China continuar crescendo e não houver elevação correspondente na oferta mundial, isso afetará a habilidade das pessoas da América Latina de guardarem dinheiro, porque o preço da gasolina subirá. Portanto, reduzir a dependência do petróleo vai aumentar a segurança econômica da região. E a prosperidade da região é importante para os EUA: queremos que nossos amigos e vizinhos sejam prósperos.Recentemente, o Uruguai e os Estados Unidos assinaram um acordo-quadro de investimentos e comércio. O sr. acredita que os dois países podem avançar para um acordo de livre comércio? Isso levando-se em conta que, dentro do governo uruguaio, há divergências sobre o assunto e o presidente Tabaré Vásquez disse há alguns dias, em um discurso, que seu governo é antiimperialista....Antiimperialista? Que bom. Espero que ele defina meu governo como pró-liberdade. Mas voltando ao tema do comércio: em primeiro lugar, há divergências dentro do meu próprio governo. As pessoas não deveriam dar como certo que os EUA querem fechar acordos de livre comércio. Na realidade, há um forte protecionismo nos EUA. Então, vou ao Uruguai como forte defensor do comércio, mas entendo que há sensibilidades locais. Portanto, espero que consigamos manter o que tem sido uma relação construtiva com o Uruguai, sem pressionar muito além do que é politicamente factível. Em relação às descrições dos EUA, quero lembrar ao presidente que nosso país é generoso, clemente e que acredita na paz. Mas nós nos protegemos de ataques e acredito que o inimigo quer voltar a atacar a América.

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