Grito dos Excluídos pede Vale reestatizada

Evento reuniu 3.500 pessoas em SP; protestos ocorreram em várias cidades

José Maria Mayrink, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2008 | 00h00

Cerca de 3.500 pessoas participaram ontem em São Paulo do Grito dos Excluídos, convocado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em sua 13ª edição, a manifestação promoveu um plebiscito contra a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, estatal vendida no governo de Fernando Henrique Cardoso. Houve protestos em várias cidades do País."É um plebiscito simbólico, para dizer que ?não vale? entregar o patrimônio nacional, porque seria muito difícil reestatizar a empresa", disse d. Pedro Luiz Stringhini, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, após celebrar na Catedral da Sé, às 7 horas, missa do Dia da Pátria pelo Grito dos Excluídos. Cerca de 700 fiéis assistiram à celebração. Uma imensa faixa verde e amarela, levada até ao altar por 25 pessoas em procissão, enumerou as principais reivindicações do povo no 7 de Setembro: trabalho, terra, moradia, paz, justiça, saúde, cidadania, ética, educação e soberania. Depois da missa, manifestantes seguiram para o Monumento do Ipiranga cantando Para Não Dizer Que Não Falei De Flores, de Geraldo Vandré, seguida por músicas dos movimentos populares e pelo Hino Nacional.Participaram militantes do Movimento dos Sem-Terra (MST), PSOL, PSTU, PCB e Partido Humanista. Depois de quatro quilômetros e duas horas e meia de caminhada, os manifestantes chegaram ao Parque do Ipiranga. Às 13 horas, coordenadores do MST, do movimento negro Educafro, da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas) e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) discursaram no palanque em defesa da reestatização da Vale e de mais três itens acrescentados à folha do plebiscito - reforma da Previdência, pagamento dos juros das dívidas externa e interna e exploração da energia elétrica pelo capital privado. Os oradores cobraram uma posição mais clara do governo a favor das lutas populares e acusaram o presidente Lula de se colocar a serviço das elites e do capital estrangeiro. "Nem papas, nem juízes, as mulheres decidem", dizia um cartaz da Marcha Mundial das Mulheres, exigindo a liberação do aborto. "Não é a posição da Igreja, mas não há como evitar esse tipo de manifestação", disse a freira Beatriz Maestri, representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Em Aparecida, os cerca de mil manifestantes foram proibidos de realizar o plebiscito sobre a Vale no pátio do Santuário Nacional. "Por orientação do santuário não fizemos aqui. Eles disseram que não é um lugar de política e sim de religiosidade. Mas não entendemos assim. Para nós a fé está junto com a vida", informou o coordenador do Grito, Ari Alberti. Ao contrário de outros cartazes, o do plebiscito - com a frase "Isto não Vale! Queremos participação no futuro da Nação" - não entrou na missa. "Nós não fazemos opção política ou partidária dentro do santuário. A iniciativa foi minha, porque não houve nenhuma orientação oficial dentro da CNBB. A liberdade de cada romeiro tem que ser respeitada, para que cada um tome sua livre decisão", justificou o arcebispo de Aparecida, d. Raymundo Damasceno Assis.Em Belo Horizonte, cerca de 2 mil pessoas protestaram. Líderes do movimento criticaram a posição do presidente Lula contra o plebiscito. "É triste, porque é uma posição sob encomenda, para agradar à ideologia do mercado. Lula tem que parar de trair os pobres", disse o representante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Minas, Frei Gilvander.PROVOCAÇÃOCerca de mil pessoas se reuniram no Largo Glênio Peres, em Porto Alegre, para protestar. O ato foi encerrado com uma cerimônia de partilha do pão.Ao contrário dos anos anteriores, o Grito dos Excluídos foi realizado na periferia de Curitiba. O ato, do qual participaram cerca de 700 pessoas, segundo os manifestantes, foi promovido na reserva indígena Cambuí, na divisa com São José dos Pinhais. "Não pode haver independência enquanto houver tantos marginalizados", justificou Waldemar Simão Júnior, da Coordenação dos Movimentos Sociais. No Recife, manifestantes do Grito dos Excluídos provocaram policiais militares. Quando os PMs retornavam da parada do 7 de Setembro, ainda em colunas, marchando, cruzaram a Avenida Conde da Boa Vista no mesmo momento em que a caminhada iria passar no local. Manifestantes furaram o bloqueio, aos gritos de "a rua é nossa". Muitos fizeram gozação, cantando "Marcha soldado, cabeça de papel...". A PM agiu de forma tranqüila e contornou a situação, dando a vez aos excluídos.

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