Grupo de encapuzados mata nove pessoas em disputa de terra em MT

A suspeita é que os autores da chacina sejam capangas de fazendeiros da região; crime aconteceu a mais de mil quilômetros de Cuiabá

Fátima Lessa, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2017 | 18h02

CUIABÁ - Nove sem-terra foram assassinados em Colniza, a 1.018 km de Cuiabá, em uma disputa por terras, segundo a Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso. A chacina ocorreu no Distrito Taquaraçu do Norte e a suspeita é de que os autores sejam capangas de fazendeiros da região. 

O número de vítimas da chacina desta quinta-feira, 20, no entanto, pode ser maior. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) afirma que ao menos dez pessoas foram assassinadas. Entre as vítimas há crianças e idosos, segundo a entidade da Igreja Católica. Cerca de cem famílias moram em um assentamento na área.

De acordo com a Polícia Civil, as mortes ocorreram quando um grupo de homens encapuzados invadiu a área e começou a atirar. Inicialmente, eles dispararam do lado de fora do assentamento. Em seguida, teriam ido às barracas e atirado em quem encontrassem pela frente. As informações foram repassadas à polícia por dois homens que conseguiram fugir do local.

O governo mato-grossense informou que montou uma força-tarefa especial para investigar o caso. Três peritos foram enviados nesta sexta-feira, 21, para o local. Policiais militares e civis já estão na região desde quinta-feira.

O local da chacina é de difícil acesso, o que pode explicar o desencontro de informações. As estradas estão alagadas e em alguns pontos só é possível atravessar de barco. Além disso, a região não tem sinal de telefonia celular. 

A CPT afirmou, em nota, que a região já registra conflitos agrários. “Outros assassinatos e agressões já ocorreram no local. Investigações da Polícia Civil, feitas há dois anos, apontaram que os gerentes das fazendas na região comandavam uma rede de capangas altamente armados que usavam do terror para que a área fosse desocupada pelos pequenos produtores”, disse a entidade.

Conflitos antigos. Em 2014, Josias Paulino de Castro, presidente da Associação de Produtores Rurais Nova União, e sua mulher, Ireni da Silva Castro, também foram assassinados na região. Os corpos foram encontrados com marcas de tiro de 9 mm, arma de uso restrito. O casal pretendia apresentar denúncias à Ouvidoria Agrária Nacional e foram vítimas de uma emboscada. Em 2011, 700 famílias foram expulsas da mesma área. 

Dados divulgados pela CPT nesta semana apontam que atualmente 6.601 famílias moram em áreas de conflitos no Mato Grosso – o maior número em todo o Centro-Oeste e o sexto maior no País. 

A Federação dos Trabalhadores da Agricultura, por meio de nota, lamentou “o agravamento do clima de tensão na região” e cobrou providências das autoridades de segurança. Procurado pela reportagem, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não comentou o caso até a conclusão desta edição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.