André Dusek/AE
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Grupo evangélico repudia declaração de Feliciano sobre africanos

Segundo o deputado, 'africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé'; Aliança Cristã Evangélica diz que 'afirmações desta natureza são fruto de leitura mal feita de parágrafos bíblicos'

Isadora Peron, de O Estado de S. Paulo,

09 Abril 2013 | 15h27

SÃO PAULO - Um grupo chamado de Aliança Cristã Evangélica, que reúne líderes religiosos de diferentes igrejas e movimentos evangélicos, publicou uma nota de repúdio contra a declaração do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP), que afirma que os “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé".

Segundo o grupo, "afirmações desta natureza são fruto de leitura mal feita de parágrafos bíblicos, tomados fora do seu contexto literário e teológico, que acabam por colaborar com os interesses de justificar pensamentos e práticas abusivas, contrárias ao espírito da Palavra de Deus".

Feliciano é acusado de racismo por ter feito esse comentário no Twitter, em 2011. Na ocasião, ele disse que os “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é polêmica". Em seguida, em outra mensagem, afirmou que “sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids. Fome…(sic)”. Ele nega que seja preconceituoso, mas recentemente voltou a fazer essas afirmações.

A nota explica que essas declarações do deputado se baseiam no Livro de Gênesis capítulo 9, versos 20 a 27: "Nessa passagem Noé, embriagado, despe-se e assim é surpreendido por seu filho Cam que, ao invés de manter a discrição e o respeito devidos ao pai, o anuncia aos seus irmãos; estes se recusam a ver o pai nesse estado e, sem olhar para ele, cobrem-no com uma manta. Desperto Noé, ao saber da postura de seu filho Cam, amaldiçoa seu neto Canaã, filho de Cam, destinando-lhe a servidão".

A entidade, no entanto, afirma que que a intepretação dessa passagem como uma maldição sobre os africanos é fruto de "má fé". "Toda vez, na história, que esse texto foi aventado a partir dessa hipótese vulgar, tratou-se de ato de má fé a serviço de interesses escusos, seja quando usado para justificar a escravidão de ameríndios no Brasil colonial, seja quando usado para justificar a escravidão dos africanos de tez negra, seja quando utilizado para a elaboração de sistemas legais de segregação social como o que ocorreu nos Estados Unidos, seja quando usado para justificar a política nefasta e mundialmente condenada do apartheid."

Desde que assumiu a presidência da comissão, em março, Feliciano vem sendo alvo de protestos para que deixe o cargo, inclusive de grupos evangélicos. Ele, no entanto, afirma estar sofrendo perseguição religiosa e se recusa a renunciar.

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