Gravação abre crise no PT gaúcho

A divulgação do CD com a gravação de uma conversa entre o ex-chefe de Polícia do governo Olívio Dutra com um dos coordenadores da campanha do PT em 1998, Diógenes Oliveira, abriu uma crise no partido no Rio Grande do Sul. Alguns setores da oposição, por sua vez, já falam em pedir o impeachment do governador gaúcho por causa do teor da conversa gravada. Nela, Diógenes sugere - dizendo falar em nome de Olívio - que o delegado Luiz Fernando Tubino não reprima os bicheiros gaúchos que teriam uma relação "muita boa e estreita" com os líderes petistas. "Nós achamos que não tem que reprimir esta gente! É contravenção! Se for na letra fria, põe estes caras na cadeia", diz Diógenes para o ex-chefe de Polícia, o que o próprio Tubino confirmou.Durante meses, desde a instalação da CPI da Segurança Pública, sempre comentou-se que Tubino teria uma fita com a gravação de uma conversa comprometedora com Diógenes, que preside o Clube de Seguros da Cidadania, uma entidade de fachada constituída para arrecadar fundos para as campanhas do PT, mas só agora uma prova mais concreta apareceu. O CD foi entregue por um ex-deputado federal do PDT, o delegado Wilson Müller, que diz ter recebido a gravação de uma autoridade da segurança pública. Os líderes petistas acreditam que tenha sido o próprio Tubino quem fez a gravação, embora ele negue, e a tenha entregue agora para escapar das investigações da CPI, já que outros delegados o acusaram de ter comentado uma vez que o dinheiro do jogo do bicho seria canalizado para as obras sociais do governo.O ex-chefe de Polícia sempre negou esses comentários, mas teve seus sigilos quebrados pela CPI e na sexta-feira ocorreria a acareação entre ele e os delegados que o acusam. O aparecimento do CD, entretanto, mudou todo o rumo dos depoimentos e das investigações. A gravação contém gravíssimas revelações sobre as ligações do PT com a contravenção e envolve diretamente o governador, pois Diógenes garantia que estava repassando rientações de Olívio, de quem era íntimo e foi secretário municipal dos Transportes na primeira gestão do PT em Porto Alegre. "Eu falei com o Olívio e disse que ia falar contigo. Perguntei pro Olívio: tu não acha que seria melhor tu telefonar pro Tubino e dizer que eu vou falar com ele ou posso falar direto? Não fala direto. Isto foi... eu almocei com ele Domingo (em janeiro de 1999, logo depois da posse), depois segunda-feira de manhã ele me ligou. Porque eu tô articulando uma maneira de sair dessa enrascada e preciso de um retorno. Ah, não! Isto é uma coisa muito séria."De acordo com as palavras de Diógenes, o governo petista pretendia distinguir o tratamento dado ao crime organizado e ao jogo do bicho, só reprimindo a contravenção quando essa realmente tivesse ligação com a criminalidade. "Eu queria Ter a tua opinião porque nós achamos (inaudível) na campanha do Olívio que tu separando o que é crime organizado e a questão do JB, o que é que tu achas, dá a tua visão disso", pedia o presidente do Clube de Seguros da Cidadania.A gravação caiu como uma bomba sobre o círculo petista. O presidente estadual da sigla, Júlio Quadros, se disse "surpreso e estupefato". Ele garantiu, entretanto, que as insinuações de Diógenes não correspondem com a realidade e que ele deverá esclarecer suas declarações assim que voltar da Europa. O governador também voltou a negar neste sábado, em entrevista para a Rádio Gaúcha, que tenha autorizado Diógenes a falar sobre qualquer assunto dessa natureza com o ex-chefe de Polícia e afirmou ter certeza de que o presidente do Clube da Cidadania "colocará as coisas no devido lugar" quando fou ouvido pela CPI, no próximo dia 5.Alguns petistas, entretanto, vão mais longe e chegam a sugerir que Diógenes seja expulso do partido como o ex-tesoureiro Jairo Carneiro dos Santos, que desviou dos cofres do partido R$ 39 mil. "Se a gravação não for uma montagem, Diógenes terá que esclarecer aos deputados da CPI essa conversa", disse o líder do governo, Ivar Pavan. "O partido tem que ser exemplar na apuração", afirmou o vice-prefeito de Santa Maria, Paulo Pimenta, sugerindo uma sindicância interna sobre o caso.

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