Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Desafetos buscam enfraquecer Cunha

Denúncia será usada para tentar afastar peemedebista do comando da Câmara; oposição espera novas ações dele contra a presidente

Daniel Carvalho, Pedro Venceslau e Daiene Cardoso, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2015 | 18h09

Atualizado às 23h12

Brasília - Diante da expectativa de apresentação de denúncia da Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), os adversários do deputado preparam uma estratégia para enfraquecê-lo e afastá-lo do comando da Casa. As demonstrações de apoio foram discretas, mas a oposição quer aproveitar a intensificação da ira de Cunha contra o governo para agilizar o andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Cunha soube por volta das 13 horas que a denúncia contra ele estava em vias de ser apresentada. O peemedebista havia acabado de chegar ao restaurante VIP da Câmara para um almoço com parlamentares da América Latina. A informação veio de sua assessoria por mensagem de celular. Ele parou de caminhar, leu rapidamente a notícia, cochichou com uma assessora e seguiu em silêncio para a mesa. Aparentava serenidade, mas se manifestava só quando a senadora mexicana Blanca Alcalá puxava assunto. Deixou o local dizendo que apenas se manifestaria sobre “fato”, e não sobre “especulação”.

A notícia entusiasmou desafetos de Cunha nas bancadas do PT, PSB, PSOL, PSC e PPS, que se reuniram para tratar do assunto. Decidiram que, tão logo fosse apresentada a denúncia, vão redigir um manifesto pedindo seu afastamento da presidência da Casa. Caso o STF acate a denúncia, o PSOL ingressará com uma representação no Conselho de Ética da Câmara pedindo a cassação por quebra de decoro.

“Ele está fragilizado. A denúncia fragiliza a lógica de Cunha de se defender atacando o governo. Essa tática cansou”, afirmou o deputado Ivan Valente (PSOL-SP). “A manutenção do Cunha na presidência da Câmara pode ser ruim para a Casa”, disse a deputada Maria do Rosário (PT-RS).

Os deputados devem se revezar em discursos para constranger Cunha e pressionarão a cúpula da CPI da Petrobrás a convocar tanto o peemedebista quanto o lobista Julio Camargo, que o acusou de cobrar propina de US$ 5 milhões. O presidente da Câmara disse que qualquer partido tem o “direito democrático” de pedir sua saída, mas que não pretende se afastar.

Apoio. A alguns metros da reunião dos adversários, Cunha conversou com cerca de dez aliados na presidência da Câmara. Aferiu o apoio que tinha entre lideranças de PSDB, DEM, SD, PSC e PSB – as bancadas dos dois últimos estão divididas. Participantes desse encontro descreveram Cunha como “tenso” e “indignado”. Disseram que ele reafirmou inocência, já esperava a denúncia e repetiu se sentir vítima de perseguição do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Aliados de Cunha passaram o dia dizendo que, por ora, o apoio ao presidente da Câmara se mantém. A oposição quer aproveitar a reação do peemedebista à denúncia para fustigar o governo e fazer vingar um eventual processo de impeachment de Dilma. “Se ele tiver mais esta motivação, quem sabe não vai fazer o que já deveria ter feito?”, questionou o vice-líder do PSDB, Nilson Leitão (PSDB-MT).

Entre os tucanos, a avaliação é que a denúncia consolida definitivamente o presidente da Câmara no campo da oposição. Apesar do otimismo, o PSDB manterá uma “distância regulamentar” de Cunha. A sigla não deve se manifestar oficialmente, mas seus líderes se colocarão contra o afastamento dele. “Sem sentença não cabe o afastamento”, diz o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), líder da minoria na Câmara.

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