Governo pune sem-terra que participam de invasões

O governo reagiu à onda de invasões promovida pelo Movimento dos Sem-Terra suspendendo, por dois anos, as 22 áreas ocupadas neste fim de semana dentro da programação da Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Além disso, os manifestantes que participam do programa de reforma agrária do governo serão colocados no fim da fila de espera para assentamentos.Outra novidade é a instalação do Comitê de Acompanhamento e Solução de Conflitos, que substituirá a Ouvidoria Agrária Nacional na negociação com manifestantes. ?Os que estiverem democraticamente lutando por direitos serão recebidos por dirigentes do ministério que integram o comitê. Em caso de quebra-quebra e saques, o assunto ficará a cargo da polícia?, avisou o ministro do Desenvolvimento Agrário, José Abrão. Do comitê participam dez assessores do ministério, entre os quais o presidente do Incra, Sebastião Azevedo, o secretário-executivo do ministério, Orlando Muniz, e o próprio ouvidor Gercino José da Silva Filho. A última participação solitária do ouvidor na intermediação de conflito ocorreu durante a invasão da fazenda dos filhos do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG) pelo MST. Os líderes do movimento acabaram presos, mesmo depois de Gercino ter empenhado a palavra de que não haveria punição. O ouvidor pediu demissão, mas acabou sendo convencido a permanecer no cargo. Ele só aceitou continuar na Ouvidoria depois de cinco reuniões, quando percebeu que ainda contava com o apoio dos movimentos e que a prisão dos 16 líderes em Buritis não resultou na quebra de credibilidade em sua interlocução com o governo e sem-terra.Das 22 fazendas excluídas do programa de reforma agrária por terem sido invadidas por sem-terra, cinco já estavam em processo de desapropriação. A maioria das áreas situa-se em Pernambuco. Uma delas fica em Bragança Paulista (SP), enquanto as demais estão situadas em Alagoas, Ceará, Goiás, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul. Neste ano, duas outras propriedades já tinham saído do programa do governo por causa das invasões. O ministro José Abrão garantiu que as ocupações são de natureza "política-eleitoral", além de coincidirem com o aniversário do massacre de Eldorado de Carajás. Ele diz que o próprio MST anunciou o calendário de invasões até maio, antes de se iniciar a campanha eleitoral. Para o ministro, esta estratégia é um engano: "Atrasa a reforma agrária e prejudica o candidato que recebe apoio", sustentou. O eleitor, assegura o ministro, dará sua resposta nas urnas. Ele lembra que, em recente pesquisa, 74% dos entrevistados condenaram a ocupação de prédios públicos. Abrão diz que o MST ganhou apoio da população quando promoveu uma grande marcha a Brasília, sem interromper o trânsito nas rodovias e sem saquear caminhões. Para inibir a radicalização do movimento, o ministro reafirmou que continuará exigindo dos invasores reparação de danos ao patrimônio público e que exonerará superintendentes do Incra que não efetuarem a cobrança. Anunciou também que romperá todos os convênios com os municípios em que prefeitos cederem carros para facilitar a manifestação dos sem-terra. E para proteger assentados que estariam sendo coagidos pelo MST a participar, até financeiramente, das invasões, o governo promete garantir a posse dos lotes. "Quem assenta não é o MST, é o governo federal", afirmou.

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