André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Grupo de Cardozo vai propor ao PT revisar aliança com o PMDB

No congresso da legenda, segunda maior força política do partido apresentará pedidos de mudanças nos critérios de acordos partidários, fará ressalvas ao ajuste e autocrítica sobre corrupão

Vera Rosa, enviada especial, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2015 | 10h07

Ampliado às 14h35

SALVADOR - Uma proposta de resolução política assinada pela corrente Mensagem ao Partido, segunda maior força política do PT, propõe a revisão da política de alianças para as eleições municipais do ano que vem e para a disputa presidencial de 2018, sugerindo o casamento com os parceiros "históricos", mais à esquerda. Intitulado "Mudar o PT para continuar mudando o Brasil", o documento também critica o ajuste fiscal e diz que as alterações no modelo adotado pelo governo Dilma Rousseff causam "preocupação" porque impõem "políticas de caráter recessivo, que provocarão desaceleração econômica e desemprego". A Mensagem é ligada ao ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Assinado pela Mensagem e por pedaços de outras correntes, como Movimento PT e Militância Socialista, o documento é uma tentativa de influenciar os rumos do 5.º Congresso do partido, em Salvador, assumindo posição mais crítica em relação aos problemas da sigla e do governo. Trinta e cinco dos 63 deputados federais da bancada do PT na Câmara assinaram o manifesto, que propõe a convocação de um novo encontro, em novembro, para mudar a direção petista. O encontro de Salvador será aberto na noite desta quinta-feira, 11, pela presidente Dilma Rousseff e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Embora o documento não cite explicitamente o PMDB, é disso que se trata. A Mensagem avalia que boa parte dos problemas enfrentados pelo PT na seara política pode ser debitado na conta do fisiologismo e da falta de identidade programática na aliança que elegeu Lula e Dilma. 

"(...) Nem tudo saiu como queríamos. Exemplo bastante contundente é o caso da própria Petrobrás. Hoje, a partir de fatos graves envolvendo a empresa,somos atingidos como governo e como partido", diz um trecho do documento, obtido pelo Estado. "O PT foi, gradual e aceleradamente, perdendo a capacidade de formular e de pautar, por si mesmo, o debate nacional, a disputa política e ideológica na sociedade. A ponto de ser comum a cobrança da militância frente à nossa incapacidade de interferir nos rumos de nossos governos."

Uma das propostas apresentadas é a de gestão compartilhada nas finanças do partido, alvo de denúncias de corrupção. "O PT vai ter unidade na política de alianças e na política econômica. Todo mundo acha que é preciso uma calibragem na política econômica, mas não vai ter guerra. O que vai polarizar o Congresso do PT é a profundidade do processo de mudança no partido", disse o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), que também integra a corrente Mensagem ao Partido.  

Corrupção. Ao fazer uma autocrítica diante dos escândalos que atingiram o PT e o governo, o texto afirma que o partido não pode se "omitir" nesse debate e lembra que o Diretório Nacional decidiu excluir de suas fileiras os filiados comprovadamente envolvidos em corrupção. 

"A exemplo de outros partidos, criou-se uma crescente dependência do financiamento empresarial. Somos permanentemente atacados por nossos adversários e as suas armas mais eficazes contra nós são as contradições que se estabelecem nas práticas de alguns de nossos próprios integrantes. Estes comportamentos atingem a imagem do partido como um todo, decepcionando muitos que já usaram com orgulho a estrela no peito e que se sentem desrespeitados. Tais erros precisam ser corrigidos e duramente combatidos dentro do próprio PT. Precisamos retomar o caminho", diz o documento. Em abril, a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, prendeu o então tesoureiro do PT João Vaccari Neto, acusado de operar um esquema de desvio de recursos da Petrobrás.

Núcleo de juristas. A chapa que apoiou a eleição do presidente do PT, Rui Falcão, vai propor que o 5.º Congresso aprove uma resolução separada, com o título "Um partido que luta contra a corrupção". Nela, os petistas propõem a criação de "um núcleo de juristas progressistas (…), capaz de liderar uma reflexão sobre os caminhos da Justiça, sobre a criminalização da política, dos partidos, dos movimentos sociais."

Na lista de mudanças sugeridas pelo grupo de Tarso e Cardozo estão a convocação de um "congresso constituinte" para o PT, em novembro, com o objetivo de atualizar o programa do partido e eleger uma nova direção. Os signatários propõem o fim do Processo de Eleição Direta (PED) no PT, com voto dos filiados, para a escolha de seus dirigentes.

A extinção do PED, alvo de denúncias de compra de votos nas disputas internas, é uma polêmica que promete agitar os debates. A corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), de Lula, está dividida sobre o tema, mas a maior parte quer manter o PED e vai insistir em que a polêmica seja empurrada para deliberação do Diretório Nacional, assim como o fim das doações empresariais.

O grupo de Tarso e Cardozo defende, ainda, um "sistema compartilhado" das finanças do PT por parte dos diretórios do partido e cobra que as informações "permaneçam disponíveis" online. Nesta sexta-feira, o PT lançará no encontro de Salvador uma campanha nacional de arrecadação de recursos pela internet.

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