Gravação revela pressão da cúpula do ministério

‘Estado’ teve acesso ao áudio da reunião em que a diretora de Mobilidade Urbana relata a assessores episódio da troca de notas técnicas de Cuiabá

Leandro Colon, de O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2011 | 23h59

BRASÍLIA - Na reunião a portas fechadas ocorrida na segunda-feira, 21, no Ministério das Cidades, a diretora de Mobilidade Urbana da pasta, Luiza Gomide Vianna, mandou um recado, em tom de ameaça, aos assessores: "Nota técnica de ninguém aqui é como música, não tem direito autoral. Nosso trabalho é para o governo, a nota técnica de vocês é para o governo".

 

O Estado teve acesso ao áudio da reunião, que durou mais de duas horas. O encontro tratou da manobra que derrubou uma nota técnica contrária à mudança do projeto de transporte público de Cuiabá, orçado em R$ 1,2 bilhão, valor R$ 700 milhões maior que a proposta original.

 

Apesar de o ministério avaliar que tecnicamente não havia como aprovar essa mudança de maneira imediata, o Palácio do Planalto aceitou o pedido do governador de Mato Grosso, Silval Barbosa (PMDB). "Qualquer decisão tomada no governo, a gente faz parte dessa decisão", afirmou Luiza Vianna, na reunião.

 

Na conversa com os assessores, ela afirmou que "ficou sem saída" depois que o chefe de gabinete do ministro Mário Negromonte, Cássio Ramos Peixoto, pediu para ela "rever" a nota técnica contrária à mudança imediata do projeto. "A gente ficou numa situação sem saída", disse.

 

Segundo a diretora, Cássio Peixoto e uma pessoa de nome Guilherme consideraram uma "análise dura" o parecer do analista de infraestrutura Higor Guerra, servidor de carreira, contrário à troca imediata do modelo BRT pelo VLT em Cuiabá.

 

De acordo com assessores ouvidos pela reportagem, trata-se de Guilherme Ramalho, coordenador-geral de Infraestrutura da Copa de 2014 do Ministério do Planejamento.

 

Luiza Vianna relatou aos assessores o episódio, que teria ocorrido em agosto: "Considerando que aquela semana, acho que o governador veio aí falar com o ministro, não sei exatamente o que aconteceu, mas foi exatamente a semana que aprovaram o VLT de Cuiabá, todo mundo se interessou pelo assunto, o ministro deve ter pedido algum material relacionado a Cuiabá, eu não me lembro. Esse material foi parar nas mãos do dr. Cássio e o material, do Higor né, também foi parar nas mãos do Guilherme."

 

E continuou: "Recebi ligações tanto do Guilherme quanto quase que, simultaneamente, no mesmo dia, do dr. Cássio, eles entendendo que a nota do Higor continha palavras um pouco, continha uma análise dura, não só somente dura, como algumas questões que ele, mesmo como técnico, não tem a menor condição de decidir, que não era uma boa ideia fazer o parecer do Mato Grosso baseado na análise do Higor". "Ambos me telefonaram: ‘Luiza, você dê uma apurada numa nota técnica assinada pelo Higor, que ela contém palavras fortes, palavras que a gente precisa rever em relação ao processo’."

 

Luiza confirmou que pediu para o assessor Higor Guerra rever seu parecer. Como ele resistiu, a saída, segundo ela, foi partir para uma nova nota técnica, mas com o mesmo número da anterior. "Considerando a posição do Higor, não vou discutir a posição dele, de não querer mudar a nota técnica que ele tinha feito, nós fizemos outra nota técnica, com o mesmo número sim, e mudamos o conteúdo", afirmou.

 

 

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