Twitter/Reprodução
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Guerra de tuítes opõe aliados do governo Bolsonaro

De 'Nhonho' a 'Maria Fofoca': postagens nas redes sociais incomodam até o presidente Jair Bolsonaro, que usa as redes para atacar oponentes

André Borges, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2020 | 15h34

BRASÍLIA – Os bastidores de Brasília dão conta de que até mesmo o presidente Jair Bolsonaro, usuário ferrenho das redes sociais como ferramenta para criticar seus inimigos políticos, tem se surpreendido e, em alguns momentos, se incomodado com a "briga de pátio de escola" que integrantes de seu governo têm promovido no Twitter.

Na semana passada, Bolsonaro se reuniu com seus ministros e mandou um recado geral, mas endereçado especialmente a Ricardo Salles, pedindo ao titular da pasta do Meio Ambiente que passe a “lavar a roupa suja internamente”. Bolsonaro foi além. Disse aos seus comandados da Esplanada dos Ministérios que parassem de dar informações em “off” a jornalistas, ou seja, notícias extraoficiais, e que passassem a se comunicar apenas de forma institucional e oficial, como se isso algum dia tivesse existido em Brasília ou fosse possível de ser controlado. Minutos depois, esse mesmo pedido do presidente foi repassado à imprensa, logo depois, em off.

O comportamento de Salles não encontra paralelo na gestão que o ministro impõe à sua pasta. Salles, que hoje protagoniza a "rinha digital", foi um dos ministros que passaram a fazer um controle cada vez mais rígido de informações. Nada sai do Ministério do Meio Ambiente e seus órgãos coligados - Ibama e Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) – sem sua autorização. Estes últimos perderam suas assessorias de imprensa, seus funcionários foram informados que não podiam mais falar com jornalistas e que tudo o que tivessem de publicar deveria, antes, passar pelo crivo da pasta.

Essa lei da mordaça, na prática, está em vigor até hoje, além do clima de “caça às bruxas” entre os servidores, para identificar aqueles que vazariam informações à imprensa. Esse rigor, porém, cai por terra quando o ministro tem à sua frente o campo aberto e de efeito imediato oferecido pela internet.

Foi o que ocorreu uma semana atrás, no dia 22, quando Salles foi ao Twitter para chamar o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, de “Maria Fofoca”. O ataque direto ocorreu na esteira de uma nota publicada pelo jornal O Globo, afirmando que Salles estava “esticando a corda” com militares do governo. Acontece que a nota sequer citava o Ramos ou qualquer outro membro do governo. A menção só serviu para dar publicidade a um embate que já ocorria há meses em Brasília, entre a ala militar e a ala ideológica do governo.

Salles, que ganhou apoio público de Eduardo Bolsonaro e outros aliados do governo na ocasião, manteve o tom e não pediu desculpas a Ramos. Coube, então, ao general, angariar apoios. Dois dias depois, após conversa com Ramos, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi ao Twitter e disparou: "Ricardo Salles, não satisfeito em destruir o meio ambiente do Brasil, agora resolveu destruir o próprio governo”.

Bolsonaro, experiente nos ataques virtuais, achou que a temperatura estava alta demais, entrou em cena para dizer que não estava gostando da briga e pediu que os ministros dessem o assunto por encerrado. Assim foi feito, até a noite desta quinta-feira, 28.

Quatro dias depois de Maia ter atacado Salles, o perfil do ministro traz o contra-ataque de “Nhonho”, referindo-se ao personagem da série mexicana “Chaves”. A publicação permaneceu ativa durante uma noite inteira e se espalhou por toda a internet. Só na manhã desta quinta-feira, 29, é que Salles resolveu retirar a publicação do ar.

O ministro entrou em contato com Rodrigo Maia, pediu desculpas e disse que outra pessoa teria entrado em seu perfil e publicado a provocação. Segundo Salles, um assessor próximo, que tinha a senha de seu perfil e atuou com ele na campanha eleitoral de 2018, em apoio a Bolsonaro, teria acessado erroneamente a conta do ministro e escrito a resposta.

Não se sabe até o momento, porém, quem seria este assessor. Se, de fato, a publicação foi um “engano”, Salles precisa explicar por que seu “amigo assessor” não se identifica rapidamente e desfaz o “mal entendido” que recai sobre o ministro. Depois de uma noitada em Fernando de Noronha, onde ainda permanece, Salles não quer falar sobre o assunto e, mais uma vez, diz que dá a confusão por encerrada. 

Banco Central

Maia, talvez insatisfeito com as explicações de Salles, decidiu voltar às redes sociais e desferir mais uma pancada contra o governo. Dessa vez, porém, ignorou o ministro e citou o  presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.  Chateado com um suposto “vazamento” da conversa particular que teve com Campos Neto, o presidente da Câmara escreveu que “a atitude do presidente do Banco Central de ter vazado para a imprensa uma conversa particular que tivemos ontem não está à altura de um presidente de Banco de um país sério”. 

A pancadaria durou cerca de uma hora, até que Campos Neto conversou com Maia e jurou que não vazou nada. Maia, então, tirou o pé. “Recebi há pouco ligação do presidente do BC afirmando que ele não divulgou à imprensa a nossa conversa. Diante da palavra do presidente, o vazamento certamente foi provocado por terceiros. Deixo aqui registrado a ligação e a confiança que tenho nele”, escreveu.

Se as brigas entre membros do governo e do Congresso se dão no mundo virtual, o desgaste dos poderes é presencial, e ainda está sendo medido pelo governo. Nesta quinta-feira, depois de ver o circo pegar fogo mais uma vez, o vice-presidente, Hamilton Mourão, disse que novo capítulo da novela entre Salles e Maia é assunto de "pouca importância", em face dos problemas do País. Falta combinar com os membros do próprio governo.

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