Governo vai triplicar telecentros em 2010

Das 5.474 cidades que receberam kits para instalar pontos de acesso à internet, 2.500 não indicaram os monitores que devem ser capacitados

Julia Duailibi e José Maria Tomazela, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Com dificuldade de articulação e flertando com o desperdício na execução dos projetos de inclusão digital, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende triplicar a entrega de computadores com acesso gratuito à internet no ano que vem. A iniciativa dará gás aos telecentros comunitários, que já consomem cerca de R$ 22 milhões de reais por ano só para garantir a navegação na rede, apesar de computadores estarem empacotados ou trancados, à espera da capacitação de monitores e da colocação de antenas para acesso à internet.

O Ministério das Comunicações lança edital nesta semana para comprar computadores e móveis a fim de instalar mais 15 mil telecentros no País. As máquinas do programa, que já tem 6.520 pontos no País, começaram a ser entregues em 2008, mas o treinamento dos monitores começou apenas neste mês. Termina em novembro, incompleto. Das 5.474 cidades que receberam os "kits telecentros", 2.500 não indicaram monitores. Há também máquinas à espera de antena para a conexão sem fio - só em São Paulo, 100 cidades estão fora da rede.

Desde 2008, o ministério firma com prefeituras termos de doação para entrega dos kits - 11 computadores, impressora, projetor multimídia e móveis. Prefeituras dão o local e bancam os custos. O governo quer terminar 2010 com 21 mil telecentros. A nova compra deve custar cerca de R$ 315 milhões. Em média, haverá cerca de quatro telecentros por cidade.

Há na esfera federal 20 projetos de inclusão digital, articulados entre diferentes ministérios. "Primeiro veio o Acessa São Paulo (do governo estadual) com seis máquinas, depois as 12 do telecentro e agora temos uma proposta para receber mais 20 do governo federal, que vamos instalar nas escolas", disse Valter Canalli, responsável pela área de informática de Murutinga do Sul, interior de São Paulo. Brincando, ele afirmou que a cidade, com 4.111 habitantes, terá o maior número de computadores per capita.

Apesar das máquinas paradas em Itaí, também interior paulista, a prefeitura assinou outro convênio, para receber 43 computadores de outro programa federal, o Proinfo, destinado às escolas. Questionado se não seria melhor pôr em uso os equipamentos que estão na cidade, o assessor de gabinete da prefeitura Felipe Cândido disse que os governos federal e estadual insistem que as máquinas sejam aceitas. "Se a gente não pegar, outra prefeitura pega." Cada kit custa R$ 21.398,45. Com o acesso à rede, são mais R$ 3.648 anuais, em média, para cada telecentro.

"Hoje cada ministério tem seu programa. Muitas vezes não conversam um com o outro. A abordagem é assistencialista, focada na questão eleitoral", argumenta Rodrigo Baggio, diretor-executivo do Comitê para Democratização da Informática.

Baggio afirma que falta ao País uma política pública de inclusão digital sustentável, com uma coordenação maior entre as pastas, casando proposta pedagógica, metas, capacitação e sustentabilidade financeira.

Carol Santos e Maurício Serrano, do Observatório Nacional de Inclusão Digital, parceria entre governo federal e sociedade civil, acham que os programas atuais colocaram o tema na agenda dos formuladores de políticas públicas . "Independentemente de projetos políticos diferenciados, a demanda pelo acesso a internet, em geral, ainda supera todas as iniciativas de inclusão, portanto talvez esse não seja um problema de primeira ordem", disseram por email.

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