Marcello Casal Jr / Agência Brasil
Marcello Casal Jr / Agência Brasil

Bolsonaro dá cargo de líder na Câmara para o Centrão

Presidente troca liderança do governo e escolhe para o posto Ricardo Barros, do Progressistas; apesar da investiga por base, Planalto acumula derrotas no Congresso

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2020 | 16h17
Atualizado 12 de agosto de 2020 | 22h26

BRASÍLIA – Em um gesto que consolida a aliança com o Centrão, o presidente Jair Bolsonaro decidiu trocar o líder do governo na Câmara e escolheu para o cargo o deputado Ricardo Barros (Progressistas-PR), ex-ministro da Saúde de Michel Temer e que ocupou o mesmo posto no governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele vai substituir o deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), que deixa a função após não conseguir evitar uma série de derrotas do Palácio do Planalto no Congresso.

A mais recente foi a derrubada nesta quarta-feira, 12, de quatro vetos feitos por Bolsonaro a projetos aprovados pelos parlamentares, como o que ampliou a isenção de impostos para a indústria cinematográfica e outro que abriu crédito a produtores rurais. A sessão ainda não havia sido encerrada até a publicação deste texto.

O cargo de líder do governo na Câmara é importante por ser a ponte entre o Palácio do Planalto e os parlamentares. É o líder, por exemplo, quem orienta a base aliada durante as votações, dizendo se o governo apoia ou rejeita os projetos em discussão.

A indicação de Barros para o posto na Câmara foi patrocinada pelo líder do Progressistas, Arthur Lira (AL), que, informalmente, já atuava nos bastidores na defesa dos interesses do governo na Casa. O ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, crítico da atuação de Vitor Hugo (PSL-GO), foi um entusiasta da mudança e trabalhou para convencer Bolsonaro que a substituição era necessária. 

Inicialmente, o presidente tentou resistir em tirar Vitor Hugo, mas acabou convencido a reorganizar a articulação no Congresso após a derrota, em julho, na votação da proposta de emenda à Constituição que transformou o Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) em programa permanente. A aprovação causou mal estar no Palácio do Planalto e foi considerada a “pá de cal” para selar a mudança.

Ainda em maio, Barros, eleito deputado federal pela primeira vez em 1995, foi apresentado a Bolsonaro como um “profissional da liderança” e como uma solução para mitigar os problemas de relacionamento com os parlamentares na Câmara. 

Eleito com um discurso crítico à “velha política” e à troca de apoio por espaço no governo, Bolsonaro mudou de estratégia nos últimos meses e passou a distribuir cargos para indicados de partidos, ressuscitando o “toma lá, dá cá”. O Progressistas de Ricardo Barros já ocupou postos no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que concentram orçamentos bilionários.

Apesar da entrega de cargos para os partidos do Centrão – formado ainda por PL, Republicanos, PSD, PTB e Solidariedade –, o governo continua enfrentando dificuldade de garantir votos e para aprovar seus projetos de interesse no Congresso. 

Para Vitor Hugo, a substituição representa o novo momento do governo. “O presidente fez uma nova avaliação de cenário em função dos novos desafios que vão ser colocados agora, como as reformas que terão que ser aprovadas, e ele decidiu fazer a mudança”, disse o deputado ao Estadão

O deputado diz que entregará a liderança para Barros em uma situação muito mais tranquila do que encontrou no início do governo, quando a resistência era maior a Bolsonaro, que foi eleito por dois partidos pequenos – PSL e PRTB – e com um discurso com duras críticas ao Congresso. 

“Naquela altura, muito diferente do que é hoje, havia um movimento de ruptura. Foi uma construção muito difícil, muito desafiadora para mim. Não apenas por ser um deputado de primeiro mandato, mas por ser um cenário em que os líderes de muitos partidos não queriam se aproximar do governo e também não havia por parte do governo interesse em criar uma base naquele momento”, disse o deputado.

Pelo Twitter, Barros agradeceu a indicação de seu nome para o posto. “Agradeço ao presidente Jair Bolsonaro pela confiança”, escreveu ele.

A troca só será oficializada na próxima terça-feira, mas ontem Barros já participou de uma reunião com Bolsonaro ao lado de ministros e dos presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), no Palácio da Alvorada.


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O deputado federal Major Vitor Hugo (PSL-GO) afirmou ao Estadão que vai deixar a liderança do governo Jair Bolsonaro na Câmara. Ele será substituído pelo ex-ministro da Saúde, deputado federal Ricardo Barros (Progressistas-PR), que integra o Centrão, grupo de partidos do qual o Palácio do Planalto se aproximou nos últimos meses. 

O líder afirmou que foi comunicado pelo presidente na semana passada. A troca será oficializada na próxima terça-feira, 18. Nesta quarta-feira, 12, Barros já participa de uma reunião com Bolsonaro, ministros e líderes no Palácio da Alvorada.

“Desde a semana passada, o presidente vinha sinalizando para mim que gostaria de fazer uma mudança na liderança. Ele fez uma nova avaliação de cenário em função dos novos desafios que vão ser colocados agora, como as reformas que terão que ser aprovadas, e ele decidiu  fazer a mudança”, disse Vitor Hugo.

O cargo de líder do governo na Câmara é importante por ser a ponte entre o Palácio do Planalto e os parlamentares. É o líder, por exemplo, quem orienta a base aliada durante as votações, dizendo se o governo apoia ou rejeita os projetos em discussão. 

Apesar de deixar o posto, Vitor Hugo afirmou que segue na base do governo. “Eu vou continuar sendo um apoiador do presidente na Câmara e vou estar à disposição do presidente para novos desafios se eles surgirem. Senti na conversa com o presidente que nossa relação se mantém intacta. ”, disse o deputado do PSL. Questionado se a troca na liderança é mais um estreitamento do governo com Centrão, o parlamentar evitou respondeu. “Essa pergunta tem que ser feita ao presidente.  Esse detalhamento do cenário ele não me passou.”

Deputado de primeiro mandato, Vitor Hugo era alvo de críticas constantes por parte de parlamentares e dos integrantes do governo, como o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, responsável pela articulação política do Palácio do Planalto.

Apesar da pressão para que trocasse o líder principalmente após se aproximar do Centrão, Bolsonaro resistiu em fazer a mudança e diversas vezes negou que cogitasse fazer a alteração, como ocorreu em transmissão ao vivo na internet no dia 24 de julho.  A aliados, o presidente dizia que só tiraria Vitor Hugo se o colocasse em outra posição de destaque. 

Bolsonaro chegou a cogitar a indicar o aliado ao Ministério da Educação.  Recentemente, outra hipótese considerada era entregar a ele um Ministério da Segurança Pública, cuja recriação vem sendo discutida.  O presidente, no entanto, diz que a nova pasta, que seria desmembrada da Justiça, só sairia do papel se aprovada a autonomia do Banco Central. “Não foi tratado nenhum ministério comigo. Eu imagino que o Ministério de Segurança Pública teria uma relação mais natural com meu currículo. Fui comandante do destacamento contra terrorismo do Exército, passei em primeiro lugar no concurso nacional na Câmara de Deputados na área de segurança púbica e defesa nacional, mas essa é uma decisão do presidente”, disse Vitor Hugo. 

O deputado diz que entregará a liderança para Barros em uma situação muito mais tranquila do que encontrou no início do governo, quando a resistência era maior a Bolsonaro, que foi eleito por dois partidos pequenos - PSL e PRTB - e com um discurso com duras críticas ao Congresso.  “Naquela altura, muito diferente do que é hoje, havia um movimento de ruptura. Foi uma construção muito difícil, muito desafiadora para mim. Não apenas por ser um deputado de primeiro mandato, mas por ser um cenário em que os líderes de muitos partidos não queriam se aproximar do governo e também não havia por parte do governo interesse em criar uma base naquele momento”, disse.

Pelo Twitter, Barros agradeceu a indicação de seu nome para o posto. “Agradeço ao presidente Jair Bolsonaro pela confiança do convite para assumir a liderança do governo na Câmara dos Deputados com a responsabilidade de continuar o bom trabalho do Líder Vitor Hugo, de quem certamente terei colaboração. Deus me ilumine nesta missão”, escreveu ele.

Aproximação com o Centrão

Sob pressão de aliados e após sofrer sucessivas derrotas políticas, Bolsonaro passou nos últimos meses a distribuir cargos aos partidos do Centrão, em troca de votos no Congresso, ressuscitando a velha prática do “toma lá, dá cá”. No casamento de papel passado, Progressistas já indicou nomes para cargos no Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) e no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Em entrevista ao Estadão/Broadcast na semana passada, o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira, afirmou apoiar a reeleição de Bolsonaro em 2022. “Hoje acredito que 90% do partido apoiaria a recondução”, disse ele.

A estratégia, no entanto, sofreu um revés no fim do mês passado após DEM e MDB anunciarem a saída do bloco. O motivo é justamente a aproximação dos líderes dos demais partidos com o Palácio do Planalto e o possível apoio de Bolsonaro a Arthur Lira (Progressistas-AL) na disputa pelo comando da Câmara. As duas siglas dissidentes devem apoiar um candidato indicado pelo atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A eleição está marcada para fevereiro.

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