Governo paga caro por ajuda a Sarney

Lula e PMDB estão mais próximos, mas bancada do PT sofre desgaste

Marcelo de Moraes, O Estadao de S.Paulo

18 de julho de 2009 | 00h00

Interessado em garantir o apoio formal do PMDB para a candidatura presidencial da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu não medir esforços para salvar a cabeça do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Se o socorro a Sarney aproximou Lula do PMDB, também se tornou um fardo pesado dentro do governo, provocando sérios efeitos políticos colaterais.O preço de ajudar Sarney tem sido caro para o governo. Desmoralizou a bancada do PT no Senado, obrigada a apoiá-lo mesmo contra a vontade.Não impediu a abertura da CPI da Petrobrás considerada de alto risco político e empresarial dentro do governo. Também acirrou os nervos dentro do Senado, especialmente depois de Lula afirmar que os senadores são "bons pizzaiolos", insinuando que preparariam uma pizza dentro da CPI da Petrobrás porque não pretendiam investigar nada, mas apenas criar problemas para o governo e para a empresa. Imediatamente, o Planalto foi retaliado com a derrubada da indicação de um técnico para uma diretoria da Agência Nacional de Águas.Além disso, o preço do apoio de Lula a Sarney e ao PMDB pode custar ao PT a cabeça de chapa em acordos regionais importantes para 2010. Isso inclui Estados estratégicos como Rio de Janeiro e Minas Gerais, o que tem provocado grande inquietação dentro dos diretórios regionais do PT.Além da insatisfação petista com a situação, a defesa irrestrita de Sarney já provoca também estragos em outros partidos da base aliada. No PSB, por exemplo, o aborrecimento é aberto e aumentou ainda mais com o veto dado pelo PMDB à indicação do senador Antônio Carlos Valladares para presidir o Conselho de Ética responsável por julgar as supostas irregularidades cometidas por Sarney à frente do Senado.O veto peemedebista atingiu simultaneamente o PSB e o próprio líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), que negociou politicamente até com a oposição para que o nome de Valladares - um senador governista, mas de comportamento moderado - fosse aprovado para o Conselho. Depois de ter seu nome barrado, Valladares renunciou ao posto no Conselho, sendo acompanhado na decisão pelo líder do PR no Senado,João Ribeiro (TO). Para documentar o mal-estar, Valladares e Mercadante trocaram cartas, reclamando contra o comportamento do PMDB e da omissão do governo diante da situação."Em nenhum momento, pedi ou desejei assumir posição tão delicada e complexa da Presidência do Conselho, que exige muita serenidade e dedicação integral. Garanto-lhe que, se assumisse função tão espinhosa, faria o trabalho de maneira correta, com isenção e imparcialidade, sem jamais afrontar o direito e a Justiça", escreveu Valladares, agradecendo o apoio dado a seu nome por Mercadante e pela oposição. Na resposta ao senador, Mercadante deixa claro seu aborrecimento e avisa que não terá mais qualquer responsabilidade pelos destinos do Conselho de Ética."Do nosso ponto de vista, na presidência do Conselho de Ética você poderia contribuir com o equilíbrio necessário a uma tarefa tão difícil quanto a de presidir um conselho que julga outros senadores. Durante todo o processo, apoiei sua indicação e fiquei surpreso com a retirada de apoio por parte da bancada do PMDB e, posteriormente, por sua decisão de renunciar, sob o argumento de que não havia consenso na base", lamenta Mercadante na carta.Na prática, a situação tende a se agravar no segundo semestre, quando o Senado voltará do recesso parlamentar. A pauta da Casa está repleta de agendas difíceis para o governo, como o funcionamento da CPI da Petrobrás e do Conselho de Ética. E nas votações dentro do plenário, onde o governo sempre teve maioria apertada, projetos de interesse do Palácio do Planalto enfrentarão forte oposição.Somente um fator poderia alterar esse clima. Trata-se da renúncia de Sarney à Presidência. A hipótese, porém, não é admitida nem pelo senador, nem por seus principais aliados, inclusive o presidente Lula. "O presidente Sarney não tem motivo nenhum para sair do cargo. Ele continua forte porque as denúncias contra ele não se sustentam", afirma o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), principal condutor político da defesa de Sarney dentro do Senado e no PMDB.Para Renan - ele mesmo afastado da Presidência do Senado em 2007 -, o processo contra Sarney é conduzido pelos mesmos políticos que trabalharam para tirar-lhe o comando da Casa. "É o mesmo processo conduzido pelas mesmas pessoas que já não aceitaram a minha vitória", afirma.Apesar dessa defesa, a crise do Senado tem servido para destruir a reputação do Congresso e esfacelar cada vez mais a base aliada. Até mesmo aliados do Planalto já admitem abertamente que somente a renúncia poderá melhorar a situação."Na minha opinião, Sarney está ficando como um cadáver político exposto em público. Deveria renunciar à Presidência do Senado para o bem da instituição. Não adianta o governo me pedir para apoiá-lo porque isso não acontecerá", avisa o senador Renato Casagrande (PSB-ES). "Na rua, a imagem está muito ruim para todo mundo. O PT já está pagando um preço muito alto e a base aliada também. Sarney tem um peso político, mas o custo disso está sendo muito alto para todo mundo", afirma.

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