Arquivo Estadão
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Há 50 anos morria Francisco Mesquita

Diretor do ‘Estado’, Dr. Chiquinho Mesquita morreu em 1969 após lutar contra ditaduras, ser preso e exilado, e modernizar o jornal

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2019 | 05h00

Nesta sexta-feira, 8, completam-se 50 anos da perda de Francisco Mesquita, diretor de O Estado de S. Paulo, que morreu aos 76 anos, em novembro de 1969, após uma vida dedicada ao jornal, à política e à causa da liberdade.

Nascido em São Paulo em 22 de abril de 1893, Francisco Mesquita, o Dr. Chiquinho Mesquita, como também era chamado, esteve à frente da administração do Grupo Estado por quatro décadas, de 1927 a 1969. Filho de Julio Mesquita e de Lucila Cerqueira Cesar Mesquita e casado com Alice Vieira de Carvalho Mesquita, Francisco Mesquita deixou os filhos Luiz Vieira de Carvalho Mesquita, José Vieira de Carvalho Mesquita e Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita. Deixou oito netos, entre eles Roberto Crissiuma Mesquita, atual presidente do Conselho de Administração de O Estado de S. Paulo, e Francisco Mesquita Neto, diretor-presidente do jornal.

De temperamento discreto, Francisco Mesquita esteve com o irmão Julio de Mesquita Filho, falecido em 12 de julho também de 1969, no comando do jornal a partir da morte do pai em 1927. Eram rotineiras as reuniões dos irmãos no jornal, sempre pela manhã, por volta de 10 ou 11 horas, para discutir o tema do principal editorial do dia, os assuntos mais relevantes da pauta do jornal e questões do cotidiano da empresa.

Além da atividade no jornal, Dr. Chiquinho Mesquita fez parte ativa da vida política brasileira da época, em defesa da então recente democracia republicana nacional. Foi um dos primeiros articuladores da Revolução de 1930 e chegou a fazer parte do “Governo dos 40 dias” de São Paulo, instituído em 20 de outubro de 1930, inicialmente sob a presidência de José Maria Whitaker. Dr. Chiquinho esteve na Secretaria do Interior.

Porém, assediado pelos tenentes vitoriosos, que tinham ascendência sobre o chefe civil do movimento, Getúlio Vargas, Mesquita endureceu com o regime e seguiu coerente com sua atuação marcante iniciada nos anos 20, quando esteve presente na formação do Partido Democrático, fundado em 1926.

Esportista, ex-jogador de futebol pelo Clube Atlético Paulistano, onde foi “artilheiro do ano” na temporada de 1913, formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco em 1916, Francisco Mesquita integrou o grupo de democratas que enfrentou o autoritarismo e, literalmente, foi à guerra, lutando contra o varguismo em 1932: alistou-se como voluntário no Regimento de Infantaria (RI), de Quitaúna, passando então a formar tropa no Batalhão de Piratininga, que se preparava para a resistência a partir de 9 de julho de 1932.

Na frente de batalha, serviu inscrito como “cabo Chico”, sob comando do capitão da Força Pública paulista Reinaldo Saldanha da Gama. Dez dias depois de deflagrado o movimento 9 de Julho, partiu de São Paulo para o campo de ação da região do Vale do Paraíba, a meio caminho para o Rio de Janeiro, a capital federal. Feito prisioneiro em 19 de agosto, quando seu grupo defendia a posição perto de Queluz e sem o apoio militar esperado dos Estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, acabou vencido pelo inimigo.

Preso e levado para a Ilha Grande, no litoral fluminense, seguiu depois para o exílio em Portugal na companhia de quase uma centena de revoltosos constitucionalistas, entre eles seu irmão Julio de Mesquita Filho, também diretor de O Estado de S. Paulo.

O banimento na Europa durou dez meses. Derrotada militarmente, a causa de 9 de Julho, porém, obteve vitórias morais e políticas relevantes. Menos de um ano depois da guerra, Vargas adotaria a constitucionalização do País, com reconciliação e ampla anistia aos exilados. Nesse período, o cunhado de Francisco Mesquita, o engenheiro Armando de Salles Oliveira, foi nomeado interventor no governo paulista.

Francisco voltou do exterior com a família. Retomou imediatamente a atividade política que já exercia desde a formação da Liga Nacionalista e da Aliança Liberal, movimentos políticos dos quais se originaram o Partido Democrático (PD) e o Partido Constitucionalista (1934), ecos partidários da agitada década que antecedeu a aventura autoritária de Vargas.

Eleito deputado constituinte pelo antigo distrito de Bragança e Atibaia, Dr. Chiquinho Mesquita prosseguiu como um dos articuladores de partidos de cunho democrático, como a União Democrática Nacional, a UDN, criada mais tarde, em 1945. Nesse período, participou com o irmão Julio e o cunhado Salles de Oliveira da criação da Universidade de São Paulo, a USP, em 1934 – a primeira do Brasil –, e da elaboração da Carta Estadual de 1935, promulgada exatamente no dia 9 de julho.

Durante o mandato, atuou na Comissão Permanente de Finanças e Orçamento da Assembleia de São Paulo onde fez na tribuna a defesa do jornal, da liberdade de expressão, dos valores republicanos e democratas, sempre com pronunciamentos marcantes por ocasião de comemorações dos centenários de Quintino Bocaiuva, um histórico republicano do Rio, e de Bento Quirino dos Santos, abolicionista de São Paulo.

Inovação. O Estado foi, em 1934, o primeiro jornal do Brasil a utilizar um sistema de anúncios classificados. Francisco Mesquita, o “patrono” da inovação, preocupou-se em instalar o maior número possível de agências vendedoras de classificados em todo o País. Com a iniciativa, o jornal aumentou as vendas e a credibilidade, passando a ser procurado por grandes anunciantes e receber mais propaganda.

No Estado Novo, a partir de novembro de 1937, quando se consolidou a ditadura de Vargas e foi dissolvida a Assembleia Legislativa, o governo tentou submeter o jornal à censura prévia. Francisco Mesquita, de volta ao jornal, abre um período de modernizações, com o Estado mantendo a independência e encontrando meios de enfrentar o regime.

O Estado não vendia páginas para a propaganda de Getúlio Vargas, que era farta em outros órgãos de imprensa. A repressão foi grande e Julio de Mesquita Filho, então diretor, foi preso 17 vezes até finalmente vir a ser afastado e novamente submetido ao exílio. Francisco Mesquita seguiu no comando sem alterar o caráter cívico e defensor da democracia do jornal.

Em março de 1940, militares invadiram a redação do Estado sob a falsa acusação de conspiração armada. Armas foram colocadas no forro do prédio pela própria polícia para forjar provas. O jornal foi acusado de armazenar metralhadoras que seriam usadas em ações destinadas a derrubar o governo. Francisco Mesquita, de novo preso, foi levado para o Rio, onde ficou isolado por 40 dias. Nada foi provado contra ele. Libertado, não pôde reassumir suas funções no jornal, que passou a ser dirigido por um interventor designado pela ditadura. O indicado para assumir foi Abner Mourão.

O Estado ficou então sob controle do regime varguista por cinco anos, até 1945, e somente foi devolvido à família Mesquita em dezembro daquele ano. O Grupo Estado não reconhece os números editados e publicados no período de intervenção.

Com a retomada do controle do jornal, Dr. Chiquinho Mesquita iniciou uma outra fase de modernização da empresa, que teve a inauguração da nova sede, na Rua Major Quedinho, 28, em 18 de agosto de 1953. A seguir, sempre com a parceria afinada do Dr. Chiquinho Mesquita com o irmão Julio, o Estado entra em um ciclo de lançamento de cadernos. É quando nascem publicações que fizeram história na imprensa brasileira como o Suplemento Feminino (1953), Suplemento Agrícola (1955) e ocorre a inauguração da Rádio Eldorado (1958).

Nos anos 60, mais uma vez os irmãos Mesquita tiveram papel relevante nas articulações políticas que levaram ao movimento de 64 contra o então presidente João Goulart. Com o endurecimento do regime em dezembro de 1968, a partir da edição do Ato Institucional Número 5 (AI-5) e da censura à imprensa, os irmãos Mesquita se negaram a participar da manobra e, mais uma vez, adotaram a defesa das instituições democráticas.

“Em 13 de dezembro de 1968, a edição de O Estado de S. Paulo foi apreendida a partir da decisão de seu diretor e proprietário Julio de Mesquita Filho de não excluir da seção Notas e Informações o histórico editorial Instituições em frangalhos”, escreveu o jornalista José Maria Mayrink no livro Mordaça no Estadão, de dezembro de 2008, quando se completavam 40 anos do AI-5 e da tentativa dos poderosos de plantão de outra vez dominar o jornal.

Mesmo submetido à pressão do regime militar, com a presença constante de censores na redação, o Estado não adotou a autocensura. O espaço dos textos e fotos cortados pelos agentes do governo era ocupado pelos versos do épico Os Lusíadas, de Luís de Camões. 

Francisco Mesquita morreu em São Paulo, às 3 horas da madrugada, vítima de uma broncopneumonia, quatro meses depois de seu irmão Julio. Foi sepultado no Cemitério da Consolação. Lamentando a perda, Saldanha da Gama, ex-comandante da tropa da resistência na Revolução de 1932, relembrou o comportamento discreto do Dr. Chiquinho Mesquita, parceiro das prisões varguistas e do desterro em Lisboa. “Era homem de rara coragem e não a exibia”, disse o militar ao comentar no jornal a morte de Francisco Mesquita. “Nunca o vi erguer a voz nem fazer gestos desnecessários; liderou sem que o percebessem.”

No dia seguinte ao de sua morte, a “primeira nota”, o principal editorial da página 3, sob o título Uma obra excepcional, destacou o trabalho dele na transformação de O Estado de S. Paulo num dos maiores órgãos da imprensa mundial. “Com sua sensibilidade de homem de imprensa, compreendeu que, para se impor, um grande jornal tinha de ser igualmente uma grande empresa moderna”, diz o editorial.

Um discreto contador de histórias

A política e o jornal faziam parte da vida de Francisco Mesquita, revolucionário democrata, conspirador contra regimes autoritários, organizador de partidos doutrinariamente preocupados com o desenvolvimento econômico. O cotidiano do homem discreto e calmo era ocupado com intensidade pela dedicação ao trabalho na condução empresarial do Estado. Assim eram os dias – mas um pouco menos aos sábados e durante as férias.

Nos fins de semana, Dr. Chiquinho e Dona Alicinha recebiam em casa os oito netos. No verão e eventualmente nos feriados prolongados, a família, as crianças principalmente, se deslocava para a fazenda São José do Palmital, em Pratânia, a 270 km de São Paulo. Ali, lembra o neto Francisco, atual diretor-presidente do jornal, o avô plantava café, “uma paixão” que implicava a participação voluntária na pesquisa de variedades testadas nos viveiros da propriedade por especialistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP. Na fazenda, a agenda pesada do gestor do jornal cedia espaço para o avô que contava histórias de caçadas cheias de aventura – e nas quais o personagem do caçador era sempre o neto. Pela manhã, Dr. Chiquinho vestia um paletó de linho e saía a cavalo para percorrer a lavoura. À tarde, reunia a família em um novo passeio a cavalo. A noite era dedicada à leitura. Atualmente, a fazenda São José do Palmital produz cana e eucaliptos. “Meu avô fazia do jornal seu estilo de vida”, destaca o neto Roberto Crissiuma Mesquita, presidente do Conselho de Administração do Grupo Estado. “O assunto nos almoços da família era o Estadão e o País”, recorda. Dr. Chiquinho Mesquita pretendia em tempo integral “um Brasil moderno, livre e independente”, acrescenta Francisco Mesquita Neto. 

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