Governo vai mudar ação de agência, diz Biden

Vice de Obama relata a Dilma alteração na NSA em reaproximação após crise da espionagem

Ricardo Della Coletta e Tânia Monteiro , O Estado de S. Paulo

17 Junho 2014 | 21h33

Brasília - Num aceno para normalizar as relações após o escândalo de espionagem praticado pela Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês) americana, o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, se reuniu ontem com a presidente Dilma Rousseff e reiterou pessoalmente que o programa de monitoramento de seu país está sendo revisto e sofrendo “mudanças reais”.

Ele teve uma audiência privada com Dilma por cerca de uma hora e deixou o Palácio do Planalto afirmando que os dois países empreendem um “esforço comum” na garantia da segurança da internet e elogiando a liderança brasileira na governança da rede. “A internet não é uma ferramenta de repressão do Estado, ela pertence ao povo do mundo”, declarou Biden. 

No entanto, o vice-presidente americano não conseguiu uma declaração conjunta entre os dois países e o assunto da visita da presidente brasileira, cancelada no ano passado, nem sequer foi mencionado na conversa.

Biden visitou Brasília para debater um conflito delicado. Em meados do ano passado, documentos vazados pelo ex-analista da NSA Edward Snowden revelaram que os EUA interceptaram mensagens de cidadãos e empresas brasileiras, incluindo ministros e a própria presidente Dilma. A denúncia causou tamanho mal-estar que Dilma decidiu, então, cancelar uma visita de Estado a Washington que estava planejada para outubro de 2013.

A presidente brasileira foi além. O Brasil também reagiu às denúncias tentando adotar um papel de protagonista no debate internacional sobre a proteção de dados na web. A aprovação do Marco Civil da Internet - considerado a “Constituição da Internet” e garantidor de direitos dos usuários - ganhou apoio especial do Planalto após os vazamentos de Snowden e o governo brasileiro apresentou uma resolução na Organização das Nações Unidas (ONU) conclamando as nações a revisar procedimentos relacionados à vigilância das comunicações e informações pessoais. A resolução, com coautoria da Alemanha, foi aprovada pela Assembleia-Geral.

Revisão. No empenho de reaproximar os dois governos, ontem, Biden disse a Dilma que o presidente Barack Obama ordenou em janeiro uma revisão do programa de monitoramento - uma das iniciativas é a extensão, a cidadãos de países amigos, da mesma proteção de privacidade garantida a americanos. 

“Sei que é uma questão que importa muito para as pessoas daqui mas, francamente, também importa ao povo dos Estados Unidos”, declarou Biden. “Eu disse à presidente Rousseff que o presidente Obama ordenou uma revisão imediata depois que soubemos das revelações. Baseados nessa instrução nós fizemos mudanças reais no processo”, concluiu.

Apesar dos afagos públicos, Biden não conseguiu que, ao fim da reunião, houvesse uma declaração conjunta à imprensa de autoridades dos dois países, como sinal de que o episódio de 2013 estaria a caminho de ser superado. Biden fez, sozinho, um rápido relato do encontro na Embaixada dos EUA.

Erro. Diplomatas brasileiros consideraram um erro Dilma ter aceitado uma audiência privada com Biden, que não tem status equivalente de chefe de Estado. Para fontes do governo, o melhor teria sido uma reunião de Biden com o vice Michel Temer. Ou que Dilma o recebesse ao lado de ministros, para marcar um certo distanciamento.

Após a audiência, Joe Biden destacou parcerias entre os dois países e apostou num futuro otimista para as relações comerciais - que, no momento, segundo os EUA, estão na casa dos US$ 100 bilhões. “Não há razão para que esse valor não seja dobrado”, afirmou. Segundo o governo brasileiro, esse número está em US$ 60 bilhões.

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