Governo não dá proteção e índios são assassinados em PE

Dois índios foram mortos com tiros na cabeça, e o cacique da tribo dos Xucurus, Marcos Luidson de Araújo, de 24 anos, foi ferido nesta sexta-feira por volta das 10h30 numa emboscada em Pesqueira, no agreste, a 215 quilômetros do Recife. Marcos é filho do cacique Francisco de Assis Araújo, o Chicão, morto em maio de 1998 por liderar uma luta pela terra, e vem sofrendo ameaças de morte, assim como sua mãe Zenilda, desde a morte do pai. As ameaças levaram a Organização das Nações Unidas (OEA) a recomendar proteção aos dois indígenas, ao governo brasileiro, em outubro do ano passado, o que ainda não foi cumprido. "Tudo isso poderia ter sido evitado, se o cacique estivesse sob proteção federal", afirmou o representante do Gabinete de Assessoria às Organizações Populares (Gajop), Leonardo Hidaka. O atentado a Marcos e a morte de Adenílson Barbosa da Silva, de 19 anos, da tribo Xucuru, e Joseílton José dos Santos, cerca de 25 anos, da tribo Atikun, ocorreu na estrada que liga Pesqueira à Vila de Cimbres, onde moram índios e não-índios. Eles ocupavam um caminhão da comunidade, dirigido por Marcos, que foi obrigado a parar porque a pista havia sido interditada com gado. Assim que o veículo parou, um grupo de homens começou a atirar contra eles. O crime provocou a revolta do povo xucuru, que incendiou carros nesta mesma estrada e derrubou uma casa na Vila de Cimbres, onde acreditavam que os criminosos haviam se escondido. Os xucurus suspeitam do envolvimento de fazendeiros e do índio xucuru Expedito Alves Cabral, também fazendeiro e contrário à luta do seu povo, no atentado. Uma equipe de 20 homens da Polícia Federal era esperada no local à tarde, segundo o delegado de Pesqueira, Ari Roma. O vice-presidente nacional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Saulo Feitosa, entrou em contato com o Ministério da Justiça, solicitando a presença da Polícia Federal e pedindo que os corpos dos mortos sejam periciados no Recife para garantir a lisura dos exames. Para ele, o atraso na regularização das terras indígenas é o principal motivo das mortes. Ele afirmou que, somente neste ano, cinco índios foram assassinados no País, quatro deles por conflito fundiário - os de Pernambuco, um em Roraima e outro no Mato Grosso do Sul. O outro, um ancião, teve fogo ateado em seu corpo no Rio Grande do Sul. Os 9 mil índios xucurus de Pesqueira têm direito a uma área de 27 mil hectares, já demarcada e homologada pelo governo federal. Eles ocupam, porém, apenas 20% desta área porque falta a indenização de 281 propriedades. Saulo Feitosa afirmou que o decreto 1775/96, do governo Fernando Henrique Cardoso, tumultuou as demarcações ao favorecer os invasores de terras indígenas, permitindo que qualquer pessoa possa contestar a homologação das terras. "Desde então, quatro xucurus morreram em Pesqueira", informou. Dos quatro, dois eram caciques, Chicão e Francisco Santana, o Quelé, este assassinado em 2001. Nesta sexta-feira pela manhã, o Gajop lidera um ato público, defronte ao monumento Tortura Nunca Mais, no Recife, repudiando a violência contra os índios. O Gajop, o Cimi e o Movimento Nacional dos Direitos Humanos participam de audiência - anteriormente marcada - na sede da OEA, em Washington, nos Estados Unidos, no dia 27, para discutir o caso dos xucurus. A instituição internacional já foi comunicada do atentado.

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