Governo terá dificuldades para substituir Palocci

A crise provocada pela evolução patrimonial do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e sua demora para se explicar publicamente, pode ter definitivamente enterrado o principal articulador da presidente Dilma Rousseff. Dono de um perfil que agrada ao mercado e conhecedor das entranhas do mundo político, dificilmente a presidente terá alguém à altura para substituí-lo, avaliam os analistas ouvidos pela Agência Estado. "O Palocci articulador morreu", concluiu o cientista político Carlos Melo.

DAIENE CARDOSO, Agência Estado

03 de junho de 2011 | 18h35

Para os analistas, a saída de Palocci é uma questão de dias. "Um ministro só fica nestas condições se o presidente for extraordinariamente forte e se tiver conforto no Congresso, situações que não ocorrem hoje", avaliou o cientista político Rubens Figueiredo.

A grande dificuldade do governo, na opinião dos analistas, será encontrar um substituto com os atributos de Palocci, uma vez que o desgaste da situação inviabilizou sua permanência no cargo. Melo diz que encontrar um substituto não é tarefa impossível, mas avalia que será muito difícil para a presidente encontrar alguém com o perfil de Palocci, que além de conselheiro contribui para encontrar o equilíbrio entre política desenvolvimentista e combate à inflação neste início de gestão.

Para o lugar de Palocci, Melo acredita que Miriam Belchior (Planejamento) e Paulo Bernardo (Comunicações) poderiam desempenhar as funções gerenciais da Casa Civil, assim como Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência) e José Eduardo Cardozo (Justiça) transitariam bem na área política. No entanto, nenhum deles conseguiria agradar gregos e troianos do mercado como o atual ministro da Casa Civil. "Palocci é visto como uma espécie de pau da barraca daquilo que restou da política econômica dos últimos 16 anos", explicou.

Já Figueiredo não acredita que Palocci seja tão indispensável para o setor econômico como foi nos primeiros anos do governo Lula, mas admite que o governo teria dificuldades para encontrar um bom substituto. "O governo tem condições de encontrar um articulador como o Palocci, mas não com os mesmo predicados que ele tem", afirmou. Para o cientista, Dilma teria que nomear alguém com capacidade administrativa, bom trânsito no Congresso e respeitabilidade dentro do PT, algo que Palocci já não desfruta mais. "Hoje um dos grandes problemas do Palocci é o PT, que não o vê mais como petista", emendou Melo.

Falha

Os analistas acreditam que o governo falhou ao minimizar a articulação política e fechar as portas do Palácio do Planalto para os partidos. Se mantido o estilo reservado de Dilma, seu governo corre o risco de ficar refém do Congresso e paralisar - sem conseguir avançar nas reformas e sem credibilidade na área econômica.

"A autossuficiência é o maior erro que um governo pode cometer. A Dilma não está agindo politicamente", ressaltou Melo. E lembra que essa foi a principal razão da derrocada do governo do ex-presidente e hoje senador Fernando Collor de Mello. "Nenhum presidente consegue governar sozinho. Lula e Fernando Henrique eram mais negociadores, foram formados na atividade política, enquanto Dilma vem do quadro administrativo. Esse estilo dela desagrada a classe política, mas não existe outra maneira de governar o Brasil sem a classe política", concordou Figueiredo.

Se por um lado o nível de satisfação social dá alguma segurança para Dilma, por outro uma crise como a gerada por Palocci pode causar uma turbulência maior para a presidente do que seria para seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva. "Dilma não tem a capacidade de comunicação de Lula e uma crise política no governo Dilma tem uma dimensão diferente de uma crise dessas no governo Lula", avaliou Figueiredo.

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