Guerra das vacinas traz de volta ‘gabinete do ódio’

Bolsonaro aposenta figurino ‘paz e amor’ e, insuflado pela redes sociais, reassume estilo ‘quem manda sou eu’

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 14h59

Caro leitor,

Acabou a temporada do “Bolsonaro paz e amor”. A guerra das vacinas devolveu à cena política o presidente Jair Bolsonaro como ele é, insuflado pelas redes sociais no estilo “quem manda sou eu”, que havia sido arquivado após investigações do Ministério Público, da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal atingirem sua família e amigos. Agora, porém, no momento em que Bolsonaro vê a Procuradoria-Geral da República como sua aliada e consegue nomear pessoas de sua mais estrita confiança para o  Supremo e o Tribunal de Contas da União (TCU), o “gabinete do ódio” voltou.

O confronto do presidente com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), por causa da “vacina da China”, expôs com todas as letras que a fase de calmaria tinha sido desenhada pelo marketing do Planalto. A ordem era evitar que os conflitos se agravassem para não irritar ainda mais o Judiciário e o Congresso numa quadra em que estão em curso o inquérito das fake news, o caso Fabrício Queiroz e as diligências para apurar a interferência de Bolsonaro na PF. A denúncia foi feita em abril pelo então ministro da Justiça Sérgio Moro, o ex-juiz da Lava Jato que acusou o presidente de intervir na corporação para proteger seus filhos e seguidores.

Todas essas investigações continuam, mas o presidente, hoje, está mais fortalecido. Com o apoio de partidos que integram o Centrão, e até mesmo do PT, Bolsonaro conseguiu emplacar o desembargador Kassio Nunes Marques em uma cadeira no Supremo.

Aprovado nesta quarta-feira, 21, pelo Senado, em sabatina protocolar que trocou questionamentos sérios por uma “rasgação de seda”, Marques já é visto como o magistrado que atuará como um “escudo” do Planalto na Corte.  Além disso, Bolsonaro terá agora no TCU o apoio de seu braço direito Jorge Oliveira, atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, que entrará na vaga a ser aberta em dezembro com a aposentadoria do presidente do tribunal, José Múcio Monteiro.

No governo ninguém se esquece de que o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, começou quando integrantes do TCU acusaram a petista de ter cometido uma pedalada fiscal. Nos capítulos de hoje, com uma crise atrás da outra batendo à porta do Planalto, tudo foi planejado para a blindagem de Bolsonaro. E a ala ideológica do governo, estimulada pelo vereador do Rio Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho “02” do presidente, já se sente à vontade para pôr as manguinhas de fora.

Ao desautorizar o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, e cancelar o acordo para a compra de 46 milhões de doses da vacina Coronavac, produzida numa parceria entre o laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantã, Bolsonaro se rendeu à pressão dos chamados “olavetes”. Aposentou o personagem “paz e amor” e, mais uma vez, foi contra os generais.

“Nunca houve um presidente tão cercado de traidores quanto o Bolsonaro. Será por mera coincidência que nenhum deles é um olavete?”, afirmou no Twitter o escritor Olavo de Carvalho, guru da ala ideológica, dando a senha para novos ataques aos militares da Esplanada.

Bolsonaro disse que Pazuello foi “precipitado” ao anunciar que “a vacina do Butantã será a vacina do Brasil” e chegou a falar em “traição” quando se referiu ao assunto. Mas, fiel a seu estilo de “morde-assopra”, assegurou depois que está tudo bem na relação com o titular da Saúde. Nesta quinta-feira, 22, todo sorridente, ele gravou um vídeo ao lado de Pazuello, que foi diagnosticado com coronavírus.

“Falaram até que a gente estava brigado. É comum acontecer isso daqui. Algum choque, alguma coisa, não teve problema nenhum”, anunciou Bolsonaro na transmissão ao vivo pela internet. Pazuello não deixou por menos: “É simples assim. Um manda e o outro obedece. Mas a gente tem um carinho, entendeu?” Sem máscara e trocando amabilidades, os dois aproveitaram para pregar o uso da cloroquina.

“Impor medidas autoritárias é só para esses nanicos projetos de ditadores, como esse cara de São Paulo aí”, disse Bolsonaro, horas antes, em conversa com apoiadores, no Palácio da Alvorada. “Eu não ouvi nenhum chefe de Estado do mundo dizendo que iria impor a vacina. É um direito de cada um tomar ou não. É uma irresponsabilidade do governador, porque não existe uma vacina eficaz”, emendou, ao afirmar que Doria quer levar “pânico e terror” à população.

No dia anterior, em mais um sinal de que o “gabinete do ódio” voltava a dar as cartas,  Bolsonaro lembrou a origem da pandemia do coronavírus, batizado pela ala ideológica de “vírus chinês”. O mesmo discurso é propagado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“Bolsonaro está cometendo um ato criminoso”, reagiu Doria. “A vacina que vai nos salvar não é a ideologia. O Brasil não pode mais viver em conflagração”.

Pelo Twitter, o deputado Marcelo Ramos (PL-AM) também entrou na guerra contra os radicais que alimentam o discurso inflamado do presidente. “Bolsonaro não lidera! É liderado por uma rede de tolos que diante da morte de milhares de brasileiros grita nas redes sociais contra uma vacina que pode proteger a vida. É o populismo sanitário”, provocou Ramos. 

Com foco nas críticas à Coronavac, a ala ideológica nem quer mais saber do escândalo protagonizado na semana passada por Chico Rodrigues (DEM-RR). Amigo do presidente, o ex-vice-líder do governo no Senado foi flagrado com R$ 33.150 na cueca em operação da PF que investiga desvio de dinheiro destinado à pandemia de covid-19. Para Bolsonaro, não há corrupção no governo. O que importa, agora, é o combate à “vacina chinesa do Doria”.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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