Governo trabalha para dividir oposições

O Palácio do Planalto está trabalhando para dividir as oposições e, assim, facilitar a chegada do candidato do governo ao segundo turno da corrida presidencial de 2002. Diante da má performance dos pré-candidatos governistas nas pesquisas eleitorais, os articuladores políticos do Planalto avaliam que é melhor deixar o PMDB de fora da aliança. A despeito das inconveniências de fazer parceria com um partido sobre o qual pesam acusações de corrupção, a decisão de descartar o PMDB tem razões bem mais pragmáticas, sustentadas em números.A aposta é que o PMDB pode ser muito mais útil ao governo, neste momento, abrindo a legenda para a candidatura do governador de Minas, Itamar Franco. Na contabilidade dos aliados, o candidato do governo terá de obter de 28% a 30% dos votos para chegar ao segundo turno no caso de haver apenas dois nomes fortes da oposição na disputa. Com três concorrentes dividindo os votos oposicionistas, porém, o candidato do governo pode precisar de apenas 20% da preferência do eleitorado.Isso explica as recentes declarações do ministro da Saúde, José Serra, um dos presidenciáveis do PSDB, afirmando que a participação do PMDB na aliança de 2002 é dispensável. "Tudo o que eles querem é fragmentar a oposição", diz o deputado petista Aloizio Mercadante (SP). A ala governista do PMDB decidiu disputar o comando do partido com os sublevados do grupo de Itamar, batendo chapa na convenção nacional de setembro. Mas a tese do lançamento da candidatura própria deverá ser aprovada por todos.Ainda, assim, o líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA) contesta o "raciocínio matémático" dos articuladores do Planalto, ao salientar que a questão política ainda será posta e tudo vai depender da capacidade do governo de se reestruturar e recuperar prestígio. "Aí, tudo pode acontecer", resume Geddel, indicando que o cenário só estará definido em abril de 2002.Convicção mesmo, por enquanto, é só a de que o PMDB não terá participação oficial na aliança, como, aliás, não teve na reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Tudo o que a cúpula governista do partido conseguiu, na eleição de 1998, foi rejeitar a tese da candidatura própria, sem aprovar uma parceria que desse a Fernando Henrique os preciosos minutos do PMDB no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV.Essa situação pode repetir-se porque o candidato peemedebista à Presidência só será lançado - se for - em convenção específica em abril. "Em um cenário otimista de economia crescendo, crise energética superada sem apagão, câmbio controlado e base política pacificada, não há como negar que a tese da candidatura própria perde força", afirma Geddel.Hipótese - O quadro ideal para o governo seria o de Itamar candidato, fora do PMDB. Mas, como essa hipótese está descartada os peemedebistas ligados ao Planalto operam para emplacar a tese da candidatura própria. "A candidatura Itamar é útil para nós porque, além de dividir a oposição, o governador toma conta dos votos de Minas Gerais, o segundo colégio eleitoral do País, e fica impedido de sair de vítima, transferindo votos para o candidato do PPS, Ciro Gomes, por exemplo", raciocina um dirigente do PSDB, com esperanças de contar outra vez com os dissidentes do PMDB.Diante da avaliação das últimas pesquisas eleitorais, a cúpula tucana argumenta que, no momento em que 65% dos consultados rejeitam a idéia de votar no candidato do presidente, o governo passa a trabalhar com a sobra de 35% . "E se este é nosso teto no pior momento, é porque não estamos tão mal assim", diz o mesmo tucano.A impressão geral de que o PMDB ficará fora da aliança deixou o PFL à vontade para negociar a reedição da parceria com o PSDB. Tanto que se sentaram à mesma mesa na semana passada, para tratar de sucessão, os presidentes do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), e do PSDB, deputado José Aníbal (SP), e os ministros da Previdência, Roberto Brant (PFL), e das Comunicações, Pimenta da Veiga (PSDB)."A boa vontade para a gente ficar junto é o ponto de partida, mas não bastam juras de amor para que o povo nos queira", adverte Brant, ao defender a proposta de que os dois partidos construam um bom programa de governo, que dê aos eleitores "razões objetivas" para votar no nome do governo. Além disso, será preciso montar palanques comuns para o candidato nos Estados. "E isso não se faz sem renúncias e sem vítimas", adianta o ministro, convencido de que o sacrifício valerá a pena porque um bom palanque é fundamental "Já que não temos um nome forte que puxe votos, ele terá de ser puxado em cada Estado", resume, pragmático.Antes, porém, diz Bornhausen, será preciso uma conversa com Fernando Henrique. Com o diálogo entre os dois partidos reaberto ele planeja uma ida ao Planalto esta semana, com Aníbal. "Não podemos falar em diretrizes de governo e composição nos Estados sem saber do cronograma presidencial e da posição do presidente sobre as ações comuns, já que ele será o líder deste processo", justifica Bornhausen.

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