DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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'Governo quer me arrastar para a lama', diz Cunha ao anunciar rompimento 'pessoal'

Em coletiva realizada nesta sexta-feira, presidente da Câmara anunciou a sua ruptura com o Planalto e disse que vai defender que seu partido também quebre a aliança

José Roberto Castro, Victor Martins e Daniel Carvalho, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2015 | 12h28

Atualizado às 15h48

BRASÍLIA - Além de anunciar, como era esperado, seu rompimento pessoal com o governo, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse na manhã desta sexta-feira, 17, que vai defender que o PMDB saia do governo. "Eu, como político e deputado do PMDB, e não como presidente da Câmara, vou pregar no congresso do PMDB, em setembro, que o PMDB saia do governo. Eu, pessoalmente, a partir de hoje, me considero com um rompimento pessoal com o governo", disse Cunha, um dia depois que veio a público o depoimento do lobista Júlio Camargo, que acusa o peemedebista de cobrar US$ 5 milhões em propinas.

Logo após o posicionamento do peemedebista, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República divulgou uma nota sobre a aliança com o PMDB. O texto lembra que, desde o governo Lula e durante o governo de Dilma Rousseff, o PMDB integra as forças políticas que dão sustentação ao projeto de transformação do País. "Tanto o Vice-Presidente da República como os Ministros e parlamentares do PMDB tiveram e continuam tendo um papel importante no Governo", cita a nota. O texto ressalta, ainda, que "o Governo sempre teve e tem atuado com total isenção em relação às investigações realizadas pelas autoridades competentes".

Cunha disse que, como deputado, não aceita que o PMDB faça parte de um governo que quer arrastar os que o cercam "para a lama".

O presidente da Câmara se defendeu das acusações de ter recebido propina e atacou o governo, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o juiz Sérgio Moro e os delatores Julio Camargo e Alberto Youssef. Cunha vai pedir ainda que o processo vá para o Supremo Tribunal Federal.

Segundo Cunha, "estão pegando dados do Youssef seletivamente", uma vez que o doleiro disse que Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva sabiam do esquema, mas não foram alvo de inquérito.

Posicionamento. O presidente da Câmara disse que defenderá, no Congresso do PMDB, em setembro, que o partido desembarque do governo e passe a fazer oposição. Questionado se não seria inviável o PMDB ir para oposição tendo Michel Temer como vice-presidente da República, ele disse que não. "Ele é indemissível", disse.

Cunha reclamou do que ele classificou como devassa fiscal à sua vida em decorrência de uma fiscalização da Receita Federal. "Não vou ser constrangido para que meu posicionamento seja favorável ao governo", afirmou. "Continuarei com meu comportamento independente, sem mudar uma vírgula", garantiu.

Ele disse ainda que não pode falar pelo PMDB, que não obrigará ninguém a segui-lo e que apesar desse rompimento, continuará a pautar as matérias do governo normalmente. "Mesmo que PMDB continue apoiando o governo, minha posição será essa", afirmou. Cunha explicou que o vice-presidente Michel Temer foi informado e que ele respeita sua decisão. Garantiu também que não há qualquer rompimento com o vice-presidente. "Se o partido decidir que tem de sair dos ministérios, tem de sair. É uma decisão do partido", observou. 

Para o parlamentar, as ações da Procuradoria-Geral da República são orquestradas com o governo. Ele questionou por que não foram abertos inquéritos contra os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Edinho Silva (Secretaria de Comunicação Social). Indagado sobre um possível procedimento de impeachment da presidente Dilma Rousseff, Cunha disse que vai olhar tudo com "olhos da Constituição e da lei". 

"Não tenho leitura de oposição ou situação, mas dos fatos", disse. Ele ainda se defendeu das declarações feitas por Julio Camargo, que acusou o peemedebista de ter recebido US$ 5 milhões em propinas. "Não houve recebimento de dinheiro direto ou indireto", garantiu. Ele afirmou ainda que não existe blocão e que não está se articulando com outros deputados para formar uma oposição. "Não acho que tem de tacar fogo no País por causa de uma briga política. Não sou do tipo incendiário, que põe fogo na economia", disse. 


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