Grupo ''comprou'' vaga de secretário, diz polícia

Agentes não revelam o município, mas dizem que esquema, após ter feito doação de R$ 200 mil, controlaria pasta da Saúde com novo prefeito

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

31 de outubro de 2008 | 00h00

A polícia diz ter flagrado a máfia dos parasitas negociando o cargo de secretário de Saúde de uma cidade do interior. O nome do município não foi revelado, mas a "compra do cargo" - a ser ocupado a partir de 2009, com a posse do prefeito eleito - teria sido feita em troca de uma contribuição de R$ 200 mil para a campanha do candidato nas últimas eleições municipais.A organização criminosa, segundo o Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap) e promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), mantinha um controle da política nos 29 municípios com os quais fazia negócios. Em interceptações telefônicas, os policiais constataram que 22 candidatos que o grupo considerava simpáticos a seus interesses venceram as últimas eleições.Relatório da inteligência policial mostra que os investigadores flagraram o que chamam de "disponibilidade da Home Care em oferecer favores e gentilezas para os representantes do Executivo e do Legislativo". A Home Care é uma das empresas acusadas de participar do esquema e apontada como o centro da célula que atuava nas prefeituras do interior."Essas acusações não procedem. A Home Care é uma empresa séria, que atende 3 milhões de munícipes e está estabelecida há 20 anos no mercado. Ela tem todas as certificações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e teve seus contratos aprovados pelo Tribunal de Contas", afirmou o advogado Cesar Guimarães.Segundo o relatório, no entanto, as escutas mostram candidatos a prefeito "solicitando apoio financeiro para as campanhas" e até mesmo o uso de helicóptero para os deslocamentos de políticos, tanto a trabalho quanto a lazer. "Não há um partido específico. Há empresas que procuram administrações municipais sem escolher coloração partidária", disse o promotor José Reinaldo Guimarães.PARTIDOSOs investigadores não têm dúvidas: o esquema era suprapartidário. O Estado teve acesso aos nomes de 15 das 29 prefeituras em que a organização atuaria, de acordo com os policiais do Decap e promotores do Gaeco. O cenário das fraudes mostra que o partido com maior número de prefeituras no País, o PMDB, é o que tem o maior número de administrações com contratos sob suspeita: quatro. Logo em seguida estão PSDB, PV e PDT, com duas prefeituras cada um. Depois aparecem PT, PV, PP, DEM, PTB e PSB, cada um com uma administração.No site da Home Care estão listados contratos da empresa com nove prefeituras: São Bernardo do Campo (SP), São Caetano do Sul (SP), Taubaté (SP), Cotia (SP), Uberlândia (MG), Itu (SP), Araguari (MG), Caçapava (SP) e Indaiatuba (SP). As prefeituras e as empresas citadas, ouvidas pelo Estado, negaram as acusações.Além da Home Care, havia ainda contratos com as empresas Biodinâmica e Vida?s Med. Isso é o que mostra um diálogo mantido por Carlos Roberto Amaral, o Papito, gerente da Vida?s Med, preso ontem. Nele, Papito fala com um homem que diz ter conversado com o secretário de Finanças de Mauá: "Ele (o secretário)esteve com prefeito (Leonel Damo, PV), pegou um monte de cheques." Papito diz então que estava vendo a "conta de Mauá". "Meu, quatro milha bateu agora."?MELZINHO?Em outra ligação, um dos sócios da Home Care, Marcos Agostinho Paioli Cardoso, diz que deve fechar com Jacareí (administrada pelo PT) e que está vendo um outro edital em Marília (administrada pelo PDT). "Marília é melzinho na chupeta", diz o sócio de uma empresa a Paioli. "Ia dar um milhãozinho e cem, mas eu mandei aumentar para um e trezentos", revela o empresário.

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