Grupo de notáveis envia carta a Lula para defender PNDH

De acordo com o texto encaminhado, a proposta da Comissão da Verdade não é revanchista

Roldão Arruda, de O Estado de S.Paulo,

13 de janeiro de 2010 | 18h48

Um grupo de defensores históricos dos direitos humanos, familiares de mortos pela ditadura e intelectuais encaminhou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma carta reservada, na qual expressa apoio ao Programa Nacional de Direitos Humanos e defende a criação de uma Comissão da Verdade. Entre as pessoas que assinaram a carta, à qual o Estado teve acesso, aparecem Clarice Herzog, viúva do jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura nas dependências do antigo 2.º Exército, em São Paulo, em 1975; e Tereza de Lourdes Martins Fiel, viúva do operário Manuel Fiel Filho, assassinado nas mesmas condições, três meses depois.

 

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A lista é encabeçada pelo cardeal Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, idealizador e principal responsável pelo projeto Brasil Nunca Mais - o primeiro grande levantamento sobre as violações de direitos humanos ocorridas nos porões da ditadura, na década de 80. D. Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Xingu, perseguido pelos militares por sua defesa radical da causa indígena, também assina o documento.

 

Aparecem ainda ao pé da carta os nomes de Chico Buarque de Holanda, compositor; Fernando Morais, jornalista e escritor; Candido Mendes, educador; Antonio Candido, crítico literário; Paulo Sérgio Pinheiro, cientista político e relator da ONU para assuntos de direitos humanos; Maria Victoria Benevides, cientista política; Abdias do Nascimento, escritor e ativista do movimento negro; e outros.

 

De acordo com o texto, a proposta da Comissão da Verdade não é revanchista. "Não pode ser chamada de revanchista uma proposta que se limita a jogar luz sobre as violências praticadas nos porões da repressão política", afirmam os signatários. "As próprias Forças Armadas despontarão como principais beneficiárias desse exame necessário, separando-se o joio do trigo. Toda uma comunidade de brasileiros que dedicam suas vidas à tarefa constitucional e republicana da defesa nacional, muitas vezes com sacrifícios pessoais e familiares, não pode ser identificada com o restrito número de seus agentes envolvidos com em crimes de lesa-humanidade."

 

 

O grupo também lembra a questão dos mortos e desaparecidos: "Cabe responder ao clamor dos familiares de mortos e desaparecidos políticos que, até hoje, não tiveram reconhecido o direito milenar e sagrado de sepultar seus entes queridos."

 

Ao final afirma-se que, ao contrário do que afirmam os críticos da comissão, ela não dividirá os brasileiros: "É um passo indispensável na desejável reconciliação entre brasileiros e brasileiras que estiveram separados, fraturados e polarizados durante o período ditatorial. Sem esse passo, por muitos anos ou décadas o espectro daquela violência seguirá lançando tentações totalitárias e semeando a impunidade em nosso presente em nosso futuro."

 

Leia abaixo a íntegra da carta.

 

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