Governo retalia o 'não alinhado' PDT

Em represália por ter se recusado a apoiar em bloco o Planalto na votação do mínimo, sigla foi vetada em reunião de líderes na Câmara

Leonencio Nossa e Denise Madueño, de O Estado de S. Paulo

02 de março de 2011 | 23h00

BRASÍLIA - Depois de aprovar com folga no Congresso o salário mínimo de R$ 545, a presidente Dilma Rousseff realizou nesta quarta-feira, 2, no Palácio do Planalto, um encontro com 15 líderes aliados sem a presença de representantes do PDT, partido da base governista que apresentou o maior número de dissidentes nas votações.

 

O governo usou o encontro de "confraternização" para marcar posição no momento em que se prepara para levar ao Legislativo um projeto de mudança na tabela do Imposto de Renda. "Foi uma reunião em que a presidente convidou líderes 100% aliados a ela", afirmou o ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, em entrevista.

 

Mais cedo, setores do governo negaram que o Planalto estava no comando direto da retaliação ao PDT. A lista teria sido preparada pelo líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT). Ao deixar a reunião, o petista confirmou que tinha sido autor da lista dos convidados, mas deixou claro que fez os convites seguindo ordens. "Eu assumo a responsabilidade pelos convites. Eu só faço o que a presidente manda", afirmou. "Nós estamos num regime presidencialista. Essa decisão é do governo. A decisão é sempre do presidente."

 

A decisão de Dilma em não convidar o PDT foi visto por auxiliares como um aviso à direção do partido, que não estaria "freando" o deputado Paulinho Pereira da Silva (SP), um dos principais críticos à proposta do governo para o salário mínimo. Esses assessores disseram que Dilma avisou o comando do PDT que a legenda tem um ministério - Carlos Lupi, do Trabalho. O Planalto avaliou que Lupi atuou no partido para aprovar os R$ 545, mas foi neutralizado por Paulinho.

 

Conselho. Em entrevista, o ministro Luiz Sérgio disse que o PDT poderá participar de novos encontros com a presidente. Ele afirmou que o partido vai compor o Conselho Político, órgão que Dilma pretende restabelecer e que reúne presidentes e líderes de partidos aliados.

 

"Não trabalhamos com retaliação", disse o ministro. "Quero reafirmar: o governo convidou os líderes. Foi um primeiro contato." O líder do PR, Lincoln Portela (MG), disse em tom de ironia que a ausência do PDT sequer foi comentada. "A conversa aconteceu tão naturalmente que nem lembramos. Isso quem está me lembrando agora são vocês", afirmou. "O PDT não está fora da base. É um da base, mas quem responde pelo PDT não sou eu."

 

O líder do partido, Giovanni Queiroz (PA), ironizou o encontro, mas preferiu não trombar. "A presidente é uma mulher extremamente inteligente. Ela não me deixou no constrangimento de ter de recusar o convite. Aqueles que foram ao Palácio estavam comemorando o salário mínimo de R$ 545 e eu gostaria de estar comemorando outro valor", afirmou. "Sou um perdedor nessa causa."

 

Ele disse que a bancada atua com uma linha programática. "Não existe alinhamento automático. Somos aliados, e não subordinados." O líder afirmou não ter ressentimento por não ter sido chamado à reunião da base com a presidente e negou que haja uma relação estremecida entre o governo e a bancada.

 

O PDT não deverá dar trabalho ao governo na votação da correção da tabela do Imposto de Renda. O governo defende o índice de 4,5%, mas há propostas da oposição de 10%. "Talvez não tenhamos dificuldade de votar com a presidente nesse caso. No entanto, a área técnica está fazendo um estudo do tema."

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