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Guedes salva o dia

O ineditismo de um presidente sul-americano abrir o Fórum Econômico Mundial foi desperdiçado com uma fala mais curta que o mínimo necessário para enunciar alguma plataforma

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2019 | 05h00

Jair Bolsonaro perdeu a chance de fazer história em Davos. O ineditismo de um presidente sul-americano abrir o Fórum Econômico Mundial foi desperdiçado com uma fala mais curta que o mínimo necessário para enunciar alguma plataforma, mais genérica que o necessário para convencer um público tão qualificado e, principalmente, completamente desprovido de senso de liderança e convicção de estadista.

Daí que a reforma da Previdência, o projeto que vai definir o sucesso de sua Presidência, tenha ficado fora da fala. Certamente não foi por falta de tempo, uma vez que o discurso, lido no teleprompter em tom vacilante, teve seis parcos minutos.

Ao deixar de fora o tema que a plateia mais queria ouvir, Bolsonaro passou aos investidores – que pareceu querer atrair enaltecendo nossas belezas naturais – o recado de que vacila quanto a firmar um compromisso com a reforma.

Coube a Paulo Guedes consertar as coisas na palestra que fez depois a investidores, organizada por um banco, em que por 90 minutos detalhou os planos do governo para a economia e assegurou que a mudança no sistema previdenciário será aprovada.

Claro que não se pode comparar a natureza dos dois discursos. Mas dá para pedir ao presidente o tal compromisso e cobrar um plano para reerguer a economia, como, aliás, fez o presidente executivo do fórum, Klaus Schwab, ao tentar espremer algo de concreto de Bolsonaro. A reforma será uma tarefa difícil de levar a cabo. Dizer naquele palco que ela é a prioridade era o recado que Bolsonaro poderia passar.

EM FAMÍLIA

Ideia de que Previdência é tema ‘doméstico’ prevalece

A pista de que o discurso de Bolsonaro em Davos não seria, como afirmavam ministros nas semanas anteriores à viagem, o momento para que o presidente firmasse o compromisso com a reforma da Previdência foi dada na véspera, quando Eduardo Bolsonaro, o filho deputado e que tem pretensões a influenciar a política externa do governo, opinou, com a convicção que lhe é peculiar, que o assunto não interessaria ao público do Fórum Econômico Mundial, por ser muito “doméstico”. O vaivém da definição do teor do discurso até a véspera de um evento tão importante foi um aperitivo do tipo de impasse que pode acontecer num governo tão dividido em grupos muitas vezes com visões e interesses antagônicos.

VICE

Mourão pode ser negociador da reforma junto aos militares

Os ruídos da campanha eleitoral, quando Hamilton Mourão causou sobressaltos para o candidato Jair Bolsonaro com declarações fora do tom, levaram a que a desconfiança pautasse a relação inicial do general com o capitão. Mas a forma bastante razoável com que Mourão tem tratado da necessidade de os militares serem incluídos na reforma, destoando do resto dos oficiais em postos-chave do governo, deveria ser aproveitada pelo presidente como um ativo na negociação. Está claro que, com a configuração dada por Bolsonaro à sua equipe, os militares tendem a ganhar uma queda de braço no mano a mano com a equipe econômica “no tocante” ao enquadramento nas novas regras de aposentadoria. Mourão pode atuar como mediador dessa negociação e convencer seus pares (que têm a hierarquia e o sentido de dever como valores importantes) a dar seu quinhão de sacrifício para que a reforma passe no Congresso. Não são eles que falam em governar pelo exemplo?

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