Governo paraguaio negocia para evitar conflito com brasileiros

Representantes do governo Lugo se reuniram com líderes dos sem-terra para discutir trégua

José Maria Tomazela, de O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2012 | 18h20

SOROCABA - Enviados do governo paraguaio abriram na sexta-feira, 3, as negociações com os líderes dos carperos, como são chamados os sem-terra no país vizinho, na tentativa de evitar um conflito com os brasiguaios - agricultores brasileiros que vivem no Alto Paraná, na fronteira do Paraguai com o Brasil. Desde a semana passada, pelo menos sete mil carperos estão acampados na região, próxima de Foz do Iguaçu, no Paraná, para pressionar os brasiguaios a abandonar as terras. Várias fazendas de brasileiros e descendentes continuavam invadidas no município de Santa Rosa del Monday, a 50 km da fronteira.

 

O policiamento na região continuava ganhando o reforço de mais tropas paraguaias. Representantes do governo do presidente Fernando Lugo se reuniram com líderes dos sem-terra para discutir uma trégua nas invasões. Houve um acordo para melhorar a distribuição de alimentos às famílias acampadas. Informações não oficiais davam conta de que as autoridades paraguaias suspenderam temporariamente o cumprimento de ordens de despejo de três imóveis rurais ocupados na região de Ñacunday para não acirrar o conflito. Oficialmente, o governo informou que a ordem será cumprida após o levantamento de dados sobre as áreas, bem como de seus ocupantes, e que a ação de despejo, quando se realizar, será acompanhada pelo Ministério Público.

 

Enviados do governo brasileiro também estiveram na sexta-feira na região, conforme informou o secretário-executivo do Sindicato Rural de Foz do Iguaçu, Paulo Muller. "Os dois governos estão trabalhando para evitar um conflito e parece que a situação agora está mais calma", disse. O sindicalista não soube precisar a procedência da delegação brasileira. Segundo ele, a polícia paraguaia mantém patrulhas nas rodovias, mas as estradas de acesso aos acampamentos são controladas pelos carperos. "Só entra ou sai quem eles deixam." De acordo com Muller, os brasiguaios que fixaram residência no Paraguai são, na maioria, mais ligados ao país vizinho. "Muitos nunca voltaram para o lado brasileiro."

 

As terras reclamadas pelos carperos foram adquiridas pelos brasileiros há até 40 anos. São cerca de 10 mil propriedades onde vivem pelo menos 50 mil brasiguaios. O conflito se acirrou em razão de uma lei editada em 2005 que proibiu a venda de terras aos estrangeiros numa faixa de 50 quilômetros da fronteira. De acordo com Muller, muitas áreas são melhores e mais férteis que as terras brasileiras para a produção de soja, milho e trigo. "É por isso que os proprietários não saem de lá por nada e se armaram para defender suas terras." Na imprensa paraguaia, o conflito divide opiniões. "Os brasileiros são mais capazes para ensinar-nos a cultivar?", pergunta Ireneo Martinetti Fariña em texto postado na internet. Para o paraguaio Edgar Britos, o governo deveria expropriar as terras apenas de quem tem títulos falsos. "A lei de seguridade fronteiriça está em vigor desde 2005, mas não pode afetar os donos que adquiriram as terras antes disso."

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