Guerra de nervos

Enquanto a flechada real não vem, Janot dispara flechas virtuais contra Temer

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2017 | 05h00

O “mês das bruxas” passou, mas as bruxarias e flechas envenenadas continuam cruzando o ar seco, irrespirável, de Brasília. Em contagem regressiva para deixar a PGR, Rodrigo Janot faz uma guerra de nervos, disparando flechadas virtuais contra o presidente Michel Temer enquanto não vem a flechada real (e que ele pretende, ou insinua, como mortal).

Só no último dia de agosto, Temer foi alvo de quatro notícias esparsas e ameaçadoras. A primeira delas é que Janot devolveu para o relator da Lava Jato no STF, Edson Fachin, em menos de 24 horas, a delação do doleiro Lúcio Funaro, sempre apontado como o coveiro de Temer. Será mesmo?

Ficaram dúvidas nessa rapidez toda. Fachin só pediu os ajustes para não repetir o erro de ter encampado em tempo recorde a delação de Joesley Batista contra um presidente da República? E esses ajustes eram tão superficiais que Janot resolveu com duas pinceladas e manteve o cronograma das flechadas?

Enquanto o procurador devolvia a delação, a ser homologada no STF, vazava que a bomba de Funaro é a confirmação de que Joesley comprava o seu silêncio com autorização de Temer. Como o assessor Rocha Loures, a irmã do doleiro também foi flagrada com mala de dinheiro, que seria para evitar a delação.

A terceira notícia, de deixar Temer e o mundo político de cabelo em pé, é que Joesley aparece com novos vídeos. E não por iniciativa própria, mas porque a Polícia Federal descobriu que havia trechos apagados e quer saber quais e por quê. Nós também.

Por fim, surgiu a informação de que a PGR de Janot estaria com tudo engatilhado para pegar Temer num escândalo paralelo à Lava Jato, que teria até um outro relator no STF: um esquema envolvendo a empresa Rodrimar e o conhecido Rocha Loures no Porto de Santos, velho reduto político de Temer e sempre cercado de suspeitas.

Pela conversa gravada do presidente com seu assessor, não dá para concluir nada. Rocha Loures pergunta como vai ser tal coisa, Temer não sabe. Insiste em saber quando será, Temer também não sabe. Na terceira tentativa, o presidente se livra do diálogo despachando-o para outro assessor. Deduz-se, pois, que Janot tenha mais bambu do que esse para a flechada da Rodrimar.

Até aqui, após a derrota da primeira denúncia na Câmara, são flechas virtuais para lá e para cá, que não ajudam o ambiente político, nem os ainda sutis avanços na economia, porque deixam Temer o tempo todo no alvo, com pouca mobilidade e destino incerto. O Congresso cruza os braços ou aumenta o preço, e os investimentos não andam.

Setembro chegou e a primavera vem aí envolta em nuvens secas. O ministro da Articulação Política, Antônio Imbassahy, aposta que haverá quórum nesta semana para aprovar na Câmara os dois destaques da nova meta fiscal, de R$ 159 bilhões. Pode ser excesso de otimismo. Semana de feriado na quinta-feira? E com uma nova denúncia pairando sobre Temer?

A boa notícia é que o Brasil está saindo da recessão, com aquecimento de serviços e do consumo das famílias, graças à liberação do FGTS, à inflação baixa e aos juros em queda, com a ainda leve recuperação de empregos, o indicador mais político da economia. Mas, quando a coisa começa a adquirir algum ar de normalidade, tudo recomeça e sacode a normalidade para lá.

Na China, Temer recebeu com desconforto as flechadas virtuais e a ameaça de mais uma denúncia iminente de Janot. Mas entrou em setembro aliviado com o fim – ou o início do fim – da recessão que vem desde 2014. Agora, é buscar previsibilidade na política para colher investimentos, um dos nós da recuperação econômica. É hora de trocar a guerra de nervos pelo combate à luz do dia. Se houver bambu, que as flechas venham logo.

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