Gravação contra Yeda vaza na web

Diálogo entre empresário e membro do governo gaúcho indicaria conhecimento da governadora sobre esquema

Elder Ogliari e Sandra Hahn, O Estadao de S.Paulo

11 de agosto de 2009 | 00h00

As mais de 1,2 mil páginas da peça inicial que compõem a ação de improbidade administrativa que o Ministério Público Federal moveu contra a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), e mais oito pessoas vazaram ontem na internet, embora contenham provas protegidas por sigilo telefônico, bancário e fiscal. O documento, distribuído em cinco arquivos digitais, foi publicado inicialmente no site do jornalista Políbio Braga e posteriormente pelo jornal Zero Hora. Na semana passada, quando divulgou que moveria a ação, o Ministério Público não detalhou quais seriam as irregularidades atribuídas a cada um dos réus argumentando o sigilo do processo, que pediu para ser suspenso. A juíza acolheu parcialmente a solicitação, determinando o levantamento do sigilo dos autos, exceto sobre informações bancárias, financeiras e fiscais. Além de Yeda, são demandados na ação o marido da governadora, Carlos Crusius, a assessora especial Walna Vilarins Meneses, o ex-secretário geral de governo Delson Martini, o tesoureiro da campanha do PSDB em 2006 Rubens Bordini, o presidente do Tribunal de Contas do Estado João Luiz Vargas, o deputado federal José Otávio Germano (PP) e os deputados estaduais Frederico Antunes (PP) e Luiz Fernando Zachia (PMDB). Boa parte da peça acusatória está baseada em depoimento e transcrições de conversas telefônicas e gravações feitas pelo empresário Lair Ferst - réu do processo decorrente da fraude que desviou R$ 44 milhões do Detran entre 2003 e 2007. Várias delas são conversas com seu amigo Marcelo Cavalcante, ex-representante do Rio Grande do Sul em Brasília. A defesa de Yeda entende que os diálogos não têm valor porque são de dois amigos referindo-se a supostas irregularidades de terceiros, sem jamais conter as vozes dos acusados. Sustenta, ainda, não estar claro em que circunstâncias e com que intenção foram gravados. Numa das gravações, Ferst diz a Cavalcante que ouviu Flávio Vaz Neto, ex-presidente do Detran e também réu na mesma ação, afirmar a existência de um suposto acordo para a distribuição de valores, pelo qual caberiam R$ 170 mil à governadora. "Vou te dizer para ti o seguinte, o que que eu sei. O Flávio lá no Detran mandou me chamar lá, e inclusive eu notei que o Flávio tava muito chateado, muito nervoso, muito contrariado", diz Ferst, até ser interrompido por Cavalcante, que pergunta: "Lá no Detran?". Ferst responde que sim. "Lá no Detran, lá no gabinete dele, e disse o seguinte que... que fizeram um acordo aí, um acórdão aí, para distribuir aí, valores dentre eles, aí... e, tinha ficado acertado que a parte da governadora seria 170 mil reais. Bom, aí diz que entregou os 170 mil reais no primeiro mês. No segundo mês já veio o Delson, porque no primeiro mês foi o Bordini que recebeu os 170 mil no gabinete do João Luiz Vargas, lá no Tribunal de Contas". No documento que vazou os procuradores afirmam que o "elo de ligação de Maciel com Yeda Crusius era a pessoa de Delson Martini, na época ocupante do cargo de presidente da CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica), cuja direção era compartilhada com Antonio Dorneu Maciel, que ocupava o cargo de diretor administrativo. Neste contexto, vislumbra-se que Delson Martini era recebedor da propina paga pelo esquema criminoso à governadora do Estado, pois é notória a sua relação de íntima amizade com Yeda Crusius". Em outro diálogo de Ferst e Cavalcante, o empresário diz "ou tá refém ou ela tá gostando de estar recebendo essa grana aí que tá entrando".

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