Grampo flagra cobrança de prefeito de Campinas à mulher

Sem ser investigado, prefeito acabou indiretamente interceptado ao pedir explicações sobre contratos da Sanasa a Rosely, alvo da escuta autorizada

Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2011 | 23h00

O Ministério Público Estadual (MPE) interceptou conversas telefônicas da primeira-dama de Campinas, Rosely Nassim Jorge dos Santos, com o prefeito Hélio de Oliveira Santos, o Dr. Hélio (PDT), e dos então secretários de Segurança, Carlos Henrique Pinto, e Comunicação, Francisco de Lagos Viana Chagas. Os diálogos com os dois últimos mostrariam manobras do grupo para prejudicar as investigações sobre pagamentos de propinas e fraudes em contratos da prefeitura. Já Dr. Hélio foi flagrado cobrando explicações da mulher sobre um dos contratos da Sanasa, a empresa de saneamento da cidade.

 

Dr. Hélio não é alvo da investigação nem estava sendo monitorado, mas acabou caindo no grampo indiretamente - sua mulher, Rosely, é que era alvo da interceptação, feita com autorização judicial. Em 18 de abril os investigadores surpreenderam o prefeito ligando para Rosely, às 12h46. Dr. Hélio perguntou se a empresa Solução Transportes e Logística Ltda. tinha algum contrato com a Sanasa.

 

A preocupação do prefeito tinha motivo. É que os promotores haviam descoberto que Rosely era sócia da empresa, que não foi por ela relacionada em sua declaração de bens publicada pelo Diário Oficial do Município.

 

Certeza. Além de primeira-dama, Rosely é a chefe de gabinete do marido. A Dr. Hélio, Rosely disse: "Jamais, nunca". O prefeito a questionava novamente: "Você tem certeza absoluta?". E ela diz: "Sim". Para os promotores, a primeira-dama liderava uma quadrilha instalada dentro da prefeitura que tinha tentáculos na Sanasa e em outras áreas da administração, como a concessão de licenças para empreendimentos imobiliários e de alvarás para o comércio em Campinas.

 

A Solução Transporte e Logística foi alvo de busca e apreensão feita pelos promotores e de uma auditoria da Receita Estadual. Um dia depois de conversar com o marido, Rosely teve outra conversa interceptada. Dessa vez com o secretário de Comunicação. "Durante toda a ligação, Rosely é quem dá todas as ordens e diretrizes relacionadas aos fatos investigados." Lagos e Rosely conversam sobre a volta dela a Campinas - estava em viagem com o marido à China, onde o casal se integrou à comitiva da presidente Dilma Rousseff. Só depois de acertar os detalhes do retorno ao País é que o prefeito apanha o telefone para conversar com Lagos, "confirmando o horário em que chegarão em casa".

 

Em 18 de abril, os promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) surpreenderam o secretário de Segurança da cidade recebendo informações sobre a investigação dos promotores. Um homem identificado como Max pede ao secretário que ele tome cuidado, pois "tem delação premiada lá". O secretário respondeu que não estava preocupado. "O boato é bem sério", afirmou Max. "Tem fitinha bonita no meio da história."

 

O diálogo mostraria o vazamento de informações da apuração do Gaeco. Para os promotores, as conversas indicam que os acusados tentavam "obter informações privilegiadas sobre o caso". "A partir de determinada data passaram a mencionar, expressamente, que tinham ciência de que as comunicações telefônicas estavam sendo monitoradas." Em suas tentativas, o secretário de Segurança da cidade teria procurado um delegado de polícia para ajudá-lo.

 

Em outra conversa, no dia 12 de abril, às 20h59, Lagos diz a Chagas (Segurança) que os seus telefones estão grampeados. "Todos os telefones estão grampeados", contou Lagos.

 

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