WILTON JUNIOR/ESTADAO
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Guardiões, censura e ‘Fala com a Márcia’: relembre polêmicas de Marcelo Crivella

Prefeito do Rio foi preso preventivamente na manhã desta terça, 2, pelo caso do QG da Propina; gestão foi marcada por acusações de improbidade

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2020 | 19h33

A nove dias de deixar o mandato, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), foi preso preventivamente na manhã desta terça-feira, 22. O político carioca foi denunciado por lavagem de dinheiro, corrupção e participação em organização criminosa. Ele é acusado de liderar um esquema de corrupção na prefeitura do Rio, conhecido como "QG da Propina".

Este caso, no entanto, não está isolado; há uma lista de polêmicas da gestão de Crivella, que passam pelo seu envolvimento com instituições da igreja evangélica, censura de livro e até uma possível rede de apoiadores contratados para tentar impedir a veiculação de reportagens que mostravam problemas da Prefeitura.

Veja, a seguir, algumas das polêmicas da gestão de Marcelo Crivella durante a sua gestão do Rio de Janeiro.

‘QG da Propina’

Um dos principais articuladores econômicos da campanha de Crivella à prefeitura em 2016, o empresário Rafael Alves exercia influência sobre o prefeito. De acordo com o Ministério Público do Rio, ele recebia propina de empresas para facilitar contratos e o pagamento de dívidas com o poder Executivo. Crivella agia como um subordinado de Alves. A suspeita é que o tal esquema tenha arrecadado R$ 50 milhões durante o mandato.

As investigações apontam que, apesar de jamais ter sido nomeado, Alves trabalhava em uma sala da Prefeitura que ficou conhecida como o “QG da Propina”. Porém, ele conseguiu que o seu irmão, Marcelo, virasse presidente da Riotur. Em setembro, Crivella foi alvo de busca e apreensão.

A desembargadora Rosa Helena Penna Macedo Guita afirma na decisão que autorizou a prisão preventiva do prefeito que ele não apenas estava ciente de todo o esquema como também era chefe da organização criminosa. Em rápida coletiva de imprensa ao chegar à Cidade da Polícia, no bairro do Jacarezinho, na zona norte do Rio, Crivella disse que estava sendo vítima de "perseguição política". "Lutei contra o pedágio ilegal, tirei recursos do carnaval, negociei o VLT, fui o governo que mais atuou contra a corrupção no Rio de Janeiro", afirmou.

Guardiões do Crivella

Conforme revelado por reportagem da TV Globo no final de agosto, a prefeitura do Rio mantinha um esquema de funcionários que passavam os seus expedientes próximos a unidades de saúde para tentar interromper reportagens que denunciavam o destrato de hospitais e postos. O grupo, conhecido como Guardiões do Crivella, gritava “Globo lixo” e “Bolsonaro” quando os repórteres tentavam gravar os seus textos, além de impedir entrevistas com pacientes. Os membros ocupavam cargos de confiança com salários de até R$ 10 mil.

O Ministério Público Eleitoral do Rio entrou com uma ação por abuso de poder político contra Crivella em dezembro, pedindo à Justiça inelegibilidade do prefeito e de sua antiga candidata a vice, Andrea Louriçal Firmo de Araújo, por oito anos e aplicação de multa.

‘Fala com a Márcia’

Em um evento promovido em 2018 na sede da Prefeitura do Rio, conhecido como “Café da Comunhão”, Crivella ofereceu facilidades a pastores e líderes de igrejas evangélicas. Os fiéis poderiam ter facilidades em cirurgias para cataratas e varizes, enquanto pastores com problema de IPTU em seus templos teriam assistência da Prefeitura. 

Para isso, bastava procurar uma de suas assessoras: “É só conversar com a Márcia que ela vai anotar, vai encaminhar e, daqui a uma semana ou duas, eles estão operando”, disse o prefeito no áudio gravado pelo jornal O Globo. Crivella é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

A Justiça do Rio acatou denúncia do Ministério Público e tornou o prefeito réu por suposto crime de improbidade administrativa em setembro de 2018. A assessoria do prefeito acusou a imprensa de propagar um sentimento de intolerância religiosa ao divulgar “colocações distorcidas e fora de contexto”.

Filho

Logo após assumir a prefeitura, em 2017, Crivella tentou nomear o seu filho, Marcelo Hodge Crivella, para a Casa Civil, uma das pastas mais importantes do município. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, suspendeu a nomeação. Crivella tentou reverter a suspensão e chegou a viajar a Brasília para convencer os ministros da nomeação. "Vamos provar que estamos dentro da lei, que ele tem competência e idoneidade. É só uma questão de conversar. O Marcelo (filho) não é suscetível, nem melindroso. Sabe que a vida pública não é concurso de beleza. É o preço que se paga para conquistar o coração do povo", disse o prefeito.

No ano seguinte, servidores da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) foram convidados e transportados para um evento organizado na quadra da escola de samba Estácio de Sá. Lá estavam o filho de Crivella, que pleiteava a eleição para deputado federal, e Alessandro Costa, então candidato a deputado estadual. O encontro, segundo denúncia, serviu para fazer propaganda eleitoral dos candidatos com recursos da prefeitura. Nenhum dos dois, no entanto, foi eleito.

Inelegibilidade

Em setembro deste ano, às vésperas do começo da campanha eleitoral, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) confirmou a decisão de tornar Marcelo Crivella inelegível até 2026. O resultado foi motivado após análise de duas ações contra o prefeito - uma promovida pela Procuradoria Regional Eleitoral do evento com pastores em 2018 e outra pelo PSOL, que englobava tanto o encontro com as lideranças quanto o evento de campanha pelo seu filho. O primeiro evento, no entanto, foi considerado improcedente.

Poucas semanas depois, Crivella conseguiu liminar no TSE que suspendia a inelegibilidade e pode, assim, concorrer à reeleição. A decisão que permitia a candidatura foi oficialmente mantida em novembro. “No fundo eu senti que o TRE resolveu pegar o prefeito como exemplo. ‘Não pode ter bagunça’. Há dois anos eu fui a uma reunião do meu filho, com 50 pessoas, que já foi investigada pela CPI da Câmara, e fui inocentado, mas tinha me dado uma inelegibilidade. Uma medida pesada, dura, duríssima, só por ir a uma reunião”, alegou Crivella na época.

Pedidos de impeachment

Pelo menos cinco pedidos de impeachment foram apresentados durante a gestão de Marcelo Crivella, e a maioria foi recusada. Os motivos foram variados: o primeiro foi após o prefeito virar réu no caso do “Fala com a Márcia”. Mais recentemente, por conta dos casos dos Guardiões e do QG, a poucas semanas do início da campanha eleitoral.

Apenas um pedido de impeachment foi aberto, em abril de 2019. Na época, ele era acusado de cometer irregularidades na renovação de um contrato de publicidade em pontos de ônibus, relógios e outros mobiliários, com prejuízo à prefeitura estimado em cerca de R$ 20 milhões. O processo, porém, foi arquivado em junho daquele ano.

Livros recolhidos na Bienal do Livro

Em 2019, o prefeito mandou recolher uma edição da novela gráfica Vingadores - A Cruzada das Crianças, da Marvel, que, segundo ele, oferecia “conteúdo sexual para menores”. Dois personagens masculinos do livro, lançado em 2010 e que não é dedicado ao público infantil, formam um casal homossexual na história. 

Em um vídeo publicado nas redes sociais, Crivella disse que “livros assim precisam estar em um plástico preto, lacrado, avisando o conteúdo” e que havia determinado aos organizadores da Bienal que recolhessem o livro. A ação repercutiu entre editoras e artistas nas redes sociais, que a classificaram como censura. Uma liminar do Tribunal de Justiça do Estado impediu a apreensão dos livros.

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